Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Avaliações

good_luck_sign Num raro momento de boa formação em filosofia, um workshop sobre avaliação dirigido por Aires Almeida, foi entregue aos formandos um enunciado de um teste de filosofia e pedido que o lessem. Após isso foram entregues aos formandos as respostas e a cotação de cada questão e foi pedido que avaliassem esse teste. Numa plateia composta por cerca de 40 professores de filosofia do ensino secundário, a nota máxima para esse teste foi de 16 valores e a mínima, se a memória não me trai, foi de 6 valores (mas 8 valores foi de certeza). Isto significa que um mesmo teste nas mãos de um professor de filosofia pode valer 16 e nas mãos de outro valer somente 6 valores.

O estudante fica assim numa posição difícil de compreender já que não sabe se é bom ou não a filosofia. Depende do professor. Mais grave: depende inteiramente do professor já que nas mãos de um pode ser um aluno quase brilhante e nas mãos de outro pode ser quase medíocre. Esta situação não dignifica nem o estudo, nem o trabalho dos professores, nem a disciplina. E estou certo que esta realidade é a mesma para muitas outras disciplinas. Os defensores menos sofisticados das teorias românticas (e seus derivados) apressam-se a defender que isto acontece porque a avaliação é contextualizada (eu defendi isto no meu estágio, tese que foi largamente elogiada pelo supervisor pedagógico, um professor de universidade).

Mas será possível que uma cabeça bem pensante esteja deste modo tão escandaloso sujeita à ditadura do contexto? Provavelmente sim quando o próprio sistema de ensino é em si uma arbitrariedade. Parece-me plausível a tese de que há jovens com muito talento mas sem as oportunidades sociais necessárias ao aproveitamento das suas reais capacidades. Mas essa não deve ser a realidade de um país que se quer livre e democrático. Num país livre, o sistema de ensino dá a oportunidade ao estudante de provar as suas reais capacidades proporcionando-lhe um ensino rigoroso e de qualidade, sem estar sujeito as arbitrariedades do professor, do tempo ou dos astros. Qualquer sistema de ensino deve estar preocupado com a qualidade, mas a qualidade começa com a imparcialidade, minimizando os efeitos da subjectividade, ainda que até nos mais sofisticados sistemas de ensino subsista uma margem de subjectividade. Se admitirmos como normal que um mesmo estudante possa tirar no mesmo teste 6 com o professor X e 16 com o professor Y, é o mesmo que admitir que Kant pode ser um grande filósofo na Alemanha, mas pode não passar de um charlatão em Portugal, que a qualidade dos seus argumentos depende de contexto para contexto. Ficamos chocados com a imagem que aqui dou de Kant, mas já elaboramos milhentas questões para tentar justificar o problema da avaliação do estudante. Na essência trata-se, em ambos os exemplos, de um só problema, o do relativismo exagerado. Esta é também a arbitrariedade presente na recente avaliação dos professores. Assim, um docente pode ser excelente na escola X, mas medíocre na Y.

E isto é perfeitamente possível já que os critérios que norteiam a avaliação não passam de arbitrariedades contemplando um claro desprezo pela componente científica, matéria para a qual o ministério da educação não se sente a vontade para avaliar. No caso dos estudantes só um sistema de ensino que privilegia a arbitrariedade, as competências em vez dos conteúdos, é que pode ter como desastrosos os resultados tanto em exames nacionais como internacionais. Solução do ministério: nuns casos (como o da filosofia) acaba-se com os exames; noutros (como neste ano o da matemática), simplifica-se até ao ridículo os exames. A luta dos professores por um ensino de qualidade deveria ter começado por aqui: por fazer greves em favor da qualidade, em favor da reposição de exames nacionais, em favor da realização de programas de ensino com conteúdos rigorosos e actuais, em favor da maior formação de professores que fosse muito para além da caricatura de ver um professor de filosofia a fazer formação em pintura de azulejos, etc. é com uma avaliação de qualidade dos alunos que podemos reclamar e idealizar uma avaliação de qualidade dos professores. Como não temos qualidade na avaliação dos estudantes, também não a vamos ter na dos professores. E a arbitrariedade relativista continuará a ilusão de que temos um ensino perfeito.

Rolando Almeida

publicado por rolandoa às 23:51

link do post | favorito
2 comentários:
De Carlos Pires a 3 de Fevereiro de 2009 às 15:39
Todos os anos proponho aos colegas trocar alguns testes e depois comparar as correcções, para aferir métodos. Nunca me dizem que não. Mas nunca chega a ser feito.

O excesso de trabalho e de horas na escola não ajuda, mas não creio que seja só isso. muitos colegas têm medo de partilhar, de discordar, de criticar e de ser criticados - e por isso cada macaco acaba por ficar no seu galho. Sem esquecer a responsabilidade individual, há nisso qualquer coisa de sociológico.

A mudança será difícil. Sem uma pressão exterior incontornável, que não possa ser relativizada com uma conversa cheia de "eduquês", creio mesmo que será inviável.

Exames nacionais a todas as disciplinas de estudo, no final de cada ciclo e com a obrigatoriedade do aluno ter pelo menos 9,5, parecem-me ser o melhor candidato a "pressão exterior incontornável".

Cumprimentos.
De rolandoa a 3 de Fevereiro de 2009 às 16:24
Carlos,
Essa é mais uma má herança que trazemos das universidades, que é o medo de expor o nosso saber, por muito idiota que seja. E é talvez um medo que tenha a ver com outras razões, mais sociais, que eu nem sempre estou a altura de falar com rigor. Um dos comportamentos mais espantosos que observei entre os colegas foi que todos diziam que "o manual tem erros científicos" mas nunca os vi a discutir quais os erros científicos e, nas poucas vezes em que interpelei colegas para apontar quais os erros científicos, tive como resposta o incómodo, o desagrado pela minha pergunta e quase sempre apontaram erros de interpretação pessoal e não erros científicos. Mas eu acho que isto tem a ver com um outro problema que é que as pessoas não admitem que a sua formação de base é má, talvez por uma questão de estatuto. Mas este seria o 1º passo para começarmos a trabalhar um pouco melhor e mais responsavelmente. Para terminar: quando fiz a formação em lógica com o Desidério recordo que perante uma pergunta de uma colega o Desidério disse o que pensava, que os professores não estão cientificamente preparados para avaliar manuais. Bem, a parir desse momento o Desidério passou a contar com umas observações ofendidas como: "é arrogante", "tem a mania", etc... sei que é psicologicamente desconfortante admitir que fomos mal formados, mas este é, quanto a mim, o primeiro passo para começar a estudar filosofia.
abraço

Comentar post

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS