Sábado, 24 de Janeiro de 2009

Empregabilidade em filosofia

stelarc3 O Vitor Guerreiro no blog da Crítica chamou a atenção para um interessante artigo que mostra o crescente mercado de emprego para licenciados em filosofia no mundo anglófilo. O que o artigo diz não é nada de novo. Resumidamente refere que a licenciatura em filosofia habilita os estudantes de capacidades analíticas e críticas que são muito aproveitáveis no mundo dos negócios. Ora bem, isto soa estranho no nosso país por duas razões especiais:

1) Porque existe o preconceito generalizado de que a filosofia não serve para ganhar dinheiro. Aliás, um dos clichés de muitos licenciados em filosofia é que foram para o curso por pura vocação e não para ter um emprego (cliché usado por muitos que fazem da filosofia o seu primeiro sustento). A vocação é sem dúvida importante e nem toda a gente tem vocação filosófica. Mas não há problema algum em fazer da filosofia uma fonte de rendimentos. Eu faço ao ensinar filosofia e estimo a minha profissão precisamente porque me pagam para estudar e ensinar o que mais gosto, filosofia.

2) A. Porque os cursos de filosofia em Portugal pura e simplesmente não desenvolvem qualquer capacidade crítica nos estudantes. O que desenvolvem é admiração cega pelos pavões. Por muito desagradável que possa ser, a realidade é esta. Na maior parte das disciplinas dos cursos de filosofia, o estudante limita-se a seguir a tese do mestre, sem qualquer possibilidade de a discutir.

B. as teses dos mestres dos cursos de licenciatura em filosofia em Portugal não são também, na maioria das vezes, sequer, teses que se discutam porque não obedecem a qualquer estrutura do discurso argumentativo.

Por estas razões que aqui toscamente abrevio, quando falamos de filosofia não estamos a falar do mesmo se nos referirmos a Portugal e aos Estados Unidos, por exemplo. Aliás, o artigo refere a importância do estudo da lógica formal. Ora o estudo da lógica nos cursos em Portugal aparece como uma disciplina isolada que não tem qualquer aplicabilidade nas restantes disciplinas. E não tem pois os outros mestres nem sequer sabem lógica, desprezando-a.

Finalmente uma observação: já por diversas vezes referi que não interessa se os mestres da filosofia em Portugal fazem ou não estudos singulares e bons. Sobre isso nada tenho a dizer. O que coloco em causa é que os estudantes não foram estudar filosofia para se tornarem admiradores dos mestres, logo, não tem que levar com as suas teses mais sofisticadas. Tem de ter a base e é essa base que os mestres deviam ensinar, dotando os estudantes das capacidades básicas para poderem eles também, um dia produzir as suas teses. Muitas vezes ouço profissionais da filosofia queixarem-se que o mundo de hoje não está preparado para compreender a filosofia. Não alinho neste discurso e ele é até falso, já que nunca como nos nossos dias existiram tantos cursos de filosofia e tantos filósofos, de resto, exactamente o mesmo que se passa com a ciência. Agora é possível que a imagem pública da filosofia em Portugal ande bastante por baixo. Mas isso não se deve a que as pessoas não liguem à filosofia. É que a filosofia que se pratica nos nossos cursos não desperta qualquer interesse para a maioria das pessoas e assim não é de estranhar que os cursos fechem e que a filosofia do 12º ano tenha tido uma morte sem ninguém se dar conta, nem mesmo os mestres da universidade, que desprezaram tanto o secundário, mas que sempre viveram na sombra dele. A seu tempo regressarei a estes temas.

A imagem é do performer Stelarc

publicado por rolandoa às 15:04

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10 comentários:
De Carlos João da Cunha Silva a 25 de Janeiro de 2009 às 15:50
Caro Rolando,

"Porque existe o preconceito generalizado de que a filosofia não serve para ganhar dinheiro"

Diria que, a ser um preconceito, tem origem assinalada nos alvores da filosofia. Já Tales, um dos sete sábios da Grécia antiga, prevendo em certa ocasião um bom ano agrícola, comprou lagares de azeite conseguindo, deste modo, uma boa colheita. O que tentou provar é que se o filósofo quiser também consegue "fazer" dinheiro, pese embora não ser essa a sua essência.
Na mesma linha de pensamento Platão insurgiu-se contra os sofistas considerando-os "mercadores de palavras". Aliás, filósofo é o amante desinteressado do saber e com os sofistas, pela primeira vez, este ponto de vista altera-se.
Claro que nem só de filosofia vive o homem mas não será desvirtuá-la naquilo que ela tem de mais "puro" ao pretender fazer dela um "ofício", uma "técnica", deixando-se seduzir pelo espírito tecnicista e pragmático que só considera verdadeiro aquilo que na prática se revela útil, tão característico das nossas sociedades? Isso não será fazer do filósofo um prostituto? Afinal, que utilidade tem a arte? E a literatura? E a religião? Não será a filosofia essencialmente um acto de liberdade, de autonomia, de racionalidade?
A este propósito:
http://agora-m.blogs.sapo.pt/13907.html
Carlos JC Silva
De rolandoa a 25 de Janeiro de 2009 às 17:49
“Caro Rolando, "Porque existe o preconceito generalizado de que a filosofia não serve para ganhar dinheiro" Diria que, a ser um preconceito, tem origem assinalada nos alvores da filosofia. Já Tales, um dos sete sábios da Grécia antiga, prevendo em certa ocasião um bom ano agrícola, comprou lagares de azeite conseguindo, deste modo, uma boa colheita. O que tentou provar é que se o filósofo quiser também consegue "fazer" dinheiro, pese embora não ser essa a sua essência.”
Ora pois, mas essa não é a essência de qualquer saber ou ciência. O que eu quero dizer é que se pode ganhar dinheiro fazendo filosofia, mas não fazer filosofia para ganhar dinheiro, apesar que a segunda ideia também não me aborrece absolutamente nada. Creio até que muitos filósofos gostariam de ser ricos para poderem dedicar todo o tempo ao estudo. Aliás Carlos nós não podemos esquecer que grande parte da história da filosofia se faz com gente rica que pode estudar, ir para as universidades, etc. em tempos em que 99% da população mundial estava afastada desse acesso. Hoje em dia felizmente há mais gente rica e a diferença é essa, há mais gente a filosofar.
Vou espiar o blog
abraço
De Carlos Silva a 25 de Janeiro de 2009 às 22:51
Rolando,

Não excluo, no entanto, certos domínios mais "aplicados" da filosofia, como o aconselhamento filosófico, a filosofia para crianças, etc.

Carlos
De Tiago Cortinhal a 6 de Fevereiro de 2009 às 21:07
Gostei muito do post e concordo plenamente.
Penso que não será, como dizes, uma não-preparação da sociedade, mas sim um problema intrínseco português.

Eu pretendo seguir filosofia e já me aconselharam a tentar estudar fora para ter boas bases e desenvolver as minhas capacidades, pois o ensino universitário português, é muito fraco mesmo.

Espero ter capacidades para contornar este fosso entre o ensino português e estrangeiro, e ir bem preparado para fora, porque a meu ver a filosofia é muito, mas muito, importante/interessante.

Abraço e boa sorte com o blog
De rolandoa a 6 de Fevereiro de 2009 às 21:25
Olá Tiago,
Os cursos de filosofia no mundo anglo saxão são completamente diferentes dos cursos dados na europa continental e em outros países da america latina. Para se estudar filosofia o melhor é mesmo rumar a inglaterra, australia, entre alguns outros países. O mais interessante é que em países como Portugal defende-se que a filosofia desenvolve capacidades críticas, mas a verdade é que se tira o curso sem desenvolver essas capacidades. A vantagem da filosofia analítica que se pratica na inglaterra, por exemplo, é que desenvolve mesmo essas capacidades críticas. Mas a falta de qualidade nos cursos superiores em Portugal não é problema exclusivo da filosofia. Estudar fora fica caro mas pode ser muito compensador. Eu nunca tive essa hipótese e além do curso de filosofia na Universidade Nova de Lisboa, dedico-me ao seu estudo sózinho e com alguns amigos na net que se sentem como eu.
abraço e volta sempre
De Tiago Cortinhal a 6 de Fevereiro de 2009 às 22:02
Eu também não sei se terei essa capacidade, porque como se costuma dizer "o dinheiro não nasce nas árvores", mas se conseguir rumar para fora será uma boa oportunidade.

E uma pergunta se não for demais, eu ainda estou no secundário, e já ouvi boas críticas da Nova e da Clássica, mas ninguém me sabe dizer qual será a melhor no âmbito do curso de filosofia, porque só penso ir para fora, excluindo o Erasmus, no mestrado.

Mais uma vez boa continuação de blog .
De rolandoa a 6 de Fevereiro de 2009 às 22:08
Tiago,
Muito sinceramente acho que neste momento mais vale ir para a Clássica. Em relação à Nova a Clássica tem professores como João Branquinho ou Carmo D`Orey que seguem a tradição anglo saxonica e são sempre boas opções futuras se quiseres seguir investigação.
Coloca as perguntas que quiseres sem problema
Abraço e felicidades
De pedro a 26 de Fevereiro de 2009 às 14:29
Seguir uma licenciatura em filosofia é um erro. Sou licenciado e sei do que falo. Acabado o curso atiram-nos para um abandono completo, independentemente das nossas capacidades e espírito.
Arranjei emprego numa área para a qual requisito de habilitações está ao nível do 9º ano. Isso diz tudo. ninguém quer um licenciado em filosofia para nada... Nosso espirito critico é demasiado incomodo...
De rolandoa a 26 de Fevereiro de 2009 às 14:47
Caro Pedro,
O que dizes é inteiramente verdade. Mas o que dizes em relação à filosofia é extensível a muitas outras áreas. Uma coisa é pensarmos no modo como os departamentos de filosofia aproveitam os recursos do mercado e outra coisa diferente é a forma como o mercado está ou não receptivo às formações académicas.
Seja como for é angustiante tirar uma formação e sentir que a realidade não nos recebe com a formação que tiramos.
abraço e felicidades
De João Márcio a 18 de Maio de 2009 às 21:33
Estudo filosofia no Brasil , mais especificamente na Fedeal do Ceará, estou no último ano e NÃO AGÜENTO MAIS ESSE CURSO!
Não sei porquê... Eu me perdi aqui. É isso. Entrei querendo me escontrar e tudo o que consegui foi me perder. Não me interessa ser professor, então me pergunto: O QUE ESTOU FAZENDO NA LICENCIATURA SE NÃO QUERO SER PROFESSOR? O que eu vou fazer agora? Já tenho mais de trinta e não tenho nenhuma profisssão, nem dinheiro, nem perspectivas. Infelizmente estou condenado a ser livre. Só não sei o que fazer com essa liberdade.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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