Sábado, 25 de Abril de 2009

Touradas em Viana

touradas3 Em Maio de 2006 inaugurei este blog com um post sobre as touradas. Recentemente o problema teve atenção mediática já que a Câmara Municipal da cidade de Viana do Castelo proibiu a realização de touradas na cidade. Do que vi na TV dois argumentos principais foram usados em favor das touradas, 1) o argumento da tradição e 2) o argumento de que as touradas não prejudicam o próximo já que se faz em recinto fechado e só lá vai quem quer. Sobre o argumento 1) replico aqui a exposição que fiz em 2006 (ver abaixo). O argumento 2) ouvi-o pela parte do opinion maker da TVI, Miguel Sousa Tavares. Só que o argumento 2) não funciona porque ignora que o que está moralmente em causa é se o touro enquanto animal senciente sofre, isso é ou não moralmente relevante?* É evidente que os seres humanos não sofrem com as touradas e até parece que os adeptos das touradas apreciam e se divertem com esse espectáculo. Seja como for, é pena que os filósofos da ética da nossa praça não tomem parte da discussão pública nem se manifestem e deixem a mesma nas mãos dos fazedores de opinião que, mesmo com muita boa vontade, não estão habilitados a discutir racionalmente o problema por desconhecimento evidente do que realmente importa para saber discutir o problema. Por outro lado, vamos imaginar que MST vivia no século 18 e a Câmara Municipal de Viana tinha proibido a escravatura dos negros. Como, nesse século, os negros não eram considerados humanos, é possível que MST defendesse que não há qualquer problema em escravizar os negros, já que nenhum ser humano vai sofrer com o facto de alguns seres humanos escravizarem negros.

Objecção ao argumento 1):

Um dos argumentos mais usados em favor das touradas é o da tradição. Pois bem, poderemos formular este argumento do modo seguinte:

Tudo o que é tradição merece ser preservado

A tourada é tradição

Logo, a tourada merece ser preservada.

Segundo este raciocínio, poderemos também seguir o seguinte:

Tudo o que é tradição merece ser preservado

Apedrejar mulheres infiéis em algumas culturas é tradição

Logo, apedrejar mulheres infiéis em algumas culturas deve ser preservado.

Temos boas razões para pensar que a iniciativa da Câmara Municipal de Viana do castelo envolve boas razões éticas.

*Agradeço a correcção da questão a Aires Almeida

publicado por rolandoa às 23:04

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8 comentários:
De isabel laranjeira a 26 de Abril de 2009 às 14:41
Na semana passada assisti ao início de um programa na SIC em que um filósofo, bastante jovem, presidente da Associação ANIMAL, apresentou bons argumentos em defesa dos Direitos dos Animais.

Cabe-nos trabalhar com os alunos no sentido de os sensibilizar para esta problemática.
Cumprimentos
isabel
De rolandoa a 27 de Abril de 2009 às 10:36
Olá Isabel,
De acordo. Sem dúvida que é importante discutir com os alunos o problema.
Obrigado
De Aires Almeida a 27 de Abril de 2009 às 01:22
Rolando, há uma coisa que dizes no post e que me parece merecer correcção. Dizes que "o que está moralmente em causa é se o touro, enquanto animal senciente, sofre ou não sofre nas touradas". Percebo a ideia, mas não diria que isso está em causa. Ninguém, a não ser pessoas completamente desinformadas, discute se os animais são sencientes. É um dado empírico amplamente confirmado e não uma questão de opinião. A questão moral é outra: será que o facto de serem sencientes é moralmente relevante ou não? Repara que uma pessoa pode defender, sem contradição aparente, que os animais sofrem mas que isso não nos obriga a seja o que for.

Qualquer conversa civilizada sobre os direitos dos animais e as touradas tem de pressupor o facto de que os touros sofrem.
De rolandoa a 27 de Abril de 2009 às 10:31
Aires,
Obrigado pela correcção. Pois claro que como escrevi faltava rigor.
abraço
De Santos a 6 de Maio de 2009 às 01:11
Este programa foi claramente uma tentativa de passar a mensagem dos anti-taurinos, ou lá o que queiram chamar. Começaram por dizer que o programa iria debater a temática "sofrimento do animal", no entanto, o tema que realmente assisti foi "o animal no circo e nas touradas".
Em 1º lugar são situações em que o animal está em planos completamente diferentes; acho que são 2 programas diferentes (circo e touradas).
Em 2º lugar, se querem falar de touradas têm que contratar um apresentador que não seja tendencioso, logo mais profissional.
Em 3º lugar, quando se falam em touradas é obrigatorio falar em valores sociais, só assim se compreende a paixão que rodeia esta arte.
Em 4º lugar é o segundo espectáculo mais visto em espaços abertos, é importante não o esquecer.
5º e ultimo se querem falar em sofrimento animal, organizem um debate sobre os animais de consumo e tudo o que os envolve, tal e qual como os animais domésticos antes de falarem em touradas ou circos, pois em termos de utilização serão estes em maior numero. Se querem gastar tempo e dinheiro com causas fundamentalistas comecem pelos humanos.
De rolandoa a 6 de Maio de 2009 às 01:25
Caro Santos,
Do facto de se matarem muitos animais para consumo, em muito maior número doq ue os que sao mortos em circos e touradas, daí não se segue que os que sofrem em circos e touradas não impliquem um problema moral.
Não se trata de fundamentalismo, mas de discussão racional de problemas morais.
Creio que há dever moral em preocupar-nos com os problemas dos humanos, mas também dos animais não humanos. Isso faz-me lembrar a velha história: há uns seculos olhava-se para os negros como animais não humanos, daí não se via qualquer problema moral em escravizá-los. Hoje já conseguimos olhar para os negros como animais humanos. Não olharemos no futuro para macacos, elefantes e touros como animais humanos, mas pelo menos olharemos para eles como animais que 1) sofrem com a dor e 2) portadores de racionalidade.
Não vejo realmente argumentos racionalmente convincentes a favor moral das touradas, a menos que sejamos especistas que consiste em pensar que uma determinada espécie, no caso, a humana, possui privilégios morais em relação a outras.
De P. Sousa a 15 de Junho de 2009 às 12:00
Os touros não são mulheres. Pensem nisso Sr.s Prof.s de Filosofia. E deixem-se de fazer silogismos da treta de urbano-depressivos que nunca criaram animais. Se existe pessoas que mais gostam de touros bravos são os toureiros.
De rolandoa a 15 de Junho de 2009 às 15:24
Caro Sousa,
Até pode defender que os touros não são mulheres, defesa facilmente aceitável. Não sei é que defesa faz para pensar que os touros por não serem mulheres possuem menos direitos morais. Apresentou argumentos em sua defesa? Ou limita-se a chamar filosofia da treta àquela que coloca no mesmo plano moral touros e mulheres? Não esqueça que há uns 100 anos atrás, as mulheres negras também não eram mulheres e em via disso estavam no mesmo plano moral que os touros.
Uma nota mais: da minha parte podia esforçar-se por indicar onde é que vê tendências urbano depressivas, já que não me parece que as tenha alguma vez demonstrado. Os touros gostam de touros bravos para os tourear, outros gostam de os comer e outros ainda gostam de pensar com argumentos que os touros tem direitos morais enquanto seres sujeitos à dor. Quando se está a comparar touros e mulheres está a fazer-se a analogia com base num critério, que é o do sofrimento admitindo que seres sujeitos à dor desejam evitá-la. Que o touro sente dor é um facto extra filosófico já que o sabemos empiricamente. O problema aparece quando pensamos se há interesse moral em sujeitar ou não o animal à dor.
De resto como disse que somos filósofos da treta também eu poderia considerar que os toureiros são toureiros da treta. Parece-lhe razoável seguir por aí? A mim não.

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Rolando Almeida


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