Terça-feira, 13 de Junho de 2006

Filosofia, investigação e ensino

«"Para aqueles cujos papéis envolviam primariamente a execução de serviços, por oposição com a assunção de responsabilidades de liderança, o padrão básico parece ter sido uma resposta às obrigações invocadas pela liderança que eram concomitantes ao estatuto de membro na comunidade societal e em várias das suas unidades segmentadas. A analogia moderna mais próxima é o serviço militar executado por um cidadão comum, excepto que o líder da burocracia egípcia não precisava de uma emergência especial para evocar obrigações legítimas."

Esta complicada passagem nada mais quer dizer do que isto: "No antigo Egipto, as pessoas comuns podiam ser recrutadas para trabalhar". Este amor pela linguagem pantanosa é o sinal mais evidente da falta de amor pela verdade, da falta de curiosidade intelectual, do desprezo pelo rigor e pela simplicidade — e são estes defeitos que acabam por conduzir ao formalismo. Quando a investigação produzida é deste calibre, o ensino será do mesmo género, gerando-se um círculo vicioso muito difícil de quebrar. A linguagem pantanosa, falsamente académica, plena de neologismos inúteis, prolixa e com uma sintaxe arrevesada, além de prostituir a actividade intelectual, é incompatível com o ensino e a investigação de qualidade. Evidentemente, em nenhuma área de estudos é possível atingir o desejado grau de sofisticação e subtileza sem a introdução de uma linguagem especializada. Mas o formalismo caracteriza-se, precisamente, por pôr o mundo de pernas para o ar: em vez de a linguagem especializada estar ao serviço da precisão e sofisticação das ideias, são as ideias que estão ao serviço da exibição de uma linguagem carnavalesca. Haverá certamente razões psicológicas e sociológicas para este fenómeno; os seres humanos têm infelizmente uma origem simiesca, e os seus instintos mais básicos incluem a importância desmedida dada à hierarquia social e à ideia de superioridade. Assim, prostitui-se a actividade intelectual, que se torna apenas mais um adereço para exibir imaginadas superioridades hierárquicas, exactamente como um carro de luxo ou um anel de diamantes. É preciso resistir a este impulso, e a melhor maneira de o fazer é cultivar nas universidades o genuíno amor pela procura desinteressada da verdade, a humildade e o respeito pelas provas e pela argumentação cuidada.

Um dos papéis do professor é simplificar e apresentar aos estudantes os aspectos centrais da sua disciplina de estudos — seja ela a biologia ou a filosofia. Fazê-lo bem é crucial para o progresso da investigação. No mau ensino, não se faz uma distinção correcta entre o central e o acessório; o resultado é demorar o estudante tanto tempo a dominar o central, que quando finalmente domina suficientemente a sua área de estudos, está demasiado velho e cansado para poder investigar e descobrir. Alguém que se disponha a estudar lógica recorrendo exclusivamente aos textos de Aristóteles, Frege e Russell, por exemplo, irá demorar tanto tempo na compreensão de aspectos hoje banais da lógica, que não poderá avançar para o estudo dos desenvolvimentos recentes desta disciplina. Assim se compreende melhor o papel absolutamente central que tem um ensino de qualidade. Aristóteles provavelmente demorou anos a desenvolver a sua lógica, a compreender os conceitos relevantes e a sistematizar a sua teoria. Sabemos que Frege e Russell demoraram anos nessa tarefa. Mas hoje qualquer professor competente ensina em apenas seis meses o cálculo proposicional e de predicados, incluindo a lógica aristotélica, a estudantes de dezoito anos. E se esse ensino for realmente de qualidade, o estudante ficará preparado para, caso venha a ser investigador na área da lógica, não ter nem lacunas gritantes nem uma compreensão errada dos aspectos centrais da lógica elementar. Quando não temos bom ensino, cada investigador está na situação pouco invejável de não poder basear o seu trabalho no trabalho dos seus antecessores, porque o desconhece, ou porque o conhece mal, ou, pior, porque tem uma compreensão totalmente errada do trabalho dos seus antecessores.»

Desidério Murcho, Filosofia, investigação e ensino na universidade,

Excerto da Conferência proferida no I Congresso Internacional sobre Filosofia na Universidade (Universidade de Londrina, Brasil, 12 de Maio de 2006). Texto publicado no volume Filosofia na Universidade, org. por Adriana Mattar Maamari, António Tadeu Campos de Bairros e José Fernandes Weber (Ijuí, RS: Unijuí, 2006).

publicado por rolandoa às 10:28

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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