Sexta-feira, 10 de Novembro de 2006

O Modelo do Pensamento Consequente

O pensamento consequente é o pensamento fundamentado. Um pensamento é consequente quando se baseia em razões e retira correctamente consequências das razões em que se baseia. Por exemplo, uma pessoa pode pensar que Deus existe por achar que, se não existisse, a vida não faria sentido. Ou pode pensar que o aborto é um mal por achar que matar um feto é um assassínio. Esta actividade de retirar consequências de ideias pode ser bem ou mal executada.
    A lógica permite determinar que consequências se retiram correctamente das nossas ideias, e que consequências só aparentemente se retiram delas. Uma demonstração lógica é um modelo abstracto e simplificado do pensamento consequente, como veremos. Ao tomar consciência das diversas formas através das quais se pode errar ao pensar mesmo nos casos simplificados da lógica, adquire-se não apenas rigor mas também cautela e maturidade. Aprende-se a não aceitar as nossas ideias e os nossos argumentos sem uma reflexão ponderada, pois percebemos que nos podemos enganar e pensar, retirando consequências que não podem ser retiradas, ou não nos dando conta de que das nossas ideias se podem retirar consequências falsas – o que mostra que as nossas ideias são falsas.
        Por exemplo, alguém poderá defender a seguinte ideia, hoje em dia muito popular: «Todas as verdades são relativas». Sem formação lógica, acontece duas coisas a essa pessoa. Em primeiro lugar, não se percebe que a sua ideia é auto-refutante – isto é, não se percebe que a verdade da sua ideia implica a sua falsidade. Se todas as verdades são relativas, também esta é uma verdade relativa; mas ser uma verdade relativa significa que para algumas pessoas, ou em algumas circunstâncias, ou para algumas comunidades, esta ideia é falsa. Logo, se for verdade que todas as verdades são relativas, é falso em algumas circunstâncias que todas as verdades são relativas. Em segundo lugar, não só essa pessoa não se apercebe desta dificuldade lógica elementar a que tem de responder, como sente que quem lhe apresenta este contra-argumento a está a enganar. Como o contra-argumento se baseia num raciocínio ligeiramente complexo e a pessoa em causa não tem instrumentos para avaliar a sua correcção, sente que está a ser enganada. O resultado desta situação é que essa pessoa não está equipada para discutir ideias filosóficas – tudo o que consegue fazer é dar voz aos preconceitos do seu tempo, sem ter capacidade crítica para se distanciar das suas próprias ideias e procurar responder aos argumentos que se levantam contra elas. Nestas circunstâncias, o estudo da filosofia deixa de conduzir à liberdade do pensamento crítico, e torna-se apenas um meio para sustentar preconceitos com nomes sonantes de filósofos e palavras complicadas.
 
Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano p.30-31
publicado por rolandoa às 01:09

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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