Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Como exigir avaliação de qualidade para nós se nunca a exigimos para os nossos alunos?

spp_teaching_shapiro Um dos comportamentos que observei muitas vezes ao longo da minha carreira profissional é que os professores mais ou menos acatavam as ordens do ministério, ainda que resmunguem sempre que exista alguma reforma. Têm razão já que as reformas em educação são mais que as mães. O que há de estranhar nisto é que uma boa parte das decisões do ministério mereciam forte contestação dos professores e das plataformas que os defendem, os sindicatos, como por exemplo, o estrangulamento dos programas de ensino, o fim de exames nacionais, o medíocre ensino da música, etc. É verdade que os exames nacionais lançaram algum barulho nalgumas ocasiões, mas foram mais pelos resultados e quando estes não eram desejáveis. Tais contestações vinham dos pais e não dos professores ou dos sindicatos de professores. São duas ou três gerações seguidas a acatar ordens do ministério que dão cabo do sistema educativo, que degradam a qualidade do ensino e das aulas. Mas nunca vi uma só manifestação por causa disso. Vi sim, alguns encontros, palestras, etc. mas que nunca tiveram eco para além de alguns docentes efectivamente preocupados com as más decisões ministeriais.

A avaliação que este ministério pretende impor aos professores é uma avaliação sem pés nem cabeça e visa sobretudo reduzir custos do ministério. Não está em causa a qualidade do ensino pois não há qualquer indicação que avaliando desta forma os professores, a qualidade do ensino melhora. O que está em causa é gerar recursos financeiros. Acontece que o ministério parece ter tocado na parte mais sensível do sistema: os salários dos professores. E realmente é uma parte importante. Também eu sou professor porque sou pago para tal. Sem esse pagamento não poderia ser professor nem realizar melhor possível o meu trabalho. Mas nada disto tem relação directa com a qualidade educativa, ainda que ambas as partes da desgraça usem o argumento falacioso do que o que está em causa é a qualidade da educação.

Autores como Nuno Crato tem feito a denuncia dos desvios e exageros das políticas educativas das últimas décadas. Acontece que nenhuma plataforma de defesa da qualidade educativa se pronunciou massivamente sobre a questão.

É verdade que os professores tem razão nesta luta: a avaliação que se lhes quer impor não é justa nem estruturada. Mas também é verdade que a avaliação que se impõe aos nossos estudantes não é justa. E nem a plataforma principal que representa as associações de pais, a CONFAP, tem reclamado convincentemente uma avaliação de alunos que seja mais do que um ensinar no vazio.

O que é ensinar no vazio? É ensinar com programas vagos, nos quais a invenção competências se sobrepõe aos conteúdos, ensinar com maus manuais feitos em proveito do lucro frenético das editoras sem que o lucro visado acompanhe a qualidade, ensinar sem exames, para além de todo o formalismo que é mais complexo de eliminar já que é herança directa de uma universidade muitas das vezes mal cheirosa e distante da realidade do ensino em geral.

Neste ponto da situação não resta outra alternativa aos professores senão a da exigência de garantias de qualidade na sua avaliação. Mas os erros do passado devem fazer a classe progredir. Vamos supor que a classe dos professores tinha no passado exigido mais qualidade no ensino. Teria agora algum ministério encomendado uma avaliação de pacotilha para os professores? Estou convencido que pelo menos seria mais difícil.

Mas como é que nós, professores, podemos reclamar mais qualidade ao ensino e avaliação dos nossos estudantes? Evitando o centralismo do ministério na tomada de decisões sobre matérias que não são da sua competência, como a intervenção total sem consulta dos professores, que são quem sabe da matéria, nos programas de ensino. Ainda que me objectem dizendo que as sociedades científicas são consultadas, e é verdade, parece-me que as decisões finais podem sempre ser tomadas à revelia de qualquer recomendação externa ao ministério. O exemplo do ensino da filosofia é notável, embora me pareça que praticamente todas as disciplinas acompanham esta infeliz tendência. O programa de filosofia é vago de conteúdos. Após algumas recomendações o ministério encomendou umas orientações de leccionação que homologou durante um ano e rapidamente as cancelou, sem qualquer explicação. Antes das orientações ao programa poucos professores falavam, por exemplo, na tese da CVJ em Platão. Era conversa estranha. Mas após a homologação praticamente todos os professores a ensinam e praticamente todos os manuais, mesmo os piores, abordam a tese CVJ. Que lição tirar daqui? Que os professores fazem o que o ministério manda. Mas em matéria de conteúdos científicos não devia funcionar ao contrário e ser o ministério a dar ouvidos a quem sabe?

Talvez isto resulte assim em parte pela falta de liberdade que temos enquanto cidadãos responsáveis pelo nosso trabalho e pelos nossos afazeres, mas no final das contas paira uma questão no ar: que moral há em defender uma avaliação de qualidade para os professores e não o fazer da mesma forma para a avaliação dos alunos?

Rolando Almeida

publicado por rolandoa às 12:00

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