Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Objecções ao argumento de S Anselmo

           

A primeira pessoa a reagir ao argumento de S. Anselmo foi o seu contemporâneo, o monge Gaunilo de Marmoutier (séc. XI). Gaunilo defendeu que o argumento não é sólido uma vez que podíamos usar o mesmo tipo de argumento para estabelecer a existência de uma série de coisas que não existem na realidade.

          

 

Como vimos, o argumento de S. Anselmo baseia-se na ideia de que a existência é uma perfeição. Ou seja, um ser que existe é mais perfeito ou maior do que um que não existe. Logo, um ser que seja supremamente perfeito tem de existir, caso contrário não seria supremamente perfeito. Segundo Gaunilo, através deste tipo de argumento podemos «estabelecer» a existência de uma ilha perfeita, ou de um bolo perfeito, ou do que quisermos. Por exemplo, se definirmos a ilha perfeita como aquela ilha «maior do que a qual nenhuma outra pode ser pensada», então, também essa ilha tem de existir na realidade, caso contrário não seria absolutamente perfeita. Mas isto é um resultado inaceitável. Logo, o argumento ontológico não funciona: não serve para estabelecer a existência de Deus.

            A objecção de Gaunilo apenas procura mostrar que o argumento não é sólido — mas não mostra onde está o erro. Fizeram-se várias propostas para identificar exactamente o que torna o argumento mau, umas mais prometedoras do que outras. Mas a ideia básica é que não se pode concluir que Deus existe pelo facto de satisfazer a descrição «aquele ser maior do que o qual nada pode ser pensado». A única coisa que podemos concluir é que, se Deus existe, satisfaz essa descrição.

            Podemos construir as descrições que quisermos. Podemos até colocar nas nossas descrições a condição de que uma certa coisa tem de existir, mas daí não se segue que haja no mundo algo que satisfaça a descrição. Por exemplo, podemos definir o amigo perfeito deste modo:

 

      Aquele amigo que está sempre disponível a ajudar-nos, que está sempre bem disposto, que nunca se aborrece com nada nem ninguém, que tem sempre algo de positivo para nos dizer, que é amigo de toda a gente, que gosta das mesmas coisas que nós e que nos leva a lanchar e ao cinema.

 

            Não é pelo facto de termos definido a amigo perfeito deste modo que ele passa a existir. E mesmo que acrescentemos à nossa definição que ele existe, ele não passa a existir por isso.

 

In A Arte de Pensar, 2007

 

publicado por rolandoa às 13:42

link do post | favorito

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS