Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006

O que é a ciência?

A palavra é habitualmente usada para significar uma de três coisas, ou uma mistura delas. Acho que não temos necessidade de ser muito precisos – nem sempre é uma boa ideia ser-se muito preciso. A ciência significa umas vezes um método especial de descobrir coisas, outras o corpo de conhecimentos resultante dessas descobertas. Pode também significar as novas coisas que podem fazer-se quando se descobre algo, ou mesmo a realização dessas novas coisas. A este último campo chama-se habitualmente tecnologia – mas, se costumam ver a secção de tecnologia da revista Time, sabem que, aproximadamente, 50% cobrem as novas coisas que foram descobertas e outros 50% as novas coisas que podem ou estão a ser feitas. Portanto, a definição popular de ciência é, em parte, também tecnologia.
Discutirei estes três aspectos da ciência por ordem inversa. Começarei com as coisas novas que podem fazer-se – isto é, com a tecnologia. A característica mais óbvia da ciência é a sua aplicabilidade, o facto de, como consequência da ciência, temos poder para fazer coisas. E o efeito que este poder tem produzido nem precisa de ser mencionado. Toda a revolução industrial teria sido praticamente impossível sem o desenvolvimento da ciência. A possibilidade que hoje temos de produzir quantidades de alimentos suficientes para alimentar uma população tão grande, de controlar as doenças – o mero facto de poderem existir homens livres sem que haja a necessidade de recorrer à escravatura para aumentar a produção -, é, provavelmente, o resultado do desenvolvimento de meios de produção científicos.
Mas este poder para fazer coisas não traz consigo instruções sobre o modo como deve ser utilizado, se deve sê-lo para o bem ou para o mal. O resultado deste poder é, pois, bom ou mau consoante a forma como é usado. Gostamos de aumentar a produção, mas temos problemas com a automatização. Ficamos felizes com o desenvolvimento da medicina, mas, por outro lado, preocupamo-nos com o número de nascimentos e com o facto de já não morrermos das doenças que eliminámos. Ou ainda, com base no próprio conhecimento das bactérias, há, porventura, laboratórios secretos onde se trabalha para desenvolver bactérias para as quais será muito difícil descobrir cura. Ficamos felizes com o desenvolvimento dos transportes aéreos e impressionamo-nos com os grandes aviões, mas também conhecemos os terríveis horrores da guerra aérea. Agradecemos a capacidade que possuímos para comunicar entre as nações, mas preocupamo-nos imediatamente com a possibilidade de a nossa privacidade ser violada tão facilmente. Estamos excitados com a conquista do espaço; bem, também aí se nos depararão dificuldades. O mais famoso de todos estes balanços é o desenvolvimento da energia nuclear e os seus problemas óbvios.
 
Richard P. Feynman, O significado de tudo, reflexões de um cidadão – cientista, Gradiva, 2005, trad. José Luís Fachada, col. Ciência Aberta, p.15-16
publicado por rolandoa às 13:15

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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