Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Um sério problema moral – a dor e o sofrimento

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Faça o seguinte: coma ovos pela manhã. Almoce um bom bife e coma um pão com fiambre ao lanche. Vista o seu casaco em pele e os sapatos de couro. Vá no seu automóvel com estofos de cabedal ao circo para ver o número especial com elefantes. À noite veja este filme (em 9 partes). Depois, quando se deitar, saiba que é um especista assassino.

Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4 Parte 5 Parte 6 Parte 7 Parte 8 Parte 9

 

 

Depois de visualizar o filme, tenha lá coragem de no dia seguinte ir ao restaurante fast food comer um hamburger e aproveitar a tarde para ir ao jardim zoológico. Se ainda tiver coragem para tal, é terrivelmente estúpido. O especismo é fruto directo da ignorância, mas apetece-me deixar aqui uma questão: o que é que ganhamos com a dor dos animais nossos parceiros habitantes do planeta?

publicado por rolandoa às 00:47

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12 comentários:
De non sequitur a 16 de Fevereiro de 2009 às 12:10
Talvez a questão para a maioria dos humanos não seja "o que é que ganhamos com a dor dos animais nossos parceiros habitantes do planeta?", mas sim "o que perdemos se formos vegetarianos ou até mesmo vegans?".
Ainda que ambas estejam relacionadas, tirando aqueles que têm interesses económicos na exploração dos animais não-humanos - estes sim, pensam no que ganham! -, as pessoas não querem é deixar cair certos e hábitos enraizados e prazeres como o sabor de uma carne bem ou mal passada.

Não querem porque em questões éticas as consequências de não se fazer o que se julga correcto não são, por exemplo, como as consequências de não se conduzir um carro correctamente. A maioria das pessoas ou não julga importante as questões da exploração dos animais não-humanos ou passa muito bem usufruindo dessa exploração mesmo acreditando que é errada.

Já agora, eu tenho o filme com boa qualidade em ficheiro .avi. Posso partilhar se alguém quiser.
De rolandoa a 16 de Fevereiro de 2009 às 12:37
Creio que a opção pelo vegan vem em consequência da capacidade racional de compreender que os animais estejam sujeitos à dor. É que não temos necessariamente de nos tornarmos vegetarianos. Temos é de poupar os animais ao sofrimento. Repara que há pessoas que comem carne mas estão preocupadas com as consequências ambientais que acarreta a produção de carne em doses industriais. Se reparares nas aldeias portuguesas o gado tem qualidade de vida (daí também a qualidade dos nossos enchidos). O problema maior é a forma como os matam.
De non sequitur a 16 de Fevereiro de 2009 às 13:05
Excluíndo questões relacionadas com cepticismo ou com filosofia da mente, quem é que nos dias de hoje não compreende que pelo menos os mamíferos não-humanos estão sujeitos à dor de modo muito semelhante a nós?

No entanto, a maioria continua a comer os animais que sabem ter sofrido para estarem nos seus pratos. Podem não fazer ideia das atrocidades pelas quais os animais passam. Mas sabem que sofrem.

Concordo que não ser vegetariano nem vegan não é contraditório com estar preocupado com questões ambientais relacionadas com a indústria de carne. Mas só se ao mesmo tempo não se ajudar a financiar esta mesma indústria, comprando os seus produtos, por exemplo.

Contudo, para a grande maioria das pessoas que vive em cidades, penso que ter preocupações ambientais daquela espécie deve implicar ser vegetariano ou vegan, uma vez que nas cidades dificilmente conseguirão boicotar aquela indústria.
De rolandoa a 16 de Fevereiro de 2009 às 13:46
Bom, não temos muitos meios para o provar, mas realmente não estou assim tão certo que as pessoas estejam realmente conscientes disso. Por essa razão é que Singer continua, desde a década de 70, a escrever sobre o assunto. Mas é verdade que estamos talvez cada vez mais informados. E ainda bem. O que explica que as pessoas saibam do problema, mas continuem a comer carne é quando elas sabem do problema de forma publicitária. temos de dar boas razões às pessoas para não comerem os animais. Este é um problema racional, que se compreende raciocinando. E raciocinar como sabemos é pensar pela própria cabeça. Se for o professor Marcelo a raciocinar por nós e a dizer o que devemos e não comer, isso é subserviência à autoridade. O trabalho de Singer é notável, já que dá razões às pessoas para pensar no que andam a fazer.
De non sequitur a 16 de Fevereiro de 2009 às 16:33
O Singer continua a escrever sobre o assunto precisamente porque as pessoas não aceitam os argumentos dele como aceitam as rezas do pai nosso! É que em princípio quanto mais ele divulgar essas questões mais pessoas irão poder conhecê-las e, quem sabe, serem convencidas a deixarem de ser especistas.

Conheço pessoas que são capazes de raciocinar muito bem sobre o assunto e conhecem as razões e tal, mas daí nada se segue. Conhecer o que é correcto não implica fazê-lo (como o velhinho Platão coloca Sócrates a dizer). Era bom era!

Quanto à hipocrisia de deixar comer carne e alimentar os animais de estimação com carne, isso é mais uma desculpa para fugir à questão. Antes de mais dever-se-ia pensar se há boas razões para se ter animais de estimação. Se sim, quais? Depois quanto à alimentação dos bichinhos é pensar novamente se há boas razões para os alimentar como a nós mesmos ou não.
De rolandoa a 16 de Fevereiro de 2009 às 20:23
Caro,
Já no sec XIX existiam livros sobre a liberdade feminina e, com efeito, como sabe, existe ainda muito machismo social, político, etc. Carl Sagan percorreu o mundo para tentar fazer com que a pseudo ciência não esteja no lugar da ciência. O problema que levantou é outro, mas muitissimo interessante: qual a razão que leva as pessoas a não se deixarem persuadir racionalmente? Na verdade a única coisa que na filosofia para já sabemos é que um bom argumento não deixa de ser um bom argumento porque as condições psicológicas do auditório não são as melhores para receber um bom argumento.
Eu tenho todas as razões do mundo para não fumar e ainda assim fumo um ou outro cigarro. Mas isso não torna mau um bom argumento para não fumar, ora bolas.
Finalmente: há boas razões para ter alguns animais em casa. Uma delas é proteger o animal de ameaças externas. Mas não sei se há boas razões para os alimentar com carne.
De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2009 às 12:13
Olá Rolando,

Belo animal, esse. Dava uns belos rojões!

Abraço,
Carlos Silva
De rolandoa a 16 de Fevereiro de 2009 às 12:38
Pois Carlos, disso eu não tenho dúvidas. Mas podemos poupar o animal a sofrimento. Abraço
De Greenie a 16 de Fevereiro de 2009 às 14:20
Alterar hábitos enraizados é sempre difícil. Além disso, como omnívoros que somos, não sei até que ponto é bom para nós deixarmos de comer seja que alimento for. Por outro lado, se, de repente, toda a gente deixasse de comer carne, iria alterar-se de tal forma a cadeia alimentar que não iria haver alimento suficiente para todos.
Sendo uma pessoa que sempre se preocupou com as questões ambientais e com a defesa dos animais, muitas vezes senti problemas de consciência por não conseguir deixar de comer carne. Mas já percebi que não é por aí que eu tenho de seguir. Luto activamente pela defesa e protecção dos animais a que tenho acesso, essencialmente cães e gatos, já que sou natural de Lisboa e filha e neta de lisboetas. Não tenho terra, como se costuma dizer. Não seria muito fácil para mim intervir na defesa de outros animais. Contribuo da forma que posso e sei para evitar a poluição do planeta, nomeadamente fazendo reciclagem e usando transportes públicos e bicicleta. Mas não deixei nem vou deixar de comer carne. Concordo com o Rolando quando diz que não é o facto de matar os animais, mas sim a forma como os matam e as condições em que vivem até ao abate que têm de ser alteradas. Tudo o resto, seria hipocrisia da minha parte, porque tenho em minha casa vários animais carnívoros que se alimentam de ração confeccionada com carne de outros animais. Não faria sentido deixar de comprar carne para mim e continuar a comprar para eles.
De rolandoa a 16 de Fevereiro de 2009 às 14:44
Colocou muito bem o problema. quando se trata de problemas morais é natural, para pessoas racionais, que os princípios a defenderr choquem com as nossas práticas. è possível fazer uma defesa mais radical dos direitos morais dos outros animais. Penso que o conceito de especismo assenta prima facie no sofrimento infligido aos animais. Mas realmente ando a braços com um problema: vamos lá pensar que eu matava negros para os comer, mas dava-lhes qualidade de vida antes de os matar. O problema é que temos uma tendência histórica a considerar moralmente a nossa espécie em relaçao a outras espécies e eu não sei se isso é moralmente correcto. Não tenho infoormação suficiente mas pelo que tenho lido creio que nenhum ser tem absoluta necessidade de se alimentar com carne. mas também não estou a ver os leões deixar de comer carne por defesa de princípios racionais. Talvez só nós humanos tenhamos essa obrigação moral, já que somos dotados da capacidade de antever as consequências. Ou provavelmente o problema está em que alteramos toda a cadeia alimentar com o nosso comportamento moralmente errado.
Obrigado pela participação.
De Vitor Guerreiro a 20 de Fevereiro de 2009 às 23:53
Gastamos mais recursos vegetais para produzir um quilo de carne do que se consumíssemos directamente esses recursos vegetais. E a produção de muitos recursos vegetais que se gastam na produção de carne implicam devastação florestal e outras consequências. Por isso é falacioso pensar que deixar de comer carne ia provocar uma escassez de alimentos. Na verdade é o contrário. A produção industrial de carne é um processo lucrativo mas ecologicamente dispendioso, onde gastamos mais recursos para produzir um produto muito menor.

Ou bem que os animais têm importância moral ou não têm. Se têm, é ridículo dizer que não faz mal matar mas que já é muito mau matar cruelmente. É como ter dois donos de escravos a discutir, porque um deles gosta de violar as escravas e o outro fica escandalizado com isso. Vejamos: o pudor do outro em violar as escravas é indício de que ele pensa que elas são pessoas e que são moralmente importantes porque capazes de sofrer. Mas então este argumento impede-o, de todo em todo, de ter escravos. Assim, o dono de escravos humanista é um hipócrita de pior calibre do que o dono de escravos cruel, que é um nojo de ser humano mas é mais coerente logicamente.

Temos de nos decidir. Ou sim ou sopas. Se ficamos todos melindrados com a morte cruel é porque pensamos que os animais são moralmente importantes. Mas se são, então deixemos de ser como o dono de escravo que "trata bem" os seus escravos, mas não abdica de fazer deles meios para os seus fins. A definição básica de tratar imoralmente alguém é tratá-lo como meio para os nossos fins. A crueldade é apenas uma extensão disso e não algo de natureza diferente.

O argumento que afirma que se não fosse a pecuária algumas espécies deixariam de existir é idiota, porque nenhum de nós concordaria com uma civilização de extraterrestres que criasse seres humanos para os torturar e comer, sob o pretexto de que se não o fizessem, haveria muito menos seres humanos no universo ou nenhuns. Seria preferível não nascer do que existir continuamente numa unidade extraterrestre de produção de carne humana e ter uma vida superlativamente degradada, dolorosa e curta.

De Vitor Guerreiro a 21 de Fevereiro de 2009 às 00:07
Não acredito que seja imoral comer carne em quaisquer circunstâncias, por exemplo, em muitas partes do mundo as pessoas não têm alternativas a uma dieta saudável se não comerem carne. Mas nas cidades do ocidente as pessoas têm alternativas. Só não têm se apesar dos argumentos querem continuar a agir da mesma maneira. Quer dizer, se não querem abdicar simplesmente do prazer de comer carne.

A ideia de que é tolo deixar de comer carne porque os animais comem é autoderrotante, vejamos: muitos comportamentos socialmente destrutivos e imorais têm uma base ou explicação natural, isso não significa que tenham justificação moral. Assim, não é pelo facto de alguns animais comerem as crias ou de o comportamento do violador ter uma explicação biológica ou neurológica que automaticamente passa a ser moral matar e violar. Nós temos a capacidade de raciocinar moralmente e isso impoe-nos escolhas morais. Podemos e´querer evitar essas escolhas morais e continuar a fazer o que íamos fazer de qualquer maneira. Mas então temos de ser honestos e dizer apenas que não nos apetece pensar nisso, e não fingir que temos uma justificação moral para o fazer.

Quanto à questão dos animais domésticos, pode haver as seguintes alternativas:

a) produzir comida para animais de estimação com os ingredientes necessários, mas sem carne, tal como nós próprios comemos alimentos com aditivos proteicos, por exemplo. Se isto for "veterinariamente" viável.

b) deixar de ter animais de estimação, de todo.

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Rolando Almeida


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