Sexta-feira, 17 de Novembro de 2006

16 de NOVEMBRO DE 2006, DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA

As novas práticas filosóficas
 
 
     Nos dias 15 e 16 de Novembro de 2006 (o Dia da Filosofia é móvel e celebra-se na 3ª quinta-feira de Novembro) realiza-se em Paris, sob os auspícios da UNESCO, um colóquio intitulado “A filosofia como prática educativa e cultural: uma nova cidadania”, organizado pela comissão francesa de “Novas Práticas Filosóficas”.
 
      Na divulgação deste colóquio afirma-se, nomeadamente, que “a filosofia não é uma actividade supérflua ou reservada a uma elite, sendo pelo contrário essencial à vida. A emergência de numerosas práticas nos últimos anos, tais como a filosofia para crianças, os cafés filosóficos, os ateliers de filosofia em bibliotecas ou livrarias, o aconselhamento filosófico, os sucessos editoriais filosóficos para o grande público, são algumas das provas da vivacidade renovada desta disciplina.       
     Alguns países, como a Bélgica, a Austrália, a Noruega e o Brasil tomaram já decisões no que se refere à iniciação à filosofia desde a escola primária.”
 
     Com efeito, desde há mais de três décadas que surgiram numerosas tentativas de trazer a filosofia ao grande público, encarando-a não como uma mera transmissão de conhecimentos e de ideias de autores, mas como uma prática de desenvolvimento do pensamento e da capacidade de julgar.  
     Nesta perspectiva, a filosofia é vista como uma actividade com uma dimensão educativa transversal, como um espaço de discussão e de elaboração de um pensamento autónomo, crítico e criativo.
     Uma tal abordagem visa atingir evidentemente um público muito alargado, não se limitando ao sector restrito a quem a filosofia tradicionalmente se destinava.
 
     Um dos pioneiros deste movimento inovador foi sem dúvida Matthew Lipman, um filósofo americano contemporâneo, que em 1969 iniciou o seu trabalho com crianças, tendo criado um programa, hoje conhecido em todo o mundo – Filosofia para Crianças, que inclui histórias para todas as idades.
     Estas histórias filosóficas (acompanhadas dos respectivos manuais para os professores) destinam-se ao debate de questões filosóficas na sala de aula a partir de histórias do quotidiano, em que estão contidos os grandes temas da filosofia e as posições dos diversos autores, sem que os mesmos sejam mencionados.
     O objectivo destas histórias é pôr as crianças a pensar de uma forma autónoma, mas não individual. Bem pelo contrário, as aulas de filosofia para crianças são um exemplo de diálogo partilhado, ou seja, de uma reflexão feita em grupo, a que Lipman chamou a “comunidade de investigação” ou de questionamento.
     Este método, que se espalhou em todo o mundo, pode ser utilizado com grupos de pessoas de todas as idades.
     A Filosofia para Crianças foi trazida para Portugal no final dos anos 80 pela Sociedade Portuguesa de Filosofia e continua a ser divulgada por intermédio dos três centros de filosofia para crianças actualmente existentes, através de acções e cursos de formação para professores de todos os níveis de ensino e do trabalho directo com grupos.
     Hoje em dia existem outros métodos de praticar a filosofia com crianças além do de Matthew Lipman, embora os objectivos sejam basicamente os mesmos.
 
     Entretanto outros autores têm vindo a desenvolver a vertente prática e aplicada da filosofia.
      Na década de 80 surge na Alemanha, com Gerd Achenbach, o chamado Aconselhamento Filosófico, que considera o diálogo o seu instrumento fundamental e que atingiu a sua maior expansão a nível mundial na década de 90.
     Em Portugal, o Aconselhamento Filosófico, embora já existente, institucionalizou-se com a criação em 2005 da APAEF (Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico).
      Para quem tem dúvidas acerca desta prática, é importante esclarecer que o aconselhamento filosófico não é uma técnica terapêutica, mas um processo complementar, uma tentativa de ajudar “pessoas normais a resolver problemas normais”, ou seja, é uma forma de criar um espaço livre onde as pessoas usam a filosofia para desenvolver os seus próprios pensamentos em temas do seu interesse, ou seja, uma “terapia para saudáveis”. 
 
     Ainda na década de 90 popularizam-se em França os Cafés Filosóficos e alarga-se a prática filosófica, ligada quer à Filosofia para Crianças quer ao Aconselhamento Filosófico, a nível individual e a nível de grupo.
 
     Também em meados dos anos 90, a obra “O mundo de Sofia”, do norueguês Jostein Gaarder, contribuíu grandemente para divulgar a história da filosofia ocidental, tornando-a acessível a um público muito diferenciado.
     Seguem-se entretanto numerosas obras de divulgação com o objectivo de trazer a filosofia para o nível do quotidiano, tornando-a um instrumento útil para a compreensão da realidade. 
 
     Mas foi Louis Marinoff, que ao escrever em 1999 “Mais Platão, menos Prozac” (que se tornou rapidamente num best-seller em todo o mundo), traz a filosofia definitivamente para o domínio do grande público.
     Este filósofo americano, que recentemente esteve em Portugal e cujas ideias têm sido objecto quer de admiração quer de polémica, é neste momento uma referência incontornável no domínio da filosofia aplicada.
     Como ele a certa altura da sua obra nos diz, há pessoas que apenas precisam “de diálogo, não de diagnósticos (...) A verdade é que a filosofia está ao alcance da maioria das pessoas. A pesquisa filosófica nem sequer exige um filósofo diplomado ou com habilitação cerificada, só exige que as questões sejam abordadas em termos filosóficos”.
     A sua obra mais recente – “As grandes questões da vida – como a filosofia pode mudar o nosso dia a dia” é uma obra indispensável para quem quiser encontrar alternativas para a resolução dos problemas mais comuns.
     Assim a filosofia possa contribuir para o melhoramento da nossa vida, porque infelizmente, como nos diz Matthew Lipman “a filosofia chega a poucas pessoas e mesmo a essas tarde demais”.
 
 
                                                                            Mª Luísa  Abreu
 (Coordenadora do grupo de Filosofia da ESPAV) 
publicado por rolandoa às 21:12

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