Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Sistema de ensino sem chumbos

chumbo A propósito ainda do meu post anterior: Não sou defensor que se deva chumbar alunos quando eles não sabem grande coisa. Também não defendo a tese de que antigamente os estudantes aprendiam muito mais. Pelo menos a avaliar pela competência de muitos políticos, professores, médicos e advogados, entre outros profissionais dos nossos dias, posso constatar que antigamente (como se costuma chamar às duas gerações mais velhas) o ensino não era muito melhor do que é actualmente. Não me parece que a catástrofe dramática esteja toda alojada nas gerações jovens. Em muitos aspectos as novas gerações parecem-me mais aptas que as anteriores. E não defendo a ideia do chumbo sistemático dos alunos, pois não me parece que essa solução seja melhor do que a de os aguentar na escola aprendendo sempre mais alguma coisa. Qualquer sistema, o de chumbos ou a da escolaridade obrigatória sem chumbos tem consequências positivas e negativas. As mais imediatas são:

Positivas – o jovem tem de cumprir x anos de estudo, independentemente se sabe muito ou pouco, se progride rapidamente na aprendizagem ou se é mais lento. Mais vale estar na escola a aprender alguma coisa do que em casa onde, em regra, não tem as ferramentas para aprender.

Negativas – o natural desinteresse e indisciplina que daí decorre já que com um sistema sem chumbos, a luta pela nota fica grandemente afectada para um número muito grande de alunos. E a indisciplina promovida por algum sentimento de impunidade.

De todo o modo um sistema de ensino sem chumbos não implica que a escola tenha de admitir nas suas fileiras a indisciplina e o vale tudo. Não implica também, de modo algum, que os melhores não sejam premiados. Então, onde é que está o rigor de um sistema de ensino sem chumbos? Aparentemente para a maioria das pessoas um sistema de ensino sem chumbos implica a balda completa. Tal não é necessariamente verdade, ainda que se corra esse risco, do mesmo modo que se corre riscos num sistema de ensino com chumbos, por exemplo, premiando sempre os alunos socialmente mais beneficiados e que vêm ensinados de casa, em detrimento dos outros que não gozam dessa possibilidade. O rigor de um sistema de ensino sem ou com chumbos (é igual para ambos os sistemas) está nos currículos e naquilo que se ensina. E aqui é que me parece surgir o problema no sistema de ensino actual em Portugal. Pretende-se anular os chumbos dos alunos à custa de sacrificar o rigor dos programas de ensino. A consequência é termos maus manuais, professores pouco preparados, exames cada vez mais infantilizados, programas despidos de conteúdos próprios de cada disciplina. E a consequência social futura é continuarmos a ter gente incompetente, mas licenciados. Ora a finalidade de um sistema educativo não é chumbar alunos, é verdade, mas também não é o de distribuir diplomas para inglês ver. A razão da existência de um sistema educativo é primordialmente, o de formar pessoas capazes de dar contributos significativos para a comunidade. Mas isto só é possível com saber, muito saber e não conversas fiadas e brincar às escolas.

publicado por rolandoa às 00:10

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5 comentários:
De azamen a 22 de Junho de 2009 às 23:10
Permita-me discordar de parte do que escreveu. Se bem entendi, o que sugere e um sistema sem chumbos mas com programas mais eficazes e completos. Não será esse sistema um pouco utópico? Não sou nada do tipo de que no antigamente é que era, mas não havendo chumbos e aumentando cada vez o nº de anos obrigatórios, corremos o risco de ter imensos doutorados ignorantes, que por serem doutorados não aceitarão trabalhos inferiores e que por serem ignorantes não percebem que esses trabalhos são tão ou mais importantes que os ditos superiores.
Vivendo num mundo competitivo, não será melhor começar a diferenciar quem tem capacidade de quem não tem?Apenas acho que o factor financeiro não deveria ser determinante, mas sim a capacidade intelectual de cada um para desempenhar uma qualquer função. Mas isto é claro, é a minha ideia utópica
De rolandoa a 22 de Junho de 2009 às 23:21
Azamen,
O seu comentário tem abordas vários aspectos importantes. Em primeiro lugar é claro que um sistema de ensino sem chumbos acarreta riscos. É apenas aquele que garante que todos frequentem a escola um número de anos limitado e definido por lei. O que creio ser utópico é pensar que um sistema de ensino sem chumbos não separa os bons dos fracos, bem pelo contrário, senão vejamos: o nosso sistema actual admite chumbos, permite distinguir os bons dos maus, mas depois defende que o ensino é grátis e igual para todos. Isto é que é, no meu ver, da mais pura utopia demagógica. É porque não tem de existir igualdade e depois, nivelando o ensino pelos mais fracos, que igualdade gozam os melhores? Ora, um sistema sem chumbos continuaria a distinguir os bons dos maus. Como? Tanto bons como maus tinham acesso a um ensino de qualidade, mas somente aqueles que trabalham seriamente é que vão ser devidamente recompensados com as melhores universidades, com os melhores empregos. A diferença crucial é esta: é que num sistema sem chumbos é provável que os filhos dos pobres passassem a ter acesso a programas de qualidade. Ora o que se passa actualmente é que os pobres vão para a escola pública estudar programas da treta e os filhos dos ricos vão para colégios privados estudar com explicadores particulares, com método e com rigor. Por que é que isto não se aplica à escola pública? Era pelo menos a forma de exigir aos alunos que estudassem. O castigo a dar aos alunos que não estudam não é mandá-los para casa, mas aguentá-los na escola e exigir-lhes mais. Uma ultima nota: claro que quando chamo sistema de ensino sem chumbos não quero dizer que o aluno tivesse de transitar de ano em qualquer circunstância. Existem situações limite para qualquer caso.
Espero ter sido claro.
abraço
De azamen a 22 de Junho de 2009 às 23:44
Acho que teremos de concordar em discordar.Eu compreendo a sua ideia,mas não partilho da mesma opinião. Acho que obrigar alunos a estar na escola contra a sua vontade,mesmo aprendendo algo mais do que em casa, poucos beneficios trará no futuro. Se em vez disso se criassem cursos altenativos, profissionalizantes talvez tivessemos menos ambandonos escolares e pessoas mais satisfetas consigo proprias. Quando eu escrevi que o factor financeiro não deveria ser determinante,queria me referir que os alunos mais pobres deveriam ter acesso a um ensino de qualidade e realmente gratuito.Neste momento,mesmo no ensino publico,a partir de certa altura é muito dificil para certas familias puderem facultar tudo o necessario para que o aluno tenha as mesmas condiçoes que um aluno mais remediado financeiramente.Acho que se estam a tentar minimizar algumas dessas lacunas mas ainda existe um longo caminho a percorrer.
Não acho que o sistema de avaliação com chumbos esteja mal, o mal é nivelar o ensino por baixo para que as estatisticas fiquem bonitas para união europeia ver.

Seja de que maneira for,alguem sera sempre contra.
De rolandoa a 22 de Junho de 2009 às 23:57
Um reparo: eu não defendi um sistema de ensino obrigatório, mas um sistema de ensino sem chumbos. O sistema de ensino se deve ou não ser obrigatório implica já uma reflexão diferente. Estou a lembrar-me em concreto da discussão se uma individuo é livre sem conhecimento, se a escola é ou não o melhor e para muito o único veiculo de conhecimento, etc. Por outro lado parece razoável pensar que um sistema de ensino sem chumbos é de todo aproveitável pela maioria das pessoas, não sei.
De António Daniel a 23 de Junho de 2009 às 00:19
Azamen, o que é estar na escola contra a sua vontade? Muitas vezes aconteceu-me não gostar da escola! Temos que ter muito cuidado com toda a informação que nos é imposta. Há actualmente uma corrente que diz que um aluno deve ter um ensino profissionalizante. Tudo bem, mas não nos podemos esquecer que, além da vertente técnica, a vertente de formação mais vasta é importante. Com a sociedade de informação que estamos a desenvolver, não podemos descurar componentes de interpretação e de cognição sem os quais a adaptabilidade social fica condicionada. Mais do que nunca, é necessário escrever bem; mais do que nunca, é fundamental sabermos como o mundo funciona. Aqui, creio, a escola, mais do que as famílias (as quais deviam estar indicadas na transmissão de certos valores) e os meios de comunicação (os quais mais desinformam do que informam), deve prestar um serviço. Portanto, cuidado quando falamos em ensino profissional e quando falamos em não gostar de andar na escola. Apesar de entender a sua ideia, é necessário repensarmos que cidadãos queremos ter.

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Rolando Almeida


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