Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Argumentar nas caixas de comentários

boxe Um dos princípios base da investigação filosófica é o de que as nossas teses devem estar sujeitos à prova. Como é próprio da investigação em filosofia, o filósofo não tem à mão mecanismos de prova empíricos. E existe uma tendência intuitiva, mas discutível, de que a prova empírica é o ponto final de qualquer investigação. Alguém familiarizado com as leituras em filosofia não tem tanta dificuldade em aceitar como uma pessoa que não tem esse hábito que em filosofia não podemos buscar provas empíricas. Este sinal, que até é simples, é , com efeito, motivador de amplas discussões e sobretudo maiores confusões. Por outro lado, como as pessoas intuitivamente não colocam em causa o que os olhos podem ver, torna a disciplina de filosofia muito mais vulnerável a más influências e subtilezas do que a investigação em física, por exemplo (exceptuando aqui a astrologia que até a causalidade da matéria coloca em causa). O efeito mais imediato é o lugar que se abre à imposição do preconceito, razão pela qual um bom início do estudo em filosofia é a análise dos nossos próprios preconceitos.

Talvez por essa razão seja comum que nas caixas de comentários, imensos comentadores, quando objectamos, nos peçam fundamentos. Se a objecção é já em si um argumento – bom ou mau – que fundamentos mais podemos dar? O mínimo que nos podem pedir é uma revisão das premissas que estamos a defender como plausíveis para apoiar a conclusão que queremos chegar. O que é interessante é que para o mesmo problema temos de fundamentar as objecções, mas jamais nos pedem o mesmo se concordamos, como se a tese a objectar fosse auto justificada. Isto acontece com muita frequência quando raciocinamos indutivamente por generalização. Na maioria das generalizações que usamos para argumentar não podemos recorrer a mecanismos de prova empírica. Seria irrazoável estar a provar que, por exemplo, a generalidade das pessoas licenciadas em Portugal são hipócritas quando dizem gostar da cultura, mas que depois não a pagam e vão roubar livros grátis na internet. Nem um estudo sociológico me parece estar à altura de provar tal tese, já que as pessoas são hipócritas porque mentem ao não assumir publicamente o que fazem em privado.

Quando raciocinamos não estamos perante um tribunal para aplicar leis. Servimo-nos das generalizações para pensar. O processo pelo qual formulamos a maior parte das nossas generalizações é discutível, mas isso exige já uma outra discussão. Se a tese a objectar é que as pessoas não são hipócritas e são genuínas, por que razão não pedimos então também para que essa tese seja fundamentada? A generalização resulta da percepção que temos da realidade e ficaríamos paralisados, sem poder argumentar, se agora entrássemos de repente numa de justificar exaustivamente o que é uma percepção, como é que ela se forma na mente, etc. porque a maior parte do caminho a fazer faz-se em ignorância. É por isso que discutimos e investigamos, precisamente para procurar saber.

Finalmente, a maior parte das coisas que sabemos não as sabemos porque estão justificadíssimas. Nunca justificamos que a terra é realmente redonda. Esses conhecimentos foram-nos dados e a generalidade das pessoas sabe que a terra é redonda mas não sabe explicar por quê. Se por não sabermos por quê não pudéssemos usar essa verdade, excluiríamos muita discussão. Confiamos no trabalho dos cientistas para que esse conhecimento esteja presente de forma indiscutível. Não podemos ser cientistas a toda a hora sobre tudo o que nos rodeia e mesmo que o fossemos, ainda assim estaríamos pouco mais ou menos iguais.

Rolando Almeida

publicado por rolandoa às 22:25

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2 comentários:
De Carlos Silva a 22 de Abril de 2009 às 16:41
Bem Haja, caro Rolando!

Veio-me à memória aquela máxima de Kant:
"Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas".
A argumentação é o instrumento filosófico por excelência mas ela visa a realidade, caso contrário é uma argumentação vã, oca, sem qualquer interesse. Para lá da validade (característica dos argumentos) há a considerar a verdade (das proposições) e esta reporta-se à (conhecimento da) realidade. A questão está em saber qual o critério de verdade (verificacionista, adequação, pragmátismo, ...).
Por tudo isto, a filosofia não pode prescindir dos conhecimentos científicos e/ou outros.

Cumprimentos meus e do Paulo Clemêncio, lembras-te?
Carlos JC Silva



De rolandoa a 22 de Abril de 2009 às 16:50
Olá Carlos,
Só me trazes coisas boas:
1- o teu comentário certeiro
2- os cumprimentos do Paulo. Então não lembro? Consegues o mail dele?
abraço
Rolando

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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