Domingo, 3 de Maio de 2009

Ministério Mágico da Educação.

Coelho da cartola Um aspecto que não me agrada na cultura portuguesa é que ainda não se libertou do peso e do poder do Estado. Para tudo o Estado é pai e chamado. As pessoas não tem praticamente cultura de liberdade de chamar a si as responsabilidades e poder de decisão e actuação, com todos os riscos que tal implica. Um exemplo muito simples, mas particular da filosofia, pode ser dado com a definição de Platão de conhecimento enquanto crença verdadeira justificada. Durante alguns anos alguns professores ensinaram a definição CVJ e falavam dela aos colegas. Somente um manual teve a coragem de apresentar essa definição, que apesar de correcta, remava contra a maré do tal erro que de tanto se insistir era tomado como verdade. Até à homologação por parte do Ministério da Educação de um documento que ajustava conteúdos ao programa, as Orientações de Leccionação do Programa de Filosofia, a classe docente de filosofia não acreditava muito na coisa, a não ser uma minoria. Após a homologação desse documento, toda a gente passou a estudar e aceitar essa definição ao ponto dela se tornar tão vulgar que até o mais fraco dos manuais a aborda. E isto tratando-se da classe de professores de filosofia. Imaginemos o resto. Se o Ministério manda, é porque é verdade, ainda que a malta conteste e tal.

Não sei o que seria das aulas de matemática se para lá fossem os docentes ensinar numerologia. Mas é verdade que veio ao conhecimento público o recente caso da homologação pela parte do Ministério de uma formação de professores na treta das crianças índigo. Depois do jogo do pau e da pintura de azulejos só faltava mesmo os professores terem formação em crianças índigo, ao mesmo tempo que temos um ensino macaco, formal, desmotivador e pouco rigoroso. Ao mesmo tempo que o Ministério actual acentua avaliações e reformas avulsas em educação sem sequer tocar na falta de rigor científico com que os programas de ensino são aplicados. Recentemente um colega quando ouviu estes meus argumentos respondeu que essas formações servem para aumentar a cultura geral. Mas para quê aumentar a cultura geral quando a cultura científica do que ensinamos nem sequer possui solidez? Não me importaria nada de fazer uma greve às avaliações a reivindicar rigor científico nos programas curriculares. Mas nada disto importa para se ser professor que é afinal a única coisa que deveria importar.

O que concluo daqui é que este ensino formal e apático, mais baseado na repetição acrítica do que na aprendizagem activa (exceptuando os novos cursos que ensinam a descascar batatas com certificação final equivalente ao 12º ano), é a expressão directa da ideologia. Não se trata de uma ideologia facilmente identificável, como nos estados fascistas em que sabemos o que pensa o ditador. Esta é a ideologia dos brandos costumes, a ideologia da mentalidade imposta do deixa estar, do não te incomodes, do o outro que trabalhe, do tenho que me safar enquanto é tempo. Esta ideologia assenta nos princípios mais elementares do egoísmo tacanho que defende que já que toda a gente se lixa, também tenho de estar a atento e não me deixar lixar, lixando-os eu também. Pensa-se assim que há uma protecção da felicidade. Pura ilusão: é com esta magia do querer mostrar a falsidade como sendo a verdade que todos nos encontramos no lugar certo que é a infelicidade.

publicado por rolandoa às 23:07

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Rolando Almeida


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