Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

Um padre pode filosofar?

god_atheist Um destes dias um colega de filosofia questionou-me se eu defendia a tese que diz que um padre não pode ser filósofo. Argumentei que um padre pode perfeitamemente ser um filósofo e dei alguns exemplos. O que é de esperar é que o padre filósofo discuta livremente os argumentos na filosofia da religião, mas outra coisa não será de esperar que o padre defenda a sua crença num deus. Um padre pode ser filósofo na mesma medida em que um ateu o pode ser. Mas ambos devem estar dispostos a abandonar as suas crenças se tiverem razões mais fortes para tal. Nada disto parece ser muito especial. O que pensam os leitores?

publicado por rolandoa às 01:14

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10 comentários:
De Luís Afonso a 25 de Setembro de 2008 às 20:29
Não sei até que ponto uma crença tão profunda como a da existência de deus não irá influênciar a reflexão filosofica, tornando assim esta um meio de passar a "palavra" de deus.

Cumprimentos,

Luís Afonso
De Vitor Guerreiro a 25 de Setembro de 2008 às 23:04
Acho esta questão bastante simples:

Toda a gente tem crenças. "Crença religiosa" não difere de qualquer outra crença. Se o ter crenças impedisse de filosofar, ninguém filosofava.

A filosofia, estritamente falando, não pode ser usada para "passar" palavra ou ideologia alguma. O que acontece é que chamamos "filosofia" a uma actividade que é puramente ideológica e nada tem de filosófico. Esta pode ser ateia ou teísta ou inteísta, whatever.

A filosofia não consiste numa série de "crenças filosóficas". Não há tal coisa. A filosofia é apenas a actividade de estudar os argumentos que sustentam as crenças. Qualquer pessoa pode fazer isto honestamente, quer seja crente em deus quer não.

Podemos dizer que alguns religiosos têm uma disposição para "enviesar" a argumentação, mas isto também muitos ateus fazem. Na política acontece o mesmo. A religião não é novidade aqui.

Acho que a melhor formulação possível para isto será: um padre pode filosofar, como qualquer outra pessoa, desde que leve a sério a hipótese de estar enganado em relação às suas crenças mais básicas, o que também vale para um ateu. (isto não significa estar de facto enganado. são coisas diferentes).
De Carlos Silva a 26 de Setembro de 2008 às 00:08
Rolando:

Um dos maiores pensadores que conheci era (ou tinha sido) padre.
Será necessário (re)lembrar o contributo da "patrística" e da "escolástica" para o pensamento?
É certo que na Idade Média a filosofia era entendida como uma "serva da teologia". Basta referir o "creio para compreender" de Sto Anselmo: o primado da crença sobre a razão. A filosofia, em especial a platónica e a aristotélica, tinha por função fundamentar os dogmas da fé. Nem por isso o legado da "patrística" e da "escolástica" pode ser desprezado. Assim como o não pode aquele que se situa nos "antípodas" da crença religiosa, Nietzsche, ao declarar a "morte de Deus". A riqueza da filosofia reside precisamente no diálogo entre teses e antíteses. Não será?

Abraço,
Carlos JC Silva

De Vitor Guerreiro a 26 de Setembro de 2008 às 00:29
Viva Carlos,

Nem sempre os ateus estão nos antípodas dos religiosos. Imagino como deve ser difícil aos cristãos evangelizar norte-coreanos: em que é que a ideia de um salvador supremo a quem se deve obediencia absoluta difere da triste realidade que conhecem?

A filosofia feita por um padre não tem de ser patrística, tal como a filosofia de um ateu não tem de ser as exortações fanáticas em louvor de mamíferos falíveis armados em deuses, que chefiam estados laicos.

Não pode haver primado da crença sobre a razão, porque só temos duas coisas: crenças e argumentos, e conversa fiada. Tirando a conversa fiada, temos crenças argumentadas e crenças inargumentadas. Mas temos sempre de ter crenças, mesmo que seja para as largar mais tarde, como o lastro de um balão ao subir. Se não tivéssemos quaisquer crenças, não conseguíamos formular argumentos. O problema de algumas crenças é quando as queremos isentar do escrutinio racional.

Platão e Aristóteles fizeram muito para nos libertar dos atavismos da tradição. O diálogo socrático é importante não pelas crenças afirmadas por Sócrates, mas pela novidade que foi procurar a verdade com base na argumentação e não na tradição. Mas é verdade que na idade média estes autores foram algo instrumentalizados para servir no combate ideológico dos monoteísmos e respectivas divisões internas.

Abraço
De Luís Afonso a 26 de Setembro de 2008 às 16:18
Concordo com a formulação apresentada, mas continuo a crer que a filosofia, quer seja no ensino ou na reflexão, é sempre influenciada pelas crenças e ideologias de quem a ensina ou a utiliza na reflexão.
Baseio esta crença na dificuldade que temos em não ser influenciados nas acções que realizamos, quer a influência seja feita pela nossa cultura, personalidade, conhecimentos, crenças ou ideologias . Então se existe essa dificuldade de nos libertarmos da influência que nós próprios nos impomos (muitas vezes inconscientemente ) porquê acreditar que no acto de filosofar será diferente?

Peço desculpa se digo grandes disparates lógicos ou quaisquer outros erros, mas não tenho qualquer formação em filosofia, esta é apenas uma área pela qual me interesso.

Cumprimentos




De Valter Boita a 26 de Setembro de 2008 às 17:01
Olá a todos!

Desconfio seriamente que um filósofo possa ser padre, o que não é o mesmo que dizer que um padre possa ser filósofo. O que não significa que um filósofo não possa ter as suas crenças, tê-las-á certamente, mas terá de as avaliar de um modo imparcial para que a sua reflexão não esteja à partida viciada. Quantas mais crenças acríticas um ser humano tiver, menos possível se torna filosofar de um modo claro, rigoroso e exacto.

Consideremos as hipóteses que se seguem:

Hipótese 1) Se sou filósofo, não posso ser padre.
Hipótese 2) Se sou padre, posso ser filósofo.

A H1 é verdadeira, pois ser padre não é uma condição necessária para se ser filósofo. Nem sequer se pode encarar como condição que faça sentido quando falamos de filosofia. E ser padre não significa ser um mero crente teísta, significa acreditar piamente em dogmas, para deles deduzir uma verdade (para a qual a justificação é pouco aceitável). Um padre convicto da sua missão e comprometido em disseminar uma verdade injustificável racionalmente, jamais será capaz de suspender o seu juízo para evitar aceitar uma crença básica sem justificação.
Se a filosofia é, sobretudo, um estudo "a priori" das crenças básicas, também a religião aborda muitas dessas crenças básicas confinadas ao paradigma religioso aceite (para um padre cristão, por exemplo, o ser humano tem de ser livre porque Deus quis que o ser humano fosse livre e ponto final). Ainda que a posição de um padre sobre as implicações éticas das práticas da eutanásia ou do aborto sejam filosoficamente relevantes, já não serão filosoficamente fundamentadas. Sob uma investigação que se pretenda imparcial e rigorosa, um padre jamais conseguirá separar a verdade da verdade das suas crenças.

A H2 é possível, já que ser filósofo poder ser uma condição necessária para se ser padre. A maioria dos padres jesuítas, por exemplo, tem formação filosófica de base; muitos filósofos eram ou foram padres. No entanto, acho pouco aceitável que um filósofo que invista na pesquisa racional das crenças básicas desista de encontrar soluções protegendo-se nos dogmas da religião. O mesmo filósofo pode, por outro lado, ser crente, ou por fidelidade à tradição em que foi educado ou por reconhecer que um determinado princípio filosófico apresentado por uma religião é aceitável, contudo será, sendo filósofo, capaz de ver o círculo fechar-se e satisfazer-se com a resolução religiosa de um problema filosófico (como o livre-arbítrio)? Acho pouco provável!

Um abraço
Valter
De Wagner Tavares a 29 de Setembro de 2008 às 01:20
Muito bom o blog. Eu concordo que um padre possa filosofar. Dizem que na Idade Média não existe filosofia, mas basta abrir a Suma Teologica de Tomás de Aquino para vermos que a historia é bem diferente! Abraços!
De rolandoa a 29 de Setembro de 2008 às 02:28
Obrigado a todos. Em breve responderei mais cuidadosamente.
abraço
De Sergio Tolomei a 8 de Julho de 2009 às 17:02
Não só pode como deve! Facilitaria muito entender a filosofia do Mestre Jesus, e também entender as diversas filosofias de cada doutrina religiosa. Ajudaria a ter mais tolerância e a respeitar a crença dos outros e a não forçar a ninguém a trocar suas convicções religiosas. Mas se ficar infeliz com sua religião, porque não trocar por outra filosofia que achar mais coerente com a evolução de seu pensamento ? Basta estudar e comparar as religiões e sempre vamos achar alguma mais adequada as nossas necessidades. Acho que todo ensino religioso devia ter como base estudos de filosofia geral.  As religiões mudam , mas a verdade permanece , e as palavras de Jesus também! Abraços
De rolandoa a 8 de Julho de 2009 às 23:11
Caro Sérgio,
a ideia de que Jesus foi filósofo é bastante forçada. Que elementos reune para pensar que Jesus foi filósofo? 
De todo o modo ao contrário do que afirma, um convite a pensar pela própria cabeça não é ideológico somente porque alguém descobre que afinal não tem razões para continuar a acreditar em x.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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