Domingo, 17 de Maio de 2009

O comércio do conhecimento nas escolas

 playstation-2reading1 Aproveitando um momento de descanso numa aula de filosofia que durou 4 horas (em virtude das permutas feitas para formação), falava com os meus alunos sobre a utilidade da leitura e do conhecimento em geral para a vida dos seres humanos. Um aluno alegou o argumento de que não lê livros e prefere a playstation à leitura porque nunca foi estimulado para a leitura. Ele tem parcialmente razão no argumento que usou. Na verdade somos socialmente mais estimulados para o futebol do que para a ciência, por exemplo. De todo o modo não me parece que o aluno tenha sido estimulado, pelo menos pelos pais, a jogar horas a fio na consola. Creio que a explicação reside mais nas neurociências, já que se trata de perceber como funcionam os nossos canais reagentes a estímulos.

É também verdade que uma aluna abordou a questão da responsabilidade na auto motivação. Foi uma conversa e troca de argumentos interessante e nenhum aluno ousou pensar que a leitura de livros de filosofia ou ciência não serve para nada. Isso eles compreendem. O mais interessante talvez (e já não é a primeira vez que acontece) é que um dos alunos referiu que uma das causas da falta de estímulos à leitura é que os seus professores não lhes falam de livros. E rematou dizendo que é a primeira vez que um professor levava livros para a sala de aula e lhes falava insistentemente dos livros. Ora bem, convivo nas escolas desde que me conheço e prefiro não acreditar que o aluno tem toda a razão e que se trata de uma versão radical da realidade escolar. Mas talvez a minha crença seja uma crença falsa. A única coisa que me cumpre aqui assumir como factual é que todos os anos tenho alunos que vão às livrarias comprar livros como os de Nagel, Daniel Kolak e Raymond Martin ou Nigel Warburton, já que maioritariamente as minhas “demonstrações” de livros recaem nesses autores, que escreveram livros adequados ao estado cognitivo dos estudantes do ensino secundário. Ocasionalmente alunos meus compram livros da Ciência Aberta ou de colecções similares que se dedicam a divulgar a ciência ao público em geral.

Sempre partilhei as minhas leituras (aquelas que são adequadas aos estudantes) nas minhas aulas e sempre vi resultados dessa partilha. Não são resultados que mereçam qualquer tratamento estatístico, mas são pequenos resultados que vão aparecendo. Ocasionalmente esses alunos escolhem livros de filosofia para realizarem trabalhos para outras disciplinas. Aconteceu recentemente um aluno escolher a ética para um jovem de Fernando Savater para apresentar numa aula de português. Recordo esse exemplo pois o aluno mostrou uma dificuldade recorrente quando começou a ler: “professor, eu já li 5 páginas, mas não percebo nada”. Penso ter uma explicação adequada para este fenómeno. Infelizmente uma parte maioritária dos nossos estudantes fazem o ensino secundário sem alguma vez terem lido um livro do princípio ao fim. Não querendo exagerar recordo colegas de curso de licenciatura cuja biblioteca pessoal se resumia a largos dossiers com fotocópias de apontamentos dos colegas mais escrivães e o principezinho de Antoigne Saint Éxupery. Alguns desses antigos colegas são hoje professores e não tenho ideia se eles partilham livros com os seus alunos. Claro que isto é um pouco controverso dizer, mas que se há-de fazer senão falar das coisas com clareza e transparência? De todo o modo se esses colegas mantêm o ritmo de outrora não vão certamente ler este texto e essa é maneira como escapo sempre a alguns insultos anónimos nas caixas de comentários.

No caso que acima falo, o aluno não percebe porque não tem criado qualquer hábito ou treino na leitura, a não ser a leitura passiva e mecânica que é aquela que lhe permite maior sucesso num sistema de ensino com currículos exageradamente formais. Por essa razão a estes alunos, muitos deles criativos, a disciplina de filosofia aparece-lhes como excêntrica e ousada, pois pela primeira vez tem a oportunidade de fazer leituras activas, em que interessa mais em pensar no que está a ler do que na quantidade que lê; em que lhe é pedido que pense pela sua cabeça após a leitura e não somente que resuma o que leu. Um aluno no estado que acima descrevi vai ter trabalho redobrado se quer realmente começar a compreender o que está a ler. A tarefa é impossível? De modo algum. Nunca é tarde para treinar o cérebro a pensar no que está a ler. Só que o esforço concentra-se todo num só momento e aí, claro, a tarefa parece tão complicada que soa quase impossível. Muitas das vezes o que temos de fazer é um exercício estimulante individualizado. Aproveito alguns momentos mortos nas aulas para individualizar as explicações. Uma boa estratégia é distribuir tarefas à maioria dos alunos e dar assistência personalizada a um ou dois. Este ano recordo uma experiência feliz de uma aluna que me entregou um ensaio filosófico inclassificável, mesmo após ter dado todas as instruções de como se redige um ensaio e exposto todos os itens de avaliação. Quando li a primeira versão do trabalho da aluna quase de imediato me apercebi que ela não se estava a esquivar de entregar o trabalho. Pura e simplesmente a tarefa que lhe pedi era para ela impossível de concretizar e fez como podia. A primeira versão do trabalho deveria valer uns 3 ou 4 valores em 20. O que fiz foi aproveitar a última aula do período e, em cerca de 30 minutos, de forma individualizada, explicar como vai fazer para organizar o material lido e escrever algo com ele. O final é um resultado de 11, 2 valores em 20. Mas para que tal fosse possível foi necessário um esforço aturado da minha parte e, claro, a vontade da aluna em aprender, vontade muitas vezes já desaparecida em estudantes do secundário.

Este esforço tem de ser continuado. Mas é verdade que a maioria dos meus colegas professores se dedicam a este esforço. Acontece que o complemento da leitura pode minimizar estes maus efeitos ao longo da vida de estudante da maioria dos jovens. Por esta razão é que estou convencido que levar livros para a sala de aula, usar mais a biblioteca que o Google, exigir às escolas a actualização bibliográfica das bibliotecas, entre outra coisas, é parte essencial do nosso trabalho como professores.

Para além das razões apontadas, divulgar livros junto dos jovens, livros que sejam adequados e estimulantes, tem sempre a vantagem de melhor divulgar a nossa disciplina e contribuir desse modo para um aumento do seu prestígio social.

publicado por rolandoa às 18:25

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1 comentário:
De Luís Vilela a 20 de Maio de 2009 às 16:15
Rolando,
Antes de mais felicitações pela manutenção e desenvolvimento do blog. Quanto aos livros... bom, faço como tu. Levo livros para as aulas, nem todos de filosofia, é certo. Alguns estou em plena leitura e podem ter uma passagem interessante para colocar melhor um problema. A resposta - na esmagadora maioria dos casos - é: "para que é isso stor?! A vida já é tão difícil!"
Sem ser (excessivamente) pessimista, julgo que há um problema mais profundo que pode ter várias formulações: para que serve a escola, o esforço da aprendizagem e a importância do conhecimento. O Desidério tem escrito muito bem sobre isso.
E, não esquecendo o que fui como aluno, alguns limites já foram ultrapassados. Não sei se irremediavelmente...
Mas não desisto, ouso fazer sugestões de leituras, sinopses e (até!!! como já ouvi colegas professores reagirem), Tpc´s de férias que incluem leituras!!!
O resultado não é animador, mas não desisto.
Saudações,
Luís Vilela.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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