Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Por que é que se chumba mais a português e matemática?

orelhas-de-burro Ensino na loja dos 300

Para tentar responder a este problema vou arriscar uma hipótese: porque o português e a matemática são disciplinas que não sofrem ameaças de desaparecimento do sistema de ensino e seja qual for a variante de formação, são disciplinas sempre presentes. Mas o mesmo não acontece com disciplinas como química, física, biologia, história (esta menos) ou filosofia.

Uma das dominantes das recentes políticas educativas é minimizar o peso de exigência das disciplinas. O caso recente dos exames de matemática é disso bom exemplo. Se os alunos chumbam, não se lhes exija mais, faça-se-lhes uma concessão e torne-se o exame um exame, vá lá, da treta. No caso da filosofia, acaba-se com o exame que ninguém vai dar por isso e muita gente agradece. No caso da física, substitui-se a carga horária pelas TIC ou áreas de projecto, que a física não é necessária para se ter um bom emprego e além do mais os cursos de física estão às moscas. O melhor mesmo era começar a dar licenciaturas e salários a profissões pouco exigentes em termos intelectuais: aumentava-se o rendimento das famílias e tratava-nos por Drs o que implica mais respeitinho.

Para a filosofia temos bom remédio: propõe-se cursos muito mais fáceis, mas sem filosofia. Gradualmente damos cabo da filosofia. Que se lixe a filosofia. Recentemente perguntava aos meus alunos num teste de filosofia, “se é verdade que a terra é redonda e se eu acredito nisso, então é porque sei que a terra é redonda”. Pedia que os alunos me respondessem se concordam com a afirmação e porquê? A esmagadora maioria dos alunos responderam que sim, que concordam já que sabemos que a terra é redonda através do conhecimento. Não é necessário muito mais que uma pergunta simples para perceber uma dura realidade: a escola não sabe ensinar a pensar. E se os estudantes não sabem pensar para que lhes impor física, química, biologia ou filosofia, que são disciplinas que exigem saber pensar? É o mesmo que cortar as pernas aos estudantes e impor-lhes a educação física com provas de corrida. Será expectável que a maioria dos alunos não consigam realizar tal prova e que 1) ou todos chumbam ou 2) passa-se os alunos mesmo sem terem conseguido realizar um terço da prova. A solução educativa em relação ao ensino é pura e simplesmente acabar com a educação física e, em seu lugar, inventar algo como “exercícios práticos de desporto” onde os alunos mais não tem de fazer do que mexer o dedo pequeno ou, vá lá, o grande ou o médio ou, na pior das hipóteses, se o aluno não tiver dedos, que mexa qualquer coisa de acordo com o que pensa que é adequado à sua realidade.

Ciência? Conhecimento? Artes? Para o caraças com isso. Coisas de ricos. A nossa população não aprende isso, não quer saber, nem precisa disso.

É por estas razões (muitas das vezes com o silêncio aprovador de milhares de professores e dezenas de sindicatos) que desaparecem sem se saber bem como disciplinas como filosofia ou física e em seu proveito aparecem as novas oportunidades e todo o tipo de oportunidades saloias para que os nossos estudantes passem do 7 ao 17. E passam mesmo, razão pela qual, há 8 anos que trabalho com o ensino profissional e todos os anos ouço alunos dizer que eram alunos de 7, mas que agora conseguem 17 sem terem de estudar mais. Isto são factos e não considerações.

Claro que nada tenho contra modelos alternativos de ensino, só não compreendo a razão pela qual esses modelos alternativos são exemplos dramáticos de desprezo completo pelo saber, pelo conhecimento e pela ciência. Um destes dias questionei taxativamente um director de um curso profissional se colocaria os seus filhos a estudar nesses cursos. A resposta foi que não já que esperava como todo o bom pai que os filhos fossem para a universidade. Expliquei a esse director que a entrada na universidade estaria garantida frequentando os cursos profissionais e que até poderiam tirar melhores classificações no ensino profissional já que as classificações são inflacionadas. Fiquei sem resposta. Mas não é necessária. Compreende-se perfeitamente por que este pai, director de um curso profissional, prefere que os filhos estudem nos cursos gerais. Porque, apesar de tudo, nos cursos gerais, os filhos podem estudar física, biologia e filosofia que são disciplinas que melhor os preparam para os futuros cursos e para a vida. Para os filhos dos outros, o profissional serve e as novas oportunidades também.

Estas são razões que parecem explicar porque se chumba mais a português e a matemática do que a filosofia, por exemplo. Em termos práticos, um aluno que chumbe a filosofia pode fugir da filosofia optando pelas novas oportunidades ou pelos cursos profissionais, evitando desse modo a disciplina a que chumba. Mas o mesmo não pode fazer com o português ou a matemática. Ao mesmo tempo o professor de filosofia ao chumbar o aluno está a convidá-lo a abandonar a disciplina já que tem outras possibilidades, muito mais fáceis, menos trabalhosas e com garantia de melhores médias e, muito subtilmente, o professor de filosofia está a dar cabo da sua disciplina contribuindo para o sua gradual menor importância nos currículos da nova massa de estudantes. Pelo contrário o professor de matemática pode enviar o aluno para o profissional ou as novas oportunidades sem ameaçar o seu posto de trabalho.

publicado por rolandoa às 15:32

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6 comentários:
De João Pedro a 26 de Março de 2009 às 23:27
Cumprimentos!

Parabéns pelo blog, ele já vai longe!

Agradeço muito a resposta ao mail que lhe enviei (fui eu!) sobre Kant.

Quanto ao texto, ele denuncia muito bem o facilitismo em que o ensino caiu.

No entanto, discordo da sua resposta à pergunta.

Não considero que os professores de filosofia, física, etc..., tenham um plano secreto de passar alunos porque a sua reprovação desgraçaria a disciplina que leccionam.

Mas isto não é o principal do seu post.

O Rolando sugere que os alunos não são ensinados a pensar (o que eu concordo) e que por tal motivo reprovam às disciplinas sérias (sem contar com português e matemática).
Discordo.

Essas disciplinas são profundamente dogmáticas (talvez sem contar com a física). São dogmáticas por este motivo:
-os testes não são nada práticos (eu acho que quando entro para um teste de filosofia, desligo o cérebro...);
-se eu souber o que está no livro tirarei uma nota de 19 para cima, não preciso de saber mais nada, uma máquina fazia o teste por mim.

O problema do português e da matemática (porque não da física também) é que é preciso pensar um pouco durante o teste, apesar de tudo.
Não basta memorizar o livro (cada vez a matemática caminha para o mesmo caminho-demasiados exercícios de repetições e não de demonstrações...).

P.S.: Convém não desvalorizar o factor copianço: muitos professores não se apercebem mas ele é mesmo muito importante-porque será que se tira sempre grandes notas nos testes de escolhas múltiplas?

P.P.S:Não quis dizer que a filosofia fosse dogmática. Mas a minha disciplina de filosofia que me leccionam na escola é.
Repare-se nas primeiras aulas de filosofia do 10º ano:
-ensina-se a natureza anti-dogmática da filosofia como? Dando provas ou exemplificando? Não! Repetindo preconceitos sobre racismo e liberdade. Dogmas, dogmas DOGMAS!

Eu fiquei logo com uma péssima ideia da disciplina nas primeiras aulas.

De João Pedro a 26 de Março de 2009 às 23:29
no post de cima, onde se lê -caminho- não se deve ler nada, está a mais.
De rolandoa a 26 de Março de 2009 às 23:47
Caro João,
Interpretou mal o meu post, mas é natural, já que não é professor e não pode compreender o que eu disse. A questão é profissional e não tanto pedagógica ou didáctica. Do ponto de vista didáctico, o que se passa com a filosofia, passa-se com muitas outras disciplinas: os programas dão grande liberdade ao professor e daí que uns professores consigam motivar melhor os seus alunos do que outros. Por exemplo, o exemplo que me dá de filosofia no 10º ano nunca me ocorreu para as minhas aulas.Mas tal não invalida, pois, o seu sentido crítico. O meu colega e amigo Desidério Murcho costuma invocar um exemplo muito interessante e que nem se passou com a filosofia. Diz ele que no seu tempo de estudante detestou estudar Eça de Queiroz, os Maias e, com efeito, hoje em dia, é das obras e dos escritores que mais aprecia. O que acontece é que não foi estimulado devidamente para o estudo dos Maias. Mas esta conversa dá pano para mangas e não há soluções mágicas para estes problemas.
De João Pedro a 6 de Abril de 2009 às 02:01
Depois de reler o meu post, observo que divaguei demasiado (muito desnecessariamente!)

Assim, aproveito para sintetizar o que queria dizer.


Apesar de tudo, a Matemática e o Português são as disciplinas menos dogmáticas.
Os alunos têm mais dificuldades a disciplinas menos dogmáticas.
Logo, têm piores resultados nestas disciplinas.

O argumento é dedutivo e é formalmente válido.

Se as suas premissas forem verdadeiras, a conclusão também o será.

Qaunto à segunda premissa:

O Ensino é dogmático.
Logo, a maioria dos alunos não pensa bem.
Logo, em situações em que o Ensino não é dogmático, os alunos não se saem bem.

Assim, por este argumento lateral, tento provar que a premissa "Os alunos têm mais dificuldades a disciplinas menos dogmáticas." é verdadeira.

Quanto à primeira premissa (Apesar de tudo, a Matemática e o Português são as disciplinas menos dogmáticas):

Considero que quer a língua portuguesa quer a matemática são disciplinas que são menos susceptíveis de serem ensinadas dogmaticamente do que as outras. Vai-se perguntar o quê? Definições? Aqui não é possível. Apesar de tudo, nestes casos, o ensino é mais abstracto.

Nas outras disciplinas, é mais fácil ser-se dogmático, pois é mais fácil perguntar definições ou simplesmente pedir ao aluno para debitar matéria.



Quanto ao argumento original (o do Rolando), pelo que percebi, a sua forma é a seguinte:

A Matemática e o Português são as disciplinas cujo desaparecimento do programa do Ensino Secundário é mais improvável.
Logo, o seu nível é o mais elevado.
Logo, há mais reprovações nessas disciplinas.


Como disse anteriormente, penso que não há um plano maquiavélico dos professores para tornar as disciplinas que leccionam fáceis para que estas não desapareçam.
Além disso, acho que a probabilidade da Matemática ou do Português desaparecerem está ao mesmo nível da História ou da Física, por exemplo.

Logo, penso que este argumento não é bom.


De António Silva a 2 de Agosto de 2009 às 10:01
O que eu acho é que  a filosofia está a ser mal leccionada nas escolas, porque obrigam os alunos a decorar imensas páginas, simplesmente isso. Não ensinam a pensar e a discutir a realidade, que é o que os filósofos deviam fazer. Para que é que serve decorar o que Kant, Descartes, Platão, Aristóteles e por aí em diante disseram? Se isso é filosofar, então se eu decorar o que disse o primeiro ministro ontem sobre o que deve ser feito no país, então sou considerado filósofo, e ninguém pensa na razão, ou se pensam, apenas olham para os seus interesses,  o verdadeiro filósofo não pode olhar para os seus interesses.
De rolandoa a 2 de Agosto de 2009 às 11:04
Caro António,
O que diz é verdade, mas não inteiramente e por duas razões:
1) é verdade que há muitos professores que leccionam a filosofia como o António diz, mas também há muitos professores que estimulam e fazem filosofia a sério com os seus alunos. E não são assim tão raros, felizmente.
2) É verdade que muitos professores leccionam a filosofia como diz. Mas também é verdade que milhares de professores leccionam exactamente desse modo a Química, Física, Biologia, Português, História, etc... E assim sendo o problema do ensino da filosofia não é um problema do ensino da filosofia, mas do ensino em geral e de todo o sistema educativo.
Abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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