Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

Kwame Anthony Appiah - O problema da Indução

A pergunta de Hume é o que justifica a inferência, o “passo ou progressão da mente”:
Descobri, em todas as instâncias passadas, qualidades tão sensíveis aliadas a poderes tão secretos.
Portanto:
Qualidades sensíveis semelhantes sempre serão aliadas a poderes secretos semelhantes.
     Ele (Hume) diz que isso não é uma tautologia – e com isso ele quer dizer que não é uma verdade analítica -, que essas duas frases são equivalentes, de modo que a inferência não é logicamente válida ou “demonstrativa”. Isso é certamente verdade. Pois há mundos possíveis em que o pão é nutritivo até hoje e talvez não será nutritivo no futuro, porque, por exemplo, podemos perder as enzimas que digerem os carbohidratos que o pão contém depois que a terra for irradiada por raios cósmicos intensos. E ele diz que não é intuitivo: não sabemos que ela é verdadeira por intuição.
Mas, como ele indica, parece que a proposição seria uma inferência válida se acrescentarmos mais uma premissa:
 
            UNIFORMIDADE: O futuro parecerá como o passado.
 
            Ou seja, parece que, se acrescentarmos esse princípio da uniformidade da natureza, poderemos raciocinar da seguinte maneira:
 
            INDUÇÃO:        No passado o pão era nutritivo
                                        O futuro parecerá como o passado
            Logo:                  No futuro o pão será nutritivo.
 
            Hume achava que o problema da indução era que o princípio da uniformidade da natureza não era nem uma verdade lógica nem intuitivo e que, portanto, não havia qualquer razão óbvia para que acreditássemos nele. Afinal, ele próprio é uma generalização. Se a única maneira de justificar uma generalização é usar um argumento dessa forma, teríamos que argumentar em defesa do princípio da uniformidade da natureza da seguinte maneira:
 
            INDUÇÃO:        No passado o futuro parecia como o passado
                                      O futuro vai parecer como o passado
            Logo:               O futuro vai parecer com o passado.
 
Mas isto é obviamente um argumento do tipo petição de princípio! Ou seja, a conclusão repete uma das premissas. Ninguém que estivesse já convencido que a natureza é uniforme poderia ser persuadido a aceitar este argumento.
O problema principal com o tipo de inferência que ocorre na INDUÇÃO é que, ao contrário das inferências dedutivas, que são logicamente válidas, a conclusão diz mais que as premissas. Chamamos a este tipo de inferência, “ampliativas”: elas ampliam ou vão além das premissas.
Uma maneira de ver se a inferência é ampliativa é observar se a conclusão é verdadeira em todos os mundos possíveis em que as premissas são verdadeiras. Numa inferência logicamente válida, a conclusão é verdadeira em todos os mundos possíveis em que as premissas são verdadeiras. Portanto, numa inferência dedutiva podemos chegar à conclusão com bastante confiança porque ela é verdadeira em todos os mundos em que as premissas são verdadeiras. Mas numa inferência indutiva, começamos com premissas que mostram que estamos numa certa classe de mundos e chegamos a uma conclusão que é apenas verdadeira em alguns daqueles mundos. Como a informação contida na conclusão é maior que a informação nas premissas, parece que simplesmente fabricamos alguma informação!
Kwame Anthony Appiah, Introdução à Filosofia Contemporânea, Vozes,Brasil, 2006, pp.149-150 (texto adaptado por Rolando Almeida)
 
 
publicado por rolandoa às 18:59

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