Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Discutir ideias

200069956-001 Frequentemente assistimos a discussões de problemas de natureza filosófica nas quais se acusa um sujeito de defender a posição X em detrimento da posição Y, como se a posição Y fosse a mais correcta e fosse manifestamente blasfemo defender uma ideia contrária à nossa. Isso acontece porque se tem, no caso explicitado, a atitude contrária aquela que é desejada em filosofia. Não se está aqui a sugerir que, afinal, em filosofia, todas as teorias são verdadeiras, mas antes que elas são discutíveis.

Rolando Almeida


Claro que há critérios mínimos para se discutir filosofia. Entre esses critérios, o mais básico consiste em saber distinguir um problema filosófico de um problema não filosófico. Sem saber esta distinção, não é possível sabermos quando estamos perante uma discussão filosófica, ou uma outra discussão qualquer. Claro que nós, mesmo na filosofia ou principalmente na filosofia, não sabemos qual a posição ou tese a defender que é mais correcta, mas, precisamente por não sabermos é que sujeitamos as premissas que sustentam a nossa tese à discussão. Em Portugal, são muitas as vezes que assistimos a uma discussão que é absolutamente patética, entre aquilo que é filosofia analítica e a chamada filosofia continental. Esta discussão não faz qualquer sentido, uma vez que o saber se faz por acumulação, crítica e objecção. Eu não posso objectar a tese X se ela nem sequer existir, pelo que me parece vital, em filosofia, a existência da tese X, ainda que, no todo, a tese X não passe de um disparate. Apesar da filosofia não possibilitar os resultados da ciência, com isso, não é de todo verdade que em filosofia não existam progressos e não existe qualquer razão plausível para negarmos os progressos em filosofia. Se hoje em dia temos melhores instrumentos para argumentar filosoficamente tal deve-se ao esforço inicial de filósofos como, o principal, Aristóteles, que começou por mostrar que sabia pensar. Mas hoje em dia qualquer criança aprende o que Aristóteles escreveu sobre lógica. O maravilhoso é, ao ler Aristóteles, percebermos que ele sabia pensar. E não é qualquer um que sabe pensar pela sua própria cabeça e de modo consequente. Mas hoje também sabemos que Aristóteles cometeu erros. Sem a lógica de Aristóteles, sem os avanços posteriores dos pensadores medievais, a lógica provavelmente não seria aquilo que ela é hoje. Mas a lógica progrediu imenso sobretudo no sec XX e se a lógica, desde Aristóteles, afectou a filosofia de modo decisivo, quais as razões que temos para pensar que os desenvolvimentos da lógica no sec XX não podem afectar a filosofia, chame-se ela analítica ou outra coisa qualquer? Não aceitamos a chamada filosofia analítica por puro preconceito e porque a nossa formação nos formatou mais do que aquilo que possamos pensar. Por outro lado é um disparate partir do princípio que as questões filosóficas têm de ser colocadas com uma linguagem rebuscada ou profunda, em grego ou alemão ou chinês. As questões da filosofia têm de ser colocadas, ponto final. Tal como as questões científicas têm de ser colocadas, ponto final. Admiramos Newton e pouco sabemos dele, pelo menos os que, como eu, não sabem muito de física, mas admitimos que o homem teve uma forte intuição ao dormir a sesta debaixo de uma macieira e ter levado com uma maçã na cabeça, mas já não admitimos ao filósofo que coloque as suas questões com uma linguagem clara, senão como a tecnicista de Kant ou, pior ainda, a obscura linguagem de Heidegger. Ao filósofo é imediatamente exigido que pense algo que ninguém compreenda. E só isso é que é filosofia pura e dura. A Filosofia. O resto é lixo. E é triste que, com esta atitude anti filosófica de não sermos capazes de questionar a nossa própria formatação filosófica, vejamos escapar-nos toda a filosofia do século XX, que é também aquela que mais produziu tanto em qualidade como em quantidade e que leva o epíteto de analítica. Deveria ser igual se a filosofia é analítica ou não analítica, insular ou continental, em grego ou alemão, se ela for capaz de contribuir de modo decisivo para a discussão racional dos argumentos. Enquanto andamos com estas guerras, a filosofia avança em países de expressão de língua inglesa, sem estas falsas questões que em nada a beneficiam. Por vezes dá a ideia que, antes de estarmos na filosofia, temos de ser X ou Y e somente depois é que estamos na filosofia. Mas isso é idiotia. Na filosofia temos de discutir e a discussão não só é possível como desejável. Uma das formas de evitar a discussão é denegrir este ou aquele filósofo, esta ou aquela filosofia. Mas isso é batota. Outra das batotas é apresentarmos uma suposta ideia ou tese filosófica com palavras caras para que pensem que estamos a ter uma grande ideia. Infelizmente a academia portuguesa está imbuída neste espírito da fábula e do mito.

O que existe contra a linguagem hermética?

Por princípio nada. Em filosofia o que se pretende é fazer filosofia. É natural que , para comunicarmos os nossos argumentos, mesmo em filosofia, procuremos fazê-lo de modo claro. Não existe, por princípio, nenhuma vantagem em não fazê-lo desse modo. Claro que cada filósofo tem o seu estilo próprio. Uns são mais herméticos, outros menos. Pessoalmente creio que Kant teria tido muitas mais vantagens se não tivesse abusado de uma linguagem demasiado técnica. Parte da sua filosofia poderia ter sido expressa numa linguagem mais clara. Ainda assim, é inegável que Kant é dos autores de filosofia mais lidos desde sempre. Este aspecto pode ser ilustrado de modo simples. Vamos supor que eu quero defender que o livre arbítrio não é possível, porque o universo está determinado. Posso defendê-lo de várias formas:

1 – o livre arbítrio não é possível uma vez que o universo já está determinado.

2- não somos livres

3 – o ser aprisiona-se pelas peias da ordem divina.

4 – estátuas imóveis no tempo.

Se tivermos em mente o problema enunciado anteriormente, a diferença entre estas 4 afirmações é literária e mais nenhuma. Nesse caso, se eu o posso dizer de modo claro, porque o tenho de fazer por metáforas? É óbvio que esta é uma opção do filósofo que terá a ver com a sua própria formação. Mas também é por essa razão que há filósofos que se revelam, com o tempo, verdadeiramente ilegíveis, dada a subjectividade aparente das suas metáforas. É também por esta razão que a filosofia não tem qualquer obrigação de ser escrita de um ou outro modo, apesar de ser desejável a clareza e objectividade para que o pensamento consequente que é exigível ao filósofo se compreenda o melhor possível.

Muita da discussão em torno da filosofia continental ou analítica não faz qualquer sentido e nem sequer se trata de uma discussão de ideias, mas antes de uma discussão entre pessoas, sobre pessoas e os seus percursos académicos que não são capazes de colocar em causa. Muitos dos filósofos chamados analíticos foram formados nas universidades alemãs e francesas e emigraram, por força do nazismo para países onde a guerra praticamente não chegou. É natural que essa massa intelectual tivesse continuado a trabalhar e evoluísse para aquilo que a filosofia é actualmente. E também me parece algo sensato compreender que as ideias chegam a Portugal uns anos mais tarde. Importamos pouca discussão e temos uma tendência cultural a pensar que as coisas só podem existir e acontecer a partir de um ângulo, de uma visão. A realidade de outras culturas, principalmente dos grandes centros universitários do mundo, onde o conhecimento produz massa pensante em qualidade e abundância é completamente diferente. Aí sim o conhecimento é visto como o principal ponto de riqueza, de produção, de produtividade. E aí sim, ao contrário do que pensou Thomas Kuhn, o conhecimento não se dá por rupturas de paradigmas, mas por acumulação com capacidade integradora. É também por essa razão que os filósofos clássicos são muito discutidos e é também por essa razão que os filósofos em vez de insultarem Thomas Kuhn, mesmo pensando que ele estava errado, discutiram-no e ainda discutem. Esta diferença é fundamental: em filosofia não se atacam pessoas, atacam-se ideias. Com coragem intelectual. Os filósofos atiram-se a ideias, a discuti-las, sem ter de ter medo de perder o emprego ou ser acusado de vendedor de livros ou de carros ou de que o valha… mas para discutir teorias ou ideias filosóficas é necessário entrar na discussão com o mínimo de preparação possível, em vez de mandar palpites e frases soltas como que a dar um ar de inteligente e visionário.

publicado por rolandoa às 10:42

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4 comentários:
De Vitor Guerreiro a 3 de Novembro de 2008 às 11:18
nao creio que Kuhn afirme que "o conhecimento se dá" por rupturas de paradigmas. O que ele afirmou (e que é discutível como o caraças, porque a própria ideia de paradigma é duvidosa) é que a ciencia progride assim. Mas não creio que ele pensasse que o conhecimento só nasce da oposição mortal entre um paradigma moribundo e outro nascente. Aliás, parece-me que uma motivação tácita desta imagem é tentar preservar algo acerca do "paradigma moribundo", quer dizer, parece-me que ele estava interessado (talvez por causa da sua área - história da ciencia) em não descartar como lixo mesmo aquelas coisas que normalmente nao estudamos quando estudamos autores do passado ( p ex. lemos o cogito cartesiano mas ninguem perde tempo a ler o que ele pensava sobre corpos celestes... etc).

Dito isto, não estou a defender Kuhn nem a sua teoria da história cientifica. Eu acho que o Kuhn descreveu bem um aspecto da prática cientifica, aspecto que o Popper negligenciou, com a sua pressa de refutar a psicanálise e o marxismo, que é o papel do conservadorismo. O problema é que com o raio do paradigma ele deu a esse lado da prática cientifica um estatuto e um peso desproporcionados. Transformou algo de acidental em algo de substancial, quero dizer.
De carlos marques a 5 de Novembro de 2008 às 16:19
Caro Rolando
Como sou vítima muito frequente da suspeita de que, por preconceito, desprezo tudo o que não é 'filosofia analítica', tomo como bem-vindas as suas palavras.
No essencial, sou é a favor de uma lufada de ar fresco que contrarie o senso comum de que a filosofia não passa de um arrazoado de palavras caras ao serviço da ambição de superioridade intelectual.
Porém, a filosofia não é uma disciplina fácil. Em primeiro lugar, porque os hábitos mentais sedimentados, a segurança ideológica, o conforto intelectual de se achar que já temos certas questões 'arrumadas', nos fazem não 'querer' compreender tudo o que os desafie. Por exemplo, as hipóteses cépticas de Descartes confrontam-se com atitudes do género, 'para quê pensar nisso?', 'porque não nos deixamos estar quietos em vez de pôr mais macaquinhos no sótão?', 'se uma pessoa se põe a matutar nisto fica maulo!'
É também difícil porque requer subtileza conceptual apurada, muitas vezes inexistente devido a uma educação deficiente (por exemplo, 'facilitista'). Os problemas filosóficos não são muitas vezes discutidos apropriadamente porque as pessoas vêem num argumento precipitadamente menos ou mais do que ele contém. Kant é talvez uma das grandes vítimas destas incompreensões. O seu esforço de circunscrição rigorosa dos conceitos cai amíude em saco roto.
Estou de acordo que Kant poderia ter escrito de modo mais acessível, mas as suas ideias não seriam, ainda assim, entendidas sem esforço e cuidado. Por exemplo, muitas pessoas entre as que estudam filosofia continuam a não perceber que A fundamentação da metafísica dos costumes não visa a apresentação de ética normativa, e que quer oferecer apenas, ao invés, uma metaética.
Por último, a filosofia exige, não obstante, uma linguagem técnica mais ou menos generalizada para, entre outras coisas, evitar que tenhamos constantemente de perder tempo a dizer o que se entende, por exemplo, por 'metaética'.
Parabéns pelo seu texto instrutivo.
Carlos Marques (do 'logosfera")
De rolandoa a 5 de Novembro de 2008 às 16:47
Olá Carlos,
Não coloco qualquer dúvida em relação qe disseste. O que eu penso (mas posso estar errado) é que a filosofia tem níveis mais sofisticados para se desenvolver (e eu não estarei com certeza a esses níveis) e outros menos. Essa é a natureza do conhecimento em geral. Não precisamos de saber a matemática toda para sabermos alguma matemática. Este nível, intermédio, vá lá, de conhecimento é essencial para que níveis mais sofisticados cheguem sequer a acontecer. Por essa razão levo muito a sério a nossa profissão de professores do ensino secundário. O nosso trabalho é essencial já que podemos lançar os estudantes na ciência, na filosofia ou, para a maioria talvez, numa análise mais racional da vida e do mundo. No nosso terrenos este tipo de discurso soa sempre um pouco lírico, mas a verdade é que temos centenas de exemplos bons de como um bom ensino da filosofia pode mudar a atitude das pessoas em relação ao mundo. Sem querer ser historicista a verdade é que essa é a lição dos gregos: os tipos ensinavam filosofia a toda a gente (menos aos escravos e às mulheres é certo). Este poder de actuação da filosofia é real. Há uns meses atrás o gestor da minha conta na banca dizia-me que a banca dava muita preferência aos licenciados em filosofia, mesmo em Portugal. E existe uma razão especial para isto acontecer se tivermos um bom ensino da filosofia: é que os estudantes saem dos cursos a saber pensar. Bem, estou a dizer estas coisas grosso modo, mas estas são as linhas que tem norteado o meu investimento com este blog. O importante é desenvolvermos um bom trabalho, seja ele analítico ou sintético :-)
abraço
De carlos marques a 10 de Novembro de 2008 às 12:57
Viva Rolando
Tens razão ao dizer que as disciplinas admitem diferentes graus de dificuldade (embora na filosofia, creio, tenhamos de entrar logo um pouco de cabeça, se é que me faço entender).
Há hoje óptimos livros de divulgação que exibem de um modo acessível os problemas típicos da filosofia e as principais teses e argumentos à volta deles sem comprometer o rigor necessário.
O que dificulta na filosofia é a necessidade, ainda assim, de trabalhar a um nível elevado de abstracção. Com isto não quero dizer que a filosofia seja apenas para eleitos ou para génios. Estou de acordo contigo quando implicas que a filosofia está perfeitamente ao alcance de um adolescente com uma boa formação anterior e que 'saber pensar' é um trunfo, hoje mais do que nunca. Infelizmente os nossos governantes estão mais entusiasmados com as 'novas tecnologias'...

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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