Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2007

Ensaio sobre os direitos dos animais

Segundo Peter Singer, todos os seres sencientes têm interesses morais e consequentemente direitos. Uma vez que os animais não humanos têm a capacidade de sentir dor e prazer e a percepção do que os rodeia, então estes têm direitos tal como a espécie humana.

Assim pertencemos todos, humanos e animais não humanos, a uma comunidade moral onde os interesses de uma espécie não são mais importantes que os da outra espécie. Tom Regan apresenta uma distinção entre as espécies, uma vez que os primeiros são capazes de aplicar princípios morais e por isso denomina-os de agentes morais, enquanto que os segundos, em conjunto com os humanos com algum atraso, são caracterizados por pacientes morais.

Aqui surgem as complicações, visto que todos os anos são mortos biliões de animais para fins alimentares, e outros tantos milhões para experiências ligadas à medicina ou cosmética, já para não falar no uso de peles para vestuário.

Peter Singer afirma que sacrificamos os interesses mais importantes de outros seres, neste caso a sua própria vida, de modo a satisfazer interesses menores da nossa espécie.

A minha posição em relação a esta temática é semelhante à destes dois autores, embora com algumas alterações que passo a explicar:

Faz parte do equilíbrio do planeta a existência de cadeias alimentares de vários tipos.

O Homem é por excelência um ser omnívoro e por isso come carne, vegetais, frutos, cereais e outros tantos produtos que a natureza oferece. Não é possível negar que isto causa sofrimento nos animais que são mortos para saciar a nossa fome, mas por exemplo, um animal como o leão mata uma corça para se alimentar e esta também sofre. Simplesmente ninguém “teima” com o leão para deixar de ser carnívoro e substituir a corça por uns rebentos de soja ou alfaces. É óbvio que este é um exagero, já que o leão não tem capacidade de aplicar princípios morais. No entanto, serve para explicar que se os animais forem mortos apenas consoante as necessidades alimentares do Homem, o planeta permanece em equilíbrio. Uma vez que não se trata apenas de uma questão de respeito pelos direitos dos animais, mas sim do que chamamos de luta pela sobrevivência.

As experiências em laboratório ligadas a descobertas medicinais podem ser moralmente correctas se aplicarmos um princípio de John Stuart Mill que diz “o maior bem para o maior número de pessoas”. Neste caso, estas descobertas podem ser úteis não só para os humanos como também para outras espécies que são atacadas pelo mesmo vírus ou bactéria, ou seja, sacrifica-se um animal para salvar muitos mais.

Relativamente às experiências ligadas à cosmética e afins, concordo com Peter Singer e Tom Regan, uma vez que se tratam de interesses humanos extremamente secundários, além de que existem já soluções alternativas para efectuar estes testes.

O sacrifício de animais para o uso da sua pele em vestuário é para mim um acto de crueldade extrema, porque existem muitas outras opções de material como por exemplo o algodão ou o linho, que são produtos vegetais e que podem perfeitamente ser utilizados para este fim com a vantagem de poderem ser extraídos sem consequências para a planta. No caso do algodoeiro, este não morre por se retirar a sua flor e, no caso do linho, este só é utilizado após a morte “natural” da planta.

O uso de animais para entretenimento é simplesmente um desrespeito autêntico à dignidade do animal e uma directa manifestação de especismo, já que o objectivo é mostrar a pseudo-superioridade do Homem em relação ao animal.

Posto isto, defendo que os animais devem usufruir de direitos como os humanos, embora respeitando a lei da natureza no que toca às cadeias alimentares e, seguindo uma ética utilitarista implementada por Stuart Mill, as experiências para fins medicinais podem ser moralmente correctas, desde que se mantenha a dignidade dos animais e se assegure condições para reduzir ao máximo o seu sofrimento.

 

Bibliografia:

 

RODRIGUES, Luís; SAMEIRO, Júlio; NUNES, Álvaro, Filosofia 11º Ano, Plátano Editora, 3ª Edição, Junho 2005, pp. 286-293

 

Ensaio elaborado por:

Clara Jasmins

Nº5     11º1 - Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco - 2007

publicado por rolandoa às 01:28

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9 comentários:
De Jorge Canha a 17 de Janeiro de 2007 às 23:27
Um grande ensaio criado pela nossa amiga Clara. Muito bom, parabéns!
De rolandoa a 18 de Janeiro de 2007 às 00:47
Olá Jorge,
Este blog é mais vosso que meu. É para o vosso trabalho e conhecimento, "curiosidade apaixonada". Em breve publicarei outros trabalhos vossos.
Obrigado pela visita ao blog
Abraço
Rolando Almeida
De João Lopes a 21 de Janeiro de 2007 às 11:05
Hm... gostei muito do ensaio da clara.
E não sei porquê, tem partes muito parecidas com o meu, mas não tinha pensado nessa ultima parte da medicina e cosmética.
De rolandoa a 22 de Janeiro de 2007 às 15:41
Olá João,
Mas existe uma razão para ter partes parecidas com o teu: é que os argumentos estudados foram os mesmos.
abraço
Aparece sempre
Rolando Almeida
De Clara a 26 de Janeiro de 2007 às 15:22
bem eu pensei na parte da medicina e cosmética porque há uns tempos estive a discutir sobre isso num fórum onde participo (que por acaso é sobre música mas pronto tem uma secção de off-topic..) e falou-se sobre as experiências em primatas :)
De Catarina a 25 de Maio de 2008 às 08:43
Bom ensaio, à excepção de uma incorrecção: Peter Singer apenas defende que os animais têm os mesmo interesses que os humanos e não os mesmos direitos. Uma coisa não implica a outra! Tom Regan é que introduz essa igualdade radical entre humanos e animais, defendendo, por isso, que a experimentação animal não é justificável.
De Catarina a 25 de Maio de 2008 às 08:44
Peço desculpa: os mesmos. lol
De Antonio a 4 de Junho de 2008 às 19:52
gostei muito do ensaio , eu copiei o trabalho e apresentei-o e tive 20, Obrigada
congelado | discussão
De rolandoa a 4 de Junho de 2008 às 22:34
Olá António,
Cuidado com as cópias que eu conheço muitos professores em Setúbal.
abraço

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Rolando Almeida


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