Quarta-feira, 21 de Março de 2007

Para que serve um manual?

Em tempo de muitas matérias em discussão sobre educação, os manuais escolares ocupam um lugar central. Isto acontece porque os manuais são a ferramenta, o instrumento usado para transmissão de conhecimentos. Na minha prática de professor, um mau manual pode contribuir, por vezes de forma decisiva, para a degradação do ensino e das aulas. Por outro lado, os manuais são a referência de estudo para os alunos, na maior parte das vezes, a única referência. No nosso país chegou-se a um estado deplorável com manuais que incluem fotografias que vão desde as personagens dos morangos com açúcar, a shows televisivos, etc… Os manuais do ensino secundário português são, com raras excepções, um autêntico desfile carnavalesco de figuras famosas ou alusões ao supérfluo. Curiosamente são muito mal cuidados do ponto de vista dos conteúdos. Pensa-se, fruto do «eduquês», que os alunos vão estudar mais porque o manual faz referência ao seu herói preferido. O mais grave ainda é que este estado em que se encontram grande parte dos manuais, é uma consequência directa da falta de rigor e conteúdos dos programas das diferentes disciplinas. Como os programas partem do pressuposto de um ensino centrado no aluno, então subestima-se os jovens e há que dar azo à imaginação mercantil com o vale tudo nos manuais para cativar os nossos alunos. Curiosamente a minha experiência de ensino é já suficiente para provar que não é isto que cativa os alunos. O aluno médio está-se “nas tintas” que o manual traga uma fotografia do seu herói televisivo ou que apresente um texto simplório sobre um diálogo qualquer de café. O que fascina os neófitos é precisamente o rigor e clareza com que os conteúdos de conhecimento são apresentados. Se são apresentados de forma clara e rigorosa, os alunos gostam, se não o é, os alunos nem sequer se incomodam em abrir o manual. Qualquer aluno meu interessa-se mais com um texto que possa levar sacado a um qualquer livro da colecção Ciência Aberta ou Filosofia Aberta, ambas da Gradiva. Costumo até ter alunos ou que acabam a comprar os livros ou pedem-mos de empréstimo. Mas estes são os mesmos alunos que, com efeito, não abrem os manuais da escola. Recentemente levei um livrinho pequeno, que não possui qualquer imagem ou desenho, para as minhas aulas. Chama-se, A mais bela história do Mundo, os segredos das nossas origens, de Huebert Reeves, Joel De Rosnay, Yves Coppens e Dominique Simonnet, ed. Gradiva, um livro de entrevistas aos cientistas autores do livro. Abri-o numa página à sorte e lancei a pergunta aos alunos que lá vem no livro: “- Como se formam os planetas?”. Pude passar uns belíssimos momentos de aula com os meus alunos a tentar descortinar o universo e o conhecimento.
 
Pobres com mentalidade de ricos
Recentemente chegou-me às mãos um manual inglês de filosofia. Chama-se Philosophy in practice, an introduction to the main questions, de Adam Morton. Qual o meu espanto! Afinal o manual chega-me de um país rico, mas não possui uma única cor a não ser o negro das letras em contraste com o branco do papel. Mas o que se seguiu foi ainda mais perplexo: o manual é claro e rigoroso, explica a filosofia com uma suavidade como se estivéssemos dentro de uma nave a percorrer as principais obras da história da filosofia. Desenganem-se aqueles que pensem, pelo que acabei de afirmar, que se trata de uma história da filosofia. Não! Trata-se de um livro que nos introduz directamente aos problemas centrais da filosofia. De repente senti uma revolta enorme. Apeteceu-me traduzir o livro de fio a pavio e baldar-me para as leis de adopção dos manuais. Imprimia uns quantos exemplares em minha casa e levava-o para as minhas aulas. A filosofia, quando é tratada assim, tem uma vitalidade tão grande, que dispensa qualquer adorno porque está a jogar em casa, confrontando o aprendiz com os seus problemas, de forma directa, clara e apetecível. Estou certo que os meus alunos agradeciam a minha tradução e dispensariam de boa vontade o manual português, feito com papel de qualidade, com fotografias impressas com todas as tonalidades que a fotografia actualmente possibilita, com os seus múltiplos cadernos de actividades que ninguém usa nem pega, com os seus poemas a tomar o lugar onde deveriam estar os textos e problemas filosóficos, com as suas alusões patetas de que filosofia é escrever muito e dar muita “palha”, com os seus conteúdos expostos em bloco e de modo somente histórico fazendo confundir a filosofia com a história, com a sua conversa de café transformada numa espécie de sociologia barata para a qual um adolescente não tem paciência, com sua linguagem confusa e ininteligível para um adolescente, com… com… com…. Enfim, com um manual que, afinal de contas, é uma evidente perda de tempo e com o qual nada se pode aprender de realmente significativo e atraente, um manual que apenas promove a estupidez dos mais jovens. Eles merecem mais! Todos precisamos do conhecimento.
Mas há sinais de esperança! No caso concreto da filosofia, o manual A Arte de Pensar, Didáctica Editora de Aires Almeida, António Paulo Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus e Pedro Galvão é uma pérola. E para prová-lo convido o leitor leigo em filosofia ao seguinte exercício: compre o manual A Arte de Pensar, leve-o para casa. Leia-o. Depois diga-me se a filosofia é ou não atraente! Afinal, por vezes, tinham-nos contado uma má história. Mas ela pode ser bem contada.
 
Adam Morton, Philosophy in practice, an introduction to the main questions, Blackwell (first published 1996; reprinted 1996, 1998, 1999)
 
Aires Almeida, António Paulo Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus e Pedro Galvão, A Arte de Pensar 10 e 11, Didáctica Editora, 2003
Rolando Almeida
publicado por rolandoa às 22:57

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12 comentários:
De maria a 23 de Março de 2007 às 21:31
não sei se concordo totalmente consigo. sou professora de filosofia e o maior problema que eu encontro é precisamente em conquistar os alunos para a filosofia. conquistar porque? os alunos não sabem ao que vão, e normalmente têm uma má impressão da disciplina, que lhes é transmitida por alunos que já a frequentaram. o problema não está nos manuais mas sim em quem lecciona. Não devemos apresentar a filosofia como algo de pura abstracção e de difícil acesso. aí entram os manuais. Suporte e auxilio para contextualizar aquilo que se lecciona. Não é obrigatório que seja confuso ou inacessível. Pode ser apresentado de uma forma aberta que apele à reflexão, aí poderemos encontrar melhores ou piores manuais...no entanto para jovens que começam a entrar no pensamento abstracto um suporte como o manual, e os que temos de alguma forma cumprem o seu objectivo, parece me aceitável.
De rolandoa a 23 de Março de 2007 às 22:34
Olá Maria,
Antes de tudo obrigado pela sua visita. Os alunos chegam com uma má ideia da filosofia porque outros lhe contaram. De acordo. De todo o modo há uma má experiência de ensino da filosofia, caso contrário, os alunos que já contactaram com a filosofia transmitiam aos mais jovens uma experiência positiva com a disciplina. O que acontece que é que parte significativa do trabalho num saber passa por boas leituras, traduções competentes, actualização bibliográfica, etc... Nós gostamos de aprender mais filosofia por bons livros de filosofia e é natural que pensemos que essa experiência é a mesma que um jovem aluno tem. Se tem um bom manual, bem escrito e didacticamente intuitivo, para além de científicamente rigoroso, os alunos tem uma boa fonte para terem prazer em aprender. É claro que um bom manual com um mau professor produz igualmente maus resultados. De resto, como a Maria sabe, temos manuais que no lugar dos textos filosóficos encontramos poesia ou textos históricos. Defendo no meu artigo que desse modo temos uma má ferramenta para ensinar bem filosofia. E um professor com deficiências com um manual deficiente é a simbiose perfeita para o desastre no ensino da filosofia.
Abraço
Rolando Almeida
De maria a 25 de Março de 2007 às 11:15
bom dia,

eu estou de acordo consigo. a filosofia não tem de ser banalizada, deve ser vista como uma disciplina cheia de valor. a banalização, no meu entender leva sempre à mediocridade. também tem razão quando se refere a maus manuais... e maus professores???? não pensa que também estamos a atravessar uma fase complicada? esta tema levar-nos-ia a uma discussão demorada, mas com todo o sentido.
abraço
De rolandoa a 25 de Março de 2007 às 15:57
Maria,
Claro que a discussão sobre o estado da educação em Portugal é um túnel onde ainda mal se vê a luz ao fundo. E é verdade que as circunstâncias profissionais não são as melhores. Há, com efeito, aqui um ponto perverso: o Ministério da Educação toca nas questões profissionais dos professores sob o lema "excelência na educação". Ora, a minha perspectiva é que a excelência da educação passa pela boa formação dos alunos (no ensino superior também) e a boa formação passa por ter boa bibliograia actualizada, boas acções de formação para professores (e não essas tangas pegadas das pseudo pedagogias), bons programas que não apresentem o esvaziamento de conteúdos como o programa de filosofia onde cada um faz o que quer. A motivação decorre daqui e não pela questão profissional dos professores que a política educativa impõe. Suponho que nós, portugueses, confiámos mais no Sebastião salvador, o messias, do que na nossa capacidade de esforço e empenho. Estavamos à espera que algum político genial resolvesse todos os problemas da educação. Mas o actual governo trouxe-nos precisamente uma ministra que nos pune e castiga. E agora anda tudo num alvoroço. Fazer um bom trabalho com a filosofia, mostrar a sua relevância no mundo dos jovens é a melhor resposta que podemos dar à política e ao Ministério. Mas isso leva tempo e exige esforço. E tal passa por pôr as pessoas comuns interessadas na e com a filosofia. E para isso precisamos de bons materiais e formação de qualidade. É isto que defendo e, daí, o meu artigo sobre os manuais.E defendo as coisas no sentido que o meu artigo aponta porque tenho razões fortes para o pensar assim. Mas haja quem me dê razões melhores, porque, não estou a descobrir a pólvora. Quero somente dizer que, como a Maria muito bem refere, é uma discussão que aponta outras reflexões. Sem dúvida! Mas é preciso agir. E uma boa acção para mostrar um ensino de qualidade na filosofia, começa também numa escolha acertada de um bom manual. Não podemos esquecer que temos alguns manuais interessantes para nós professores. Curiosamente se pensarmos do ponto de vista do aluno, quantos manuais são realemente bons, numa escrita clara e rigorosa? Muito poucos. E este é a razão que me fez objectar parte do que a Maria refere no seu primeiro comentário: na verdade um bom professor pode ensinar bem com um manual razoável, mas o meu ponto de vista é outro. Trata-se de saber se um aluno pode estudar bem por um manual mau ou razoável, ainda que tenha o melhor professor do mundo? Se pensarmos nestes termos, as alternativas que nos sobram para escolher um manual resumem-se a 3 ou 4 manuais em cerca de vinte.
Até breve
Rolando Almeida
De António Matos Rodrigues a 25 de Março de 2007 às 18:57
Obrigado. Vou comprar. Não percamos a esperança no valor do conhecimento.
http://ola-emidio-adeus.blogspot.com/2006/03/11-pensar.html
De rolandoa a 25 de Março de 2007 às 22:43
Obrigado pela visita António,
Vou visitar o seu blog
abraço
Rolando Almeida
De Daniel Brisolara a 5 de Abril de 2007 às 04:18
Pelo que li do seu texto pareceu-me que a história da filosofia é algo que se abomina ao se pensar na confecção de um manual didático. Por que isso ocorre? Eu penso que se a filosofia é plural, então ela só pode manter esse seu caráter apresentando aos alunos os mais diversos modos de fazer filosóficos já feitos e consagrados ao longo da história. E apresentar apenas um modo de fazer filosofia significa deixar esses outros modos de lado. Claro que toda posição reivindicará para si o autêntico modo de fazer filosofia, mas isso não seria injusto com os alunos? Acho que essa questão dos debates em filosofia não é ponto pacífico. Em países onde a filosofia analítica predomina há uma preocupação com os debates, já em outros não é assim. Não sei se Hegel concordaria com uma filosofia que se faz por debates, para citar um grande autor.

Ao mesmo tempo que considero válidas as críticas a linguagens obscuras de certas filosofias e filósofos, também sinto um certo receio em relação a clareza excessiva. No primeiro caso há uma tendência a construção de religiões em torno de um autor. Há a necessidade de ser um enunciado para pensar certos conceitos propostos por um determinado autor. Já no segundo caso há um desprezo grande com esses autores obscuros. E ao fazer isso se perde muito da própria história da filosofia. Acaba-se jogando certos autores de lado tendo em vista a clareza. Que filosofia seria essa que estamos fazendo e ensinando? Você vê esses meus questionamentos como problemas? Isso te incomoda? Gostaria de saber o que pensar mais claramente sobre esses problemas que giram em torno da filosofia.

De rolandoa a 6 de Abril de 2007 às 02:30
Olá Daniel,
Antes de tudo obrigado pela visita e pelo comentário que suscita uma questão muito interessante. Na verdade não se abomina a história da filosofia e defendo que um manual deve sempre contemplar os autores e textos clássicos da filosofia, nos quais, os problemas filosóficos são colocados tal qual ainda hoje os entendemos. Mas a história da filosofia serve tanto para se ensinar e fazer filosofia, tal como a história da biologia serve para se ensinar ou fazer biologia. Certamente que o Daniel acharia estranho entrar num curso de biologia e pouco mais estudar senão a história da biologia. E penso que o mesmo é atribuível no estudo da filosofia. O que nos interessa na filosofia são os problemas filosóficos. A sua história é muito útil, mesmo vital, para os compreender. Mas não os resolve. O Daniel refere ainda: “Em países onde a filosofia analítica predomina há uma preocupação com os debates, já em outros não é assim. Não sei se Hegel concordaria com uma filosofia que se faz por debates, para citar um grande autor.” Nos países onde a filosofia a sério se desenvolve existe sem dúvida um predomínio com o debate, mas o estigma da filosofia analítica está já ultrapassada. Ou, se quisermos, toda a filosofia é analítica. De outro modo a filosofia não se faz senão entrando no debate, ou directamente, ou pelas obras dos filósofos. E, curiosamente, Hegel não esteve imune a este debate. Aliás, conheço poucos filósofos que se tivessem furtado ao debate. Talvez o caso de Wittgenstein constitua uma excepção, mas não Hegel. Hegel colaborou com Shelling e remodelou alguns princípios de Kant, só para citar breves exemplos.
No que respeita à clareza, temos uma tendência para pensar que enquanto menos compreendemos um autor, mais profundo ele é. Mas este princípio pode estar errado. É evidente que existem filósofos que escrevem de modo mais claro e outros de modo mais obscuro. Isto é discutível. Mas note, Daniel, que estamos a falar de um manual de filosofia e não de uma obra de filosofia. Um manual é feito para principiantes e não especialistas numa ou noutra área da filosofia. E sendo feito a pensar em principiantes, a melhor via é que seja tanto claro quanto possível. Não existe qualquer ideia estranha em ser excessivamente claro. Claro não é sinónimo de vago. Leia, por exemplo, os problemas da filosofia de Russell ou até alguns diálogos de Platão. São escritos numa linguagem clara e não deixam de apresentar os problemas de forma sistemática e organizada. Mas se ler o Ser e Tempo de Heidegger não terá esta visão da clareza. Mas não é por ser pouco claro que o dasein de Heidegger constitui uma referência maior que o problema da indução tal como, de forma muito clara, o expôs David Hume.
Em conclusão: reduzir a filosofia à sua história ou à interpretação exegética dos textos obscuros, isso sim, é prestar um mau serviço à filosofia. Por outro lado, pensar nos argumentos e teorias dos filósofos e, com elas, pensarmos nós próprios nesses argumentos e nas suas falhas, isso, parece, é fazer filosofia e torná-la naquilo que ela é, actividade crítica, ainda que se lhe queira impor o epíteto de analítica, fenomenologia, sistemática, pragmática ou o que nos apetecer.
Ajudei?
Abraço
De Daniel Brisolara a 7 de Abril de 2007 às 21:57
Olá Rolando!

Obrigado pela resposta e pela paciência por ler meu comentário.

Penso que uma diferença fundamental entre a filosofia e qualquer ciência é que na filosofia não progredimos (se progredimos, como é possível pensar o progresso na filosofia?). Portanto, enquanto nas ciências é importante que se estude os problemas científicos atuais, para nós, estamos sempre começando "do zero". Qualquer posição pode ser reanimada e defendida. A história para nós tem um peso maior.

Você disse: "De outro modo a filosofia não se faz senão entrando no debate, ou directamente, ou pelas obras dos filósofos. E, curiosamente, Hegel não esteve imune a este debate. (...) Hegel colaborou com Shelling e remodelou alguns princípios de Kant". Mas Hegel gostaria de ser aceito integralmente e não apenas ser mais um argumento em meio a tantos. É quase uma visão de mundo que deseja se impor. E não apenas um ou outro argumento querendo refutar alguma resposta já dada. É uma outra maneira de entender a filosofia.

Você disse: "No que respeita à clareza, temos uma tendência para pensar que enquanto menos compreendemos um autor, mais profundo ele é. Mas este princípio pode estar errado." Concordo, não acho que a obscuridade garanta profundidade. Mas acho que há questões filosóficas no próprio uso de uma determinada linguagem. Basta pensar em Nietzsche, Adorno, Heidegger, Derrida...

Talvez não seja possível iniciações em filosofia. Mas não saberia como desenvolver este argumento.

Falei em filosofia analítica, porque não soube dar outro nome para esse maneira de fazer filosofia, que se baseia na discussão, na argumentação e contra-argumentação, que busca pela clareza da linguagem, que parece crer num progresso em filosofia, que privilegia problemas ao invés da história da filosofia, ou melhor, que vai à história da filosofia na busca por respostas a problemas e não por ela mesma. Que rejeita sistemas filosóficos que tentem dar conta do todo. Que nome dar a essa maneira de fazer filosofia?

Desculpe se insisto na questão é que não me parece ter uma resposta simples.
De rolandoa a 8 de Abril de 2007 às 00:53
Daniel,

“Penso que uma diferença fundamental entre a filosofia e qualquer ciência é que na filosofia não progredimos (se progredimos, como é possível pensar o progresso na filosofia?). Portanto, enquanto nas ciências é importante que se estude os problemas científicos atuais, para nós, estamos sempre começando "do zero". Qualquer posição pode ser reanimada e defendida. A história para nós tem um peso maior.”
O progresso na filosofia é possível pensar-se tal como o progresso noutra actividade qualquer, ciência ou conhecimento. Existe progresso nas artes? Repare: os contra exemplos de Gettier à tese da crença verdadeira justificada constituem ou não um progresso? A diferença fundamental entre a filosofia e a ciência não é tanto no progresso mas mais nos resultados. Ao passo que a ciência apresenta resultados, a filosofia não o consegue fazer. Mas isto possui uma explicação: os problemas científicos são, na sua generalidade, problemas passíveis de experimentação, ao passo que os problemas filosóficos não o são.

“Você disse: "De outro modo a filosofia não se faz senão entrando no debate, ou directamente, ou pelas obras dos filósofos. E, curiosamente, Hegel não esteve imune a este debate. (...) Hegel colaborou com Shelling e remodelou alguns princípios de Kant". Mas Hegel gostaria de ser aceito integralmente e não apenas ser mais um argumento em meio a tantos. É quase uma visão de mundo que deseja se impor. E não apenas um ou outro argumento querendo refutar alguma resposta já dada. É uma outra maneira de entender a filosofia.”
O Daniel acaba de dar a prova do que eu anteriormente lhe disse: se o que Hegel disse não fosse um argumento, seria a verdade absoluta. Com efeito, os outros filósofos puderam questionar em que sentido é que a verdade de Hegel era absoluta. Seria só porque Hegel pensou que era absoluta?
De um outro ponto de vista não concordo com o que o Daniel refere. Hegel fala, precisamente em tese, antítese e síntese, sendo que a antítese é a possibilidade de superação de sínteses. Qualquer cientista ou filósofo ambiciona a verdade. Saber se esta possibilidade existe é, em si, um problema filosófico. Não me parece que a ambição de Hegel fosse, nesse sentido, diferente da de qualquer outro filósofo ou cientista.

“Você disse: "No que respeita à clareza, temos uma tendência para pensar que enquanto menos compreendemos um autor, mais profundo ele é. Mas este princípio pode estar errado." Concordo, não acho que a obscuridade garanta profundidade. Mas acho que há questões filosóficas no próprio uso de uma determinada linguagem. Basta pensar em Nietzsche, Adorno, Heidegger, Derrida...”
Há autores mais obscuros que outros. A vantagem que um autor claro tem sobre um obscuro é que nos clarifica melhor as questões. O perigo de se ser obscuro é não ser entendido por ninguém. Se Heidegger ou Derrida operacionalizam os seus argumentos com conceitos muito específicos, é natural que tenham de clarificar bem esses conceitos, sob prejuízo de serem pouco entendidos ou mal entendidos. Se eu usar o conceito de “cebola” para designar a relação que o objecto “cadeira” tem com o objecto “automóvel”, é bom que o clarifique. Muitos dos estudiosos de Heidegger passam imenso tempo a fazer este exercício.

“Talvez não seja possível iniciações em filosofia. Mas não saberia como desenvolver este argumento.”
Isto é falso. Então como começaram filósofos como Leibniz, Mill, Heidegger ou Derrida a filosofar? Nasceram filósofos? É tão possível iniciações em filosofia como iniciações em qualquer outro saber. A filosofia não goza de privilégio de genialidade algum, nem foi feita por génios. Os filósofos são homens e mulheres que pensaram e se enganam. Que iniciação é possível em química, medicina, biologia?
(continua)
De rolandoa a 8 de Abril de 2007 às 00:54

“Falei em filosofia analítica, porque não soube dar outro nome para esse maneira de fazer filosofia, que se baseia na discussão, na argumentação e contra-argumentação, que busca pela clareza da linguagem, que parece crer num progresso em filosofia, que privilegia problemas ao invés da história da filosofia, ou melhor, que vai à história da filosofia na busca por respostas a problemas e não por ela mesma. Que rejeita sistemas filosóficos que tentem dar conta do todo. Que nome dar a essa maneira de fazer filosofia?”
A resposta é simples: Filosofia. Então Daniel, que filosofia conhece onde não exista a discussão? A filosofia é precisamente isso: discutir problemas com argumentos. Aliás, o conhecimento da história da filosofia é precisamente essa indicação que nos dá, a saber, conhecer os argumentos dos filósofos ao longo da história. Para que nos serve a história da filosofia senão para isso? Só se quisermos saber também a cor das cuecas dos filósofos  Mas não existe aqui qualquer rejeição dos filósofos ou filosofias que pretendam dar conta do todo. O que existe é atitude crítica e racional e não a mera aceitação passiva dos argumentos dos filósofos. Isto seria adoração da autoridade e não filosofia! E, na adoração da autoridade, na verdade, não há lugar a progressos, precisamente, porque não se questiona criticamente a autoridade, ainda que a autoridade se tenha enganado. Mas não foi isto que Sócrates fez com os deuses, com as autoridades. Sócrates desafiou racionalmente a pensar a divindade.
É falso afirmar que se vai à história da filosofia buscar respostas. A história da filosofia não é um manual de instruções para a vida, nem a bíblia. Não constitui qualquer doutrina à qual se obedeça cegamente. A filosofia é atitude crítica. Tal como na ciência Einstein criticou racionalmente e melhorou as teorias de Newton, também o mesmo acontece na filosofia.

“Desculpe se insisto na questão é que não me parece ter uma resposta simples.”
Não peça desculpa porque a filosofia é isto mesmo: argumentar, criticar e contra argumentar frontalmente e sem ter de nos sujeitar às autoridades só porque nos disseram que são as autoridades. E isto não constitui qualquer desprezo pela história da filosofia, pelo contrário, é, pela história da filosofia, entrar no debate.
Abraço
Rolando Almeida
De rolandoa a 8 de Abril de 2007 às 14:22
Daniel,
Dei a sugestão num post recente no blog do dicionário de filosofia de Thomas Mautner. Aconselho, por exemplo, que leia o pequeno artigo "modal logic" e verificará, sem surpresas, os progressos feitos nesta área da filosofia, desde Aristóteles até aos nossos dias. Com um pouco de tempo, prometo uma tradução do artigo para breve.
Rolando Almeida

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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