Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Pedagogia em discussão precisa-se!

O recente post do Rerum Natura que apresenta um excerto de uma entrevista para o DN de Nuno Crato, matemático e divulgador de ciência, espoletou uma pequena discussão que merece maior amplitude. Em termos brutos a tese de Crato é que o ensino baseado no romantismo construtivista trouxe péssimos resultados tratando-se também de um modelo que coincide com o pensamento único em matéria de educação. Este modelo, grosso modo, defende a autonomia de cada um na construção o seu próprio conhecimento. A realidade, com efeito, mostra-nos o contrário. O sistema educativo português está, segundo Crato e outros autores, fortemente afectado por este modelo e os resultados são estudantes que possuem cada vez mais habilitações, mas cada vez menos conhecimento, resultando numa deficiência cognitiva que nos tem deixado em posições nos rankings bastante abaixo do que é desejável por todos.


São estudantes incapazes de realizar as mais simples e intuitivas operações de cálculo, interpretação, pensamento crítico, etc… enfim, são pessoas incapazes de pensar. Ora, como parece ser obviamente claro, isto acarreta consequências sociais bastante graves já que temos cada vez mais gente com habilitações, mas disfuncionais para as mais diversas operações. A análise de Crato é chocante precisamente porque em matéria de educação nunca existiu debate e as ideias de Crato acabam por soar excêntricas e, por via disso, motivo de muito reaccionarismo como é normal quando enfrentamos ideias novas (era bom que não fosse assim tanto em determinados casos). Há realmente muito a discutir em matéria educativa, razão pela qual é de estranhar o quase deserto de debate. Os recentes episódios da guerra entre professores e ministério nada tem a ver com a qualidade e discussão em educação. Ambos os lados guerreiam por questões profissionais, apesar que a dita “qualidade educativa” tenha sido o maior bode expiatório, quer de professores, quer de ministério. De um lado, o que o ministério pretende é estatística e encaixe financeiro (o que é revelador do desprezo que governantes tem tido em matéria educativa, já que pensar todo um sistema com estes critérios denuncia vistas curtas e um quadro político deficiente para o que é possível já fazer). Do outro lado, os professores, procuram não perder o estatuto profissional que mantêm desde algumas décadas. Mas, ao contrário do que ambas as partes envolvidas defendem, não está prima facie a qualidade da educação em causa nesta recente guerra.

Quando queremos discutir educação e pedagogia temos de enfrentar outras questões e outros problemas que não os profissionais. E devemos ser sempre muito humildes uma vez tratando-se de uma matéria tão sensível que não se resolve com golpes de génio, tomadas de decisão administrativas e políticas, etc. A educação vai-se fazendo, descobrindo, como qualquer outro saber, conhecimento ou ciência. Vão-se testando hipóteses, colocando à prova outros modelos e retirar de cada um o que é aproveitável. E é neste caminho de aperfeiçoamento que as novas ideias e insights devem ser levados à discussão, o mais ampla possível e o mais pública possível. Se pensarmos na tal guerra actual de professores e ministério, como é que é possível progredir em educação num ambiente de insulto e guerra pura na qual o interesse de cada parte é anular os efeitos da parte adversária? Não passa pela cabeça de ninguém que os cientistas de repente se ponham a discutir ciência com o ministério da ciência. O que podem discutir são condições de trabalho que podem ser mais motivadoras para se ser cientista. Como então conceber que os professores queiram discutir educação com o ministério da educação? Para isso teriam de discutir filosofia e o seu ensino, matemática e o seu ensino, física e o seu ensino, etc. Quem deve discutir a educação são, em primeiro lugar, os profissionais da educação, gente preparada (bem ou menos bem é o que temos para trabalhar) para discutir os modelos, estudá-los e executá-los.

Vamos pensar num pequeno tópico que quanto a mim tem degradado grande parte da qualidade da educação: as competências e conteúdos. Como tive oportunidade de mostrar a um dos comentadores no Rerum Natura, é uma utopia pensar que um estudante possa desenvolver competências sem estudar e conhecer conteúdos. E é isso que se tem passado no sistema educativo português, razão talvez que explique que numa sala de professores cada vez seja mais raro encontrar colegas a discutir os conteúdos de ensino e 90% das conversas recaiam sobre as competências nos programas de ensino e comportamentos dos estudantes. Por que é que isto acontece? Querer ensinar competências sem conteúdos só pode cair no lugar comum que é a catequese. Talvez esteja no momento da minha explicação se servir de pequenos exemplos. Na minha disciplina, a filosofia, o objectivo principal não é o de formar filósofos. Seria se fosse uma disciplina de opção. A filosofia é de formação geral e de carácter obrigatório para os cursos de formação geral no ensino secundário (exceptuando o ensino profissional no qual a filosofia não aparece no currículo e em substituição aparece uma coisa com um programa vago de nome Área de Integração). Isto não implica que um estudante não se possa interessar especificamente por estudar filosofia, mas o objectivo principal da disciplina é dotar os estudantes das ferramentas que lhes permita um pensar crítico e autónomo. Esta é a competência a desenvolver no estudante, que ele possa pensar pela sua própria cabeça. Claro que o estudante para desenvolver esta competência arrasta outras competências, muitas delas, comportamentais, tais como: saber ouvir os argumentos do outro, não ridicularizar as teses contrárias, etc. A pergunta que aqui faço é: como desenvolver estas competências sem trabalhar directamente conteúdos filosóficos? Só por imposição ao estilo da catequese. Isto é, impõe-se ao estudante uma série de regras que ele mais ou menos aceita acriticamente. Os que querem tirar cursos até aceitam essas regras para obterem bons resultados. Mas os outros estão-se nas tintas para esse discurso catequista da escola, já que topam que isto é amestramento sem liberdade.

De outro modo defendo também que é impossível ensinar conteúdos sem visar competências. Não podemos é colocar o carro à frente dos bois e esperar que os bois puxem o carro. E é esta a falta de lógica inerente ao romantismo construtivista. O exemplo que usei na caixa de comentários do Rerum Natura parece ilustrar com alguma precisão a utopia em que incorrem as teses construtivistas. Na disciplina de português uma das competências a desenvolver nos estudantes é a sua capacidade de interpretação. Em termos práticos isto pode servir para ler o Cú de Judas na sanita ou para preencher um qualquer questionário ou formulário administrativo, compreender o manual de instruções do plasma novo ou compreender um sistema operativo novo para o computador. Isto é o que se pretende para o futuro do estudante. De resto só a ele cabe, em liberdade, optar sobre o que fazer com o conhecimento adquirido. Ora, um comentador no Rerum espantou-se na defesa do Nuno Crato de que estas competências se desenvolvem proporcionando ao estudante um estudo adequado das obras literárias de referência. Para muita gente isto soa estranho uma vez que estabelecem a seguinte relação: então agora tenho de ler Eça de Queiroz para apertar uma lâmpada ou ser cabeleireiro? Naturalmente que para cortar cabelo ou apertar lâmpadas não precisamos provavelmente de ler os Maias. Acontece que a vida hoje em dia é muito mais que cortar cabelo e apertar lâmpadas e tanto o cabeleireiro como o electricista vão ter de saber muito mais do que o que fazem no imediato. A hipótese alternativa que lhes pode caber na ausência de conhecimento é a pura sorte. Acontece que nenhuma pessoa lúcida gosta de viver à sorte. Ainda que os resultados na nossa vida possam não ser os desejáveis, mesmo em posse de conhecimento, creio ser uma crença verdadeira justificada a tese de que ainda assim mais vale confiar no conhecimento do que lotaria arbitrária da vida. Talvez também seja por isto que muitas pessoas hipotecam facilmente as suas vidas a um deus, sem pensar muito no assunto. Afinal, para estarmos vivos durante muito tempo nem precisamos de ler os Maias, nem de ser cabeleireiros nem apertar lâmpadas. Só precisamos mesmo de pão, laranjas e água. Creio que o Nuno Crato explica muito melhor estes aspectos que eu, pelo que vale mesmo a pena ler a entrevista que linkei no post anterior. Da minha parte espero ter dado um pequenino contributo para algum debate em educação.

Rolando Almeida

 

Agradeço aos leitores atentos Graça e Jacinto Leite que me alertaram para o significado da palavra "espoletar" que eu tomava como errada.

 


 

 

publicado por rolandoa às 15:27

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6 comentários:
De Graça a 19 de Janeiro de 2009 às 19:13
Os vocábulos espoletar e despoletar transitaram da linguagem militar para a comum.

Espoletar significa “pôr espoleta em”, isto é, “armar”.
Metaforicamente espoletar adquiriu o sentido de “desencadear, motivar, provocar, etc.”.

Ex.: A notícia do encerramento da fábrica espoletou pânico nos trabalhadores.

Despoletar é formado pelo verbo espoletar e pelo prefixo des-, que indica ideia contrária, pelo que significa “desarmar, terminar, pôr fim a”.

Ex.: Alguns falantes da língua portuguesa decidiram despoletar - pôr fim a - o emprego desta palavra quando quiserem dizer desencadear.

Logo, aqui seria espoletar pois tem a ver com o desencadear uma acção ...........
De rolandoa a 19 de Janeiro de 2009 às 20:21
Olá Graça,
Exacto. Despoletar é tirar a espoleta. Onde é que a palavra está mal empregue? Julgo não ter compreendido.
Agradeço o comentário
De jacintoleite a 20 de Janeiro de 2009 às 10:25
"despoletou uma pequena discussão" significa que parou ou interrompeu a discussão, ou seja, exactamente o contrário daquilo que pretendia afirmar, o correcto seria "espoletou uma pequena discussão"
De rolandoa a 20 de Janeiro de 2009 às 10:45
Espoletar é por a espoleta e despoletar é tirar a espoleta. Uma coisa é por a rolha na garrafa, outra é tirá-la. Ora, o que o Nuno Crato fez foi tirar a espoleta à discussão, tirar a rolha, logo o liquido sai da garrafa.
Por acaso ainda bem que os leitores me alertaram para a palavra já que tenho percebido que está envolta em alguma polémica. Para já não me faz sentido as sugestões dadas, mas não sou linguísta e posso estar a ter alguma dificuldade extra.
Assim que tiver novidades digo.
abraço
De rolandoa a 20 de Janeiro de 2009 às 10:53
Graça e Jacinto,
Têm razão e tenho de vos fazer um agradecimento. E já topei a minha estupidez: é que eu pensava que o que espoletava era a cavilha da granada e não é. Confesso que até hoje nem me tinha apercebido que a palavra era sequer polémica.
Agradeço a ambos o esclarecimento.
De Carlos João da Cunha Silva a 21 de Janeiro de 2009 às 11:17
despoletar
verbo transitivo1. [sentido original] tirar a espoleta a; tornar impossível o disparo ou a explosão de
2. figurado anular algo; travar o desencadeamento de
3. figurado [uso generalizado] fazer surgir repentinamente; desencadear uma acção

(De des-+espoletar)

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Rolando Almeida


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