Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

As consequências de levar a sério o relativismo cultural

RachelsJames Mesmo que o argumento das diferenças culturais seja inválido, o relativismo cultural pode ser verdadeiro. Como seria se fosse verdadeiro?

Na passagem citada, William Graham Sumner resume a essência do relativismo cultural. Sumner afirma que não há uma medida de certo e errado, além dos padrões de uma sociedade: «A noção de certo está nos hábitos da população. Não reside além deles, não provém de origem independente, para os pôr à prova. O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo». Suponha-se que tomávamos isto a sério. Quais seriam algumas das consequências?

1. Deixaríamos de poder afirmar que os costumes de outras sociedades são moralmente inferiores aos nossos. Isto, é claro, é um dos principais aspectos sublinhados pelo relativismo cultural. Teríamos de deixar de condenar outras sociedades simplesmente por serem «diferentes». Enquanto nos concentrarmos apenas em certos exemplos, como as práticas funerárias dos gregos e calatinos isto pode parecer uma atitude sofisticada e esclarecida.

No entanto, seríamos também impedidos de criticar outras práticas menos benignas. Suponha-se que uma sociedade declarava guerra aos seus vizinhos com o intuito de fazer escravos. Ou suponha que uma sociedade era violentamente anti-semita e os seus líderes se propunham destruir os judeus. O relativismo cultural iria impedir-nos de dizer que qualquer destas práticas estava errada. (Nem sequer poderíamos dizer que uma sociedade tolerante em relação aos judeus é melhor que uma sociedade anti-semita, pois isso implicaria um tipo qualquer de padrão transcultural de comparação.) A incapacidade de condenar estas práticas não parece muito esclarecida; pelo contrário, a escravatura e o anti-semitismo afiguram-se erradas onde quer que ocorram. No entanto, se tomássemos a sério o relativismo cultural teríamos de encarar estas práticas sociais como algo imune à crítica.

James Rachels, elementos de filosofia moral, Gradiva, p.40

publicado por rolandoa às 11:10

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4 comentários:
De Anónimo a 14 de Maio de 2009 às 15:51
Parece-me que James Rachels confunde a realidade do pluriculturalismo com o aproveitamento politico que um determinado Estado pode fazer em seu proveito da cultura onde se encontra enraizado. Por outras palavras confunde ideologia com herança cultural.

Por outro lado a existência de culturas diferentes não implica necessariamente que elas deixem de poder fazer julgamentos de valor entre elas. A intersubjectividade não é cortada pelo simples facto de reconhecermos que somos condicionados culturalmente (pelo tempo e pelo espaço).
De rolandoa a 14 de Maio de 2009 às 16:06
Não, não confunde. O que Rachels está a denunciar é precisamente a existência de Estados ou argumentos relativistas que fazem precisamente essa confusão.
De Sérgio Lagoa a 15 de Maio de 2009 às 13:49
Rachels não ataca o multiculturalismo - pelo contrário, defende-o. O que Rachels não defende é que ao relativismo cultural, isto é, à posição sociológica de aceitação da diversidade de culturas, suceda um relativismo moral, ou seja, um subjectivismo ético/moral. A generalidade dos multiculturalistas defenderá o direito que cada sociedade tem de defender a sua identidade cultural própria, mas isso não é posto em questão por Rachels. O problema está nas consequências de se afirmar a tolerância como valor absoluto em matéria moral: se afirmo que devo tolerar todas - sublinho, TODAS - as normas morais diferentes das minhas, terei de aceitar as práticas de pedofilia, necrofilia ou escravatura como moralmente legítimas por corresponderem à identidade cultural de um povo. Esse mesmo argumento é utilizado pelos defensores das touradas para defender a identidade de um povo ou o "direito à diferença".
Como não sou um relativista moral, não lhes reconheço esse direito. A identidade cultural de um povo não pode ser refém da barbárie - e. se o for, tanto pior para esse povo.
De anónimo a 4 de Junho de 2009 às 20:57
É isso mesmo sr. Sérgio Lagoa, concordo plenamente.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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