Domingo, 26 de Julho de 2009

A censura na nova religião digital

censura Um dos blogs mais informativos que conheço em língua portuguesa sobre novo software é o Peopleware. Vários são os cronistas do blog, apesar que notei que alguns dos autores servem a comunidade de modo tendencialmente ideológico, principalmente quando toca à defesa irracional do software livre e nos ataques frequentes a empresas que cobram pelo seu trabalho, nomeadamente a Microsoft. Não vejo problema algum na defesa racionalmente argumentativa de que o software livre é melhor do que o pago. Só não vejo qualquer razão para que tal se defenda de modo irracional, como se de uma religião se tratasse. Tenho vindo a notificar, principalmente os artigos assinados por Rui Oliveira, desta circunstância, em que não se deve confundir uma defesa religiosa com uma defesa com argumentos racionalmente pensados. A solução dos autores do blog foi a de censurar os meus comentários. Claro que a solução mais fácil é a de calar aqueles que não concordam com as nossas ideias, aumentando assim a ilusão de que o mundo é tal qual o pensamos. Acontece que na esmagadora maioria das vezes a realidade é muito mais abrangente do que os nossos desejos e hoje não é incomum encontrar boa bibliografia a esgrimir argumentos contra e pró freeware. O que não me parece racionalmente aceitável é deixar no silêncio aqueles que não estão de acordo com as nossas teses, pois tal atitude demonstra uma clara falta de capacidade racional de argumentar, principalmente quando apresentamos um trabalho público com comentários abertos. É certo que também eu no meu blog já apaguei alguns comentários, mas nunca o fiz porque fossem comentários que objectassem as minhas posições. Apaguei e apago comentários quando eles são deslocados em absoluto do problema em debate. De resto, todos os posts que apresentam problemas não os tomam como verdades consumadas onde a discussão não tem mais lugar e só se abre espaço ao elogio e às dúvidas mais comezinhas, aquelas que sabemos sempre responder. Para quê então ter uma secção aberta de comentários se não admitirmos discussão para os nossos posts? Se publicamos posts com a exposição de uma tese racional perante um problema, qual a razão de não aceitar comentários que apresentam objecções? Tal como a maioria dos seres humanos, provavelmente por estupidez, também eu reajo aos fanatismos religiosos, mas sempre dentro dos limites do discutível. Que razão existe então para a censura de comentários que pura e simplesmente objectam as nossas teses?

É verdade que o amadorismo da internet está cheio destes casos. 99% do que hoje se publica on line é puro lixo amador. Mas também é verdade que exigimos um pouco mais de algumas publicações e um dos objectivos nobres é sempre o de manter a qualidade das nossas posições. Relativamente ao mundo da internet há muito a discutir e as verdades ainda não são reveladas, aliás, como relativamente a tudo o que envolve o gesto humano.

Em conclusão, no blog Peopleware defendi uma posição. Tenho-a defendida várias vezes e, ainda que as minhas palavras discordantes possam não saber bem psicologicamente aos autores, fui voltado ao silêncio. Não serei porventura um anjo, mas exige-se mais liberdade na discussão pública de ideias.

publicado por rolandoa às 00:18

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4 comentários:
De Ricardo Miguel a 4 de Agosto de 2009 às 11:12
Caro Rolando,


Também eu sou seguidor assíduo do Peopleware assim como do teu blog. Também eu sou interessado na discussão em causa e não comentei antes por achar um terreno demasiado obscuro para podermos extrair conclusões fortes e, ao mesmo tempo, convincentes. Comento agora porque julgo que a tua crítica à religião digital freeware (falar apenas de freeware é uma simplificação, pois na verdade a tua crítica ataca também as ideias do código livre ou open source que, apesar de andar muitas vezes de mãos dadas com o freeware, não é a mesma coisa) parece-me estar-se a tornar numa religião também: a religião da argumentação crítica, ou de um certo modo filosófica, para defender ideias.

Eu concordo plenamente contigo no que diz respeito à defesa religiosa que muitos fazem do freeware. Concordo também que a melhor maneira de defender ideias é usando argumentos de modo crítico. Porém, não consigo deixar de pensar que grande parte das pessoas não quer saber disso para nada. Querem levar as suas ideias seja onde for do modo mais intuitivo ou capaz de servir os seus propósitos.

Penso que a tua intervenção no Peopleware terá sempre sido com interesse genuinamente epistemológico, ou seja, que sempre apresentaste os teus argumentos para que da discussão se pudesse obter um melhor entendimento do assunto e, claro, para defender as ideias que julgas verdadeiras. Mas penso que talvez não estejas a perceber (ou então a aceitar) que há quem prefira discutir sob outras pedras de toque que não a argumentação crítica.

Muitas pessoas usam intuitivamente argumentos tão elaborados como se vê em discussões filosóficas mas, depois, não entendem o alcance das suas premissas. Não conseguem seguir implicações; e mesmo quando conseguem, se não lhes convêm as conclusões, facilmente se colocam noutro registo de discussão. A ti colocaram-te à margem, silenciando-te. Mas, pelo menos no meu entender, isto não significa uma censura. Significa antes que a(s) pessoa(s) com quem estavas a discutir optou/optaram por um registo diferente de discussão, julgando que tu não estavas a ser benéfico para a mesma. De qualquer modo, o blog é deles; um acto destes é triste e criticável para nós, mas não querer ouvir outra pessoa ou não deixar outra pessoa comunicar num local que é administrado por si, é um direito.

Se ela(s) viesse(m) discutir filosofia para o teu blog, julgo que por mais que dissesse disparates, desde que tentasse defender as suas ideias sem insultos nem nada semelhante, nunca irias fazer o que te fizeram. Mas isto, penso, deve-se a optares por um certo método de discussão que não só aceita contra-argumentos como até os espera para daí poder tecer outros argumentos, sempre com uma base dedutiva mais ou menos implícita.

Ora naquele blog, como seria de esperar (ainda que sejam humanos com capacidades de raciocínio como as nossas), as discussões não têm este método como pano de fundo. Os intervenientes podem, muitas vezes, parecer argumentar desta forma, mas, na generalidade dos casos, nota-se que estão apenas a emitir opiniões mais ou menos como um grupo de amigos defende o seu clube na mesa do café. Acontece que neste caso, por causa do assunto em questão, e porque há muito conhecimento técnico envolvido, facilmente se dá ares de bom paleio.

Enfim, penso que eles (os informáticos que discutem este assunto) estão todos muito longe de se interessarem em ter uma discussão filosófica aqui. Eu estou. E tu também deves estar. Mas penso que será uma discussão improcedente sempre que não se estiver, desde logo, predisposto a ter o mesmo método de discussão.
Isto toca, penso eu, num problema filosófico que julgo muito interessante e importante, que se relaciona justamente com a relação de comunicação entre a filosofia enquanto o grupo de pessoas que a estuda, e o resto das pessoas com as quais podem comunicar e pretendem fazê-lo. Algumas áreas da filosofia pretendem ter efeitos na sociedade em geral. Se quisermos que as outras pessoas aceitem as nossas ideias, como o iremos fazer se desde logo tivermos métodos diferentes de discutir?

(já agora, se quiseres voltar a insistir no ubuntu, estás à vontade para me pedires algumas dicas...)
De Tiago a 21 de Fevereiro de 2010 às 10:38
Sim senhor! O pplware faz censura e não é pouca! E é de praticamente todos os artigos, não é só de alguns...

Mas aquilo anda muito malzinho... O português que lá se escreve parece o meu da primária, e os artigos são copypaste de antigos, ou então artigos que não interessam ao diabo...
De Tiago a 21 de Fevereiro de 2010 às 10:39
Sim senhor! O pplware faz censura e não é pouca! E é de praticamente todos os artigos, não é só de alguns... Mas aquilo anda muito malzinho... O português que lá se escreve parece o meu da primária, e os artigos são copypaste de antigos, ou então artigos que não interessam ao diabo...
De Justiça a 12 de Setembro de 2011 às 17:01
Relativamente à Censura, tem e muita quando toca a falar do Colibri (o software pseudo gratis).
Acontece que quando se fala em concorrência, nada é publicado...
E depois só fala maravilhas do Colibri...
Devem pensar que o pessoal aqui (clientes e concorrência) andam a dormir...

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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