Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

Ser Professor

Os bons professores inspiram os seus estudantes, bom, alguns deles. Em contrapartida, os maus professores podem fazer com que os estudantes fiquem a odiar um assunto para o resto da vida. Infelizmente, é muito mais simples ser um mau professor do que ser um bom, e não é preciso ser mesmo mau para ter o mesmo efeito negativo do que alguém que é, genuinamente, completamente horrendo. É muito mais fácil destruir a confiança de alguém do que ajudá-los a recuperá-la.
O ensino é muito importante. Não é só uma necessidade chata que paga o nosso salário para que possamos usufruir do prazer da pesquisa.
Na minha opinião, a característica mais importante dos bons professores é que se põem na posição do estudante. Não é só uma questão de dar aulas claras e correctas e corrigir testes; o objectivo principal é ajudar o estudante a compreender as matérias. Quer estejas a dar uma aula ou a falar com estudantes durante as horas de serviço, tens de lembrar-te que aquilo que parece ser perfeitamente óbvio e transparente para ti pode bem ser misterioso e opaco para alguém que nunca se deparou com essas ideias na vida.
Eu tentava sempre lembrar-me disso. Quando se está a corrigir testes, é fácil começar a pensar, «Já lhes ensino estas há vinte anos, e eles ainda não compreendem». Mas cada novo ano traz novos estudantes, que se deparam com muitas das mesmas dificuldades dos seus predecessores, cometem os mesmos erros, enganam-se nas mesmas coisas. Não é culpa deles se tu já viste tudo isso a acontecer várias vezes.
(…)
Ainda me consigo lembrar claramente das minhas primeiras aulas; era mais fácil para mim ensinar naquela altura do que dez anos mais tarde. Passado um bocado, ficas a saber demasiado, e há o perigo de que tentes passar todo esse conhecimento e esclarecimento aos alunos. É um grande erro. Eles não têm a mesma perspectiva que tu tens. Por isso aplica-se o princípio KISS: keep it simple, stupid. Limita-te aos pontos principais e tenta não devaneares, se para o fazeres os estudantes tiverem de compreender ideias novas que não pertencem ao programa, não importa o quão fascinantes e esclarecedoras elas te possam parecer.
O sistema americano é mais directo do que o britânico neste aspecto. Tipicamente, existe um manual aceite e um programa estipulado – ao ponto de se saber quais as páginas e parágrafos específicos que têm de ser incluídos – de forma que o conteúdo do curso está estabelecido e toda a gente sabe o que ele é, ou deveria saber. Mas há ainda espaço para a contribuição do professor, e há um equilíbrio delicado entre ajudar os estudantes ao dar a nossa própria perspectiva da matéria, e confundi-los ao introduzirmos demasiados ideias desnecessárias.
Por isso, antes de dizeres a alguém algo que não esteja no programa, precisas de te perguntar a ti mesma, se eu fosse uma estudante, que tivesse lido o manual de estudo até esta página específica e não mais, o que é que me ajudaria mais a compreender a matéria? E o passo fundamental em arranjares uma boa resposta é teres a certeza de que tu própria compreendes a matéria.
(…)
Nas escolas primárias britânicas, o sistema educativo chegou a um ponto onde se falha espectacularmente neste processo. Temos hoje em dia um «curriculum nacional» altamente prescritivo, em que os professores têm de – literalmente – pôr cruzes em centenas de caixinhas para avaliar o progresso dos estudantes. Conseguem contar até cinco? Cruzinha. Conseguem somar cinco e três? Cruzinha. Está assumido que o que conta é serem capazes de obter a resposta. Mas aquilo que é realmente importante é como é que eles obtêm a resposta. Sou antiquado o suficiente para acreditar que de qualquer forma eles têm de obter a resposta correcta; não defendo um sistema em que não se dê importância ao «método». Mas estou absolutamente convencido de que pôr cruzinhas numa série de caixinhas não é maneira de ensinar matemática a quem quer que seja.
 
Ian Stewart, Cartas a Uma Jovem Matemática, Relógio D`Água, 2006, p.123-29 (trad. Pedro Ferreira)
 
publicado por rolandoa às 00:14

link do post | favorito

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS