Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Arte e função simbólica

im_stelarc

Implante que o artista Stelarc fez de uma orelha no braço

Soube pela leitura dos jornais on line que a PSP de Braga devolveu os livros apreendidos que falei no post anterior. Segundo a polícia, «Tendo-se verificado que o livro reproduz uma obra de arte e não havendo fundamento para a respectiva apreensão, foi determinado o envio de uma comunicação, ao Ministério Público, para considerar sem efeito o respectivo auto». Vamos imaginar que eu estava presente na feira do livro e montava uma barraca na qual instalava materiais de clínica médica. Aí, sob o efeito de anestesias locais, resolvia auto operar-me em pequenas cirurgias. Perante o choque era preso pela polícia. Mas, já na prisão, alegava que se tratava de uma obra de arte. Deveria ou não a polícia soltar-me? O artista e performer Stelarc procede nas suas instalações a mutações no próprio corpo. Uma das suas mais recentes investidas consistiu em adaptar uma orelha no seu braço. É considerada uma obra de arte, ainda que marginal para muitos críticos de arte. Vamos imaginar que em vez de uma orelha, Stelarc tinha adaptado um pénis. Deveria ser proibido de exibir publicamente a sua arte? Temos boas razões para pensar que a exibição pública de um pénis é menos artístico e mais pornográfico que a exibição pública de uma orelha?

Os casos menos convencionais na arte são sempre chocantes e motivo de muita discussão. O livro de Nigel Warburton, o que é arte, Bizâncio, abre uma discussão intensa sobre este problema. A história da arte está cheia de imagens choque e muitas delas passam a ser moda passado algum tempo. De resto, pintar o nú feminino nem sequer é o mais chocante na história da arte. No caso da música os exemplos de arte extravagante abundam, mas estou a recordar-me do compositor contemporâneo norte americano Harry Partch que compunha a partir dos utensílios que usava na sua profissão, agricultor. Podia dar aqui dezenas de outros bons exemplos.

Mas se aceitamos sem reservas o quadro de Coubert, o que é que nos fará rejeitar uma foto do órgão sexual feminino, por exemplo? E se for um corpo no museu de cera completamente nú, há razões para o aceitar como obra de arte?

É muito difícil responder a problemas com esta natureza, com efeito fica-se com uma sensação estranha quando perguntamos: O que teria passado pela cabeça dos polícias de Braga para acreditar que não pode existir ofensa no quadro pois trata-se de uma obra de arte e não de pornografia? Sendo obra de arte deixa de ser pornográfica? E será que aos agentes policiais devemos exigir uma sólida formação artística para distinguir o que é uma obra de arte e uma obra de pornografia? Já que as questões vem em avalanche, só mais uma para finalizar: e por que razão uma obra pornográfica não pode ser uma obra de arte?

Claro que aqui só levanto questões relacionadas com a definição que possamos ter de arte. A discussão vai mais além do problema da definição da arte, já que está aqui implicado um problema de liberdade de expressão.

HarryPartchCompositor Harry Partch

publicado por rolandoa às 23:40

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4 comentários:
De Ricardo Cardoso a 26 de Fevereiro de 2009 às 01:30
Olá Rolando,

Então, está tudo bem?

Da última vez que nos encontramos sugeriste que mantivéssemos contacto através do blog, mas como não tenho vindo muitas vezes à net nunca mais me lembrei de dizer alguma coisa.
Com mais tempo irei ler mais detalhadamente o blog pois tem aqui muita coisa do meu interesse.

Um abraço,
Ricardo Cardoso

De rolandoa a 26 de Fevereiro de 2009 às 02:07
Viva Ricardo,
Bem vindo. Podemos contactar-nos pelo blog ou até mais fácil pelo e-mail: rolandoa@netmadeira.com
abraço e volta sempre
De Victor Afonso a 5 de Março de 2009 às 19:17
Harry Partch é um dos grandes génios musicais esquecidos do século XX.
De rolandoa a 5 de Março de 2009 às 20:42
Sem dúvida e com um trabalho muito mas mesmo muito inventivo e curioso.
abraço

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Rolando Almeida


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