Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007

Arte de Pensar, um manual diferente e inovador

O Arte de Pensar (AdP) chega às nossas mãos, professores e alunos, como uma clara revolução na forma como se concebem e escrevem manuais escolares.  Tantas vezes ouvimos falar em excelência na educação com reformas afins, sem que se vejam resultados práticos dignos de registo. Talvez isto aconteça porque se pretende implementar reformas no sistema educativo, sem que essas reformas impliquem esforço, trabalho ou novas orientações e modelos didácticos. E assim andamos numa ilusão de mudança contrariada pelos maus resultados obtidos junto dos nossos congéneres europeus.

O AdP é a prova de que a mudança no sistema educativo e a viragem nos nossos maus resultados passa inevitavelmente por fazer bons programas e melhores manuais. Se a preocupação é a de que os nossos alunos aprendam com gosto e rigor, é nos conteúdos do que lhes queremos ensinar que devemos começar por mexer. E mexer bem para não andar sempre a mexer!

Por vezes passa-se a ideia de que exigência é ensinar conteúdos muito difíceis. Mas o critério da exigência está ligado ao didáctico. O AdP é um manual exigente porque é cientificamente acertado, rigoroso e actual, propondo nomes e problemas da investigação filosófica que se faz hoje em dia. Mas não se pense que o AdP expõe o que os outros pensaram de modo históricista e nada mais. Pelo contrário, o AdP é um laboratório vivo de filosofia. Por ele e com ele, o aluno aprende a pensar porque é sistematicamente confrontado com as teorias e problemas da filosofia. Não é de estranhar que um manual desta natureza acabe por criar algumas resistências iniciais. Ele é claramente inovador do ponto de vista didáctico e ainda não possui qualquer concorrente directo, ainda que outros já se aproximem deste modelo, mas ainda muito entre a “velha guarda” e a “nova vaga”. Na verdade a maior novidade no AdP é que, com ele, ensinamos de facto os nossos alunos a pensar. Depois, porque o manual é muito pragmático em todos os sentidos, bem escrito e filosoficamente rico, eliminando as arbitrariedades e incoerências habituais, além de que, a concepção gráfica (da responsabilidade dos autores) é uma lição final para quem faz manuais. As imagens são adequadas e pertinentes e está longe do folclore a que as editoras nos vem habituando nos últimos anos. O AdP é intuitivamente compreensível em todos os sentidos. Se o rosto é a expressão da alma, no caso, é-o mesmo, ele é leve, fácil de transportar e está lá tudo o que o estudante jovem de filosofia necessita para um bom estudo nas aulas. Além do mais, o AdP respeita a tradição filosófica.

Claro está que para apreciar em definitivo as potencialidades de um manual é necessário experimentá-lo em sala de aula. Com efeito, quando li pela primeira vez o AdP percebi que é uma novidade na forma como se concebe um manual de filosofia e tanta resistência só acontece porque é preciso tempo e esforço para que o professor se aperceba das potencialidades curriculares do AdP.

Claro está que o AdP deve possuir as suas limitações (que eu não encontro com facilidade), mas é inegável a sua forma inovadora para o ensino da filosofia. Penso até que pode ser exemplo para outras disciplinas.

Um pequeno exemplo. No capítulo 4 do Arte 11, Estrutura do acto de conhecer, para explicar a constituição de crença no conhecimento, encontramos (p.97):

 

«Imagine-se que a professora de matemática do João lhe perguntava qual a raiz quadrada de quatro. Imagine-se que ele achava que era dois, mas não tinha a certeza. Será que ele sabia qual é a raiz quadrada de quatro ou será que apenas teve sorte ao acertar na resposta? Para haver conhecimento uma pessoa não pode apenas ter sorte em acreditar no que é efectivamente verdade; tem de haver algo mais que distinga conhecimento da mera crença verdadeira. Para haver conhecimento, aquilo em que acreditamos tem de ser verdade, mas podemos acreditar em coisas  verdadeiras  sem saber realmente que são verdadeiras. Portanto, nem todas as crenças verdadeiras são conhecimento. Por outras palavras:

 

A crença verdadeira não é suficiente para o conhecimento. »

 

Antes desta explicação, os autores do manual escreveram um pequeno diálogo onde o problema é apresentado para, no final, incluir o texto de Platão onde o problema do conhecimento como Crença Verdadeira Justificada é apresentado, e  finalizar ainda com a contra argumentação de Gettier. E o AdP está cheio desta felicidade que é aprender filosofia com rigor, método, numa linguagem clara, sem os terror verbal que por vezes é cultivado na filosofia. Só lamento uma coisa: não poder voltar a ser aluno para começar a dar os meus primeiros passos na filosofia com o Arde de Pensar.

Parabéns aos autores. São responsáveis pela excelência no ensino da filosofia.

Este é um manual que merece estar ao lado dos nossos melhores livros.

O manual é publicado com o apoio do Centro para o Ensino da Filosofia da Sociedade Portuguesa de Filosofia.

 

 

Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, Arte de Pensar 10 e 11, Didáctica Editora, 2004


 

Rolando Almeida

 Este texto foi também publicado em:

 http://www.didacticaeditora.pt/arte_de_pensar/

 

 

publicado por rolandoa às 10:04

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