Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Mãe, vou ter de mexer em cadáveres?

imageA ministra da Educação considerou que a dependência dos alunos portugueses das explicações é uma situação típica do «Terceiro Mundo» e uma situação já «muito antiga» em Portugal.

Reagindo ao estudo feito por três investigadores da Universidade de Aveiro sobre o mercado das explicações em Portugal, Maria de Lurdes Rodrigues lembrou aquilo que costumava dizer que «havia escola pública de manhã e privada à tarde».

«De manhã, os alunos estão na escola, de tarde, vão para a explicação. Isso não é uma situação aceitável e portanto é necessário criar condições para que os alunos possam fazer a sua aprendizagem para que possam ter acesso a uma efectiva aprendizagem de qualidade no espaço da escola», defendeu. “

In. TSF

Então estará aqui a razão do sucesso do sistema educativo dos últimos 3 anos. Afinal são necessárias reformas, pois os alunos obtiveram bons resultados, mas à custa de explicadores. Mas! Espera! O primeiro ministro disse publicamente que os resultados positivos se devem ao esforço dos professores e alunos. Não falou em explicadores. E depois há aqui uma outra coisa que soa errada: se o sucesso educativo já existe, o que é que a ministra tem a ver com se os alunos procuram ou não explicadores? Que um indivíduo tenha a liberdade de procurar aperfeiçoar os seus conhecimentos seja onde for não é do terceiro mundo, mas do primeiro, onde existe liberdade de opções. Além do mais a ministra pode descansar, pois o seu ministério ao consolidar de vez o eduquês no sistema de ensino (aliás, nem sei se consolidou ou só o deixou andar uma vez que este ME ainda não mexeu uma palha no sistema educativo, mas tão só em questões profissionais), atirou com centenas de explicadores para o desemprego e os que se aguentam no sistema são para aqueles alunos cujos encarregados de educação querem a toda a força que os filhos se formem em medicina. É que o facilitismo deixa pouca margem para o trabalho de explicadores.

Já que peguei na peça e a propósito dos alunos que querem estudar medicina, a semana passada ouvi uma encarregada de educação a contar as maravilhas do seu rebento futuro médico. Entre a história da nova aventura do rapaz surgiu uma pergunta que fixei. O futuro médico pergunta à mãe aterrorizado: “Mãe, vou ter de ver cadáveres?”. Hoje mesmo, na SIC via um programa de prostituição de alta roda. Quando perguntaram à Verónica se gostava do que fazia, respondeu: “Sempre que penso nisso penso que financeiramente compensa”. Se esta relação for consistente é possível que, em Portugal, ver cadáveres dê dinheiro. Se assim for será que ainda me espera uma grande carreira como coveiro?

Sobre este assunto ler mais aqui e aqui.

Rolando Almeida

publicado por rolandoa às 01:55

link do post | favorito
5 comentários:
De Vitor Guerreiro a 25 de Setembro de 2008 às 23:16
Liberdade de opções é coisa intragável para esta malta. O pior do fascismo residual não é os velhos saudosistas que parecem não lembrar o que passaram no tempo do outro, mas sim estas bocas que se apanha de esguelha... como quem não quer a coisa... e que muito boa gente aceita como se de factos evidentes se tratasse, e não as opiniões problemáticas que são.

Ora que mal tem o sucesso escolar dever-se a um explicador privado? Não nos libertamos do fantasma do estado-pai.

... sim, com letra minúscula, estado, estado, estado, porra.
De rolandoa a 25 de Setembro de 2008 às 23:31
Vitor,
Mas o Esatdo pai não é só culpa do Estado. Vê, toda a gente no nosso meio pensa que o Estado tem de dar tudo. É que o Estado pai criou bem os seus filhos que não sabem viver fora da sua asa.
De Vitor Guerreiro a 25 de Setembro de 2008 às 23:44
Em rigor, claro que a culpa não é do estado, "estado" é apenas uma abstacção para "conjunto de pessoas que trabalham nestas e naquelas instituições, às quais chamamos colectivamente "estado"". Ou seja: estamos outra vez a falar nas pessoas. Não há "estado" a nao ser na nossa imaginação, o estado é um nome colectivo para um grupo de imbecis que se metem na vida de outras pessoas como elas. supostamente para bem, mas quase sempre para pior ou para coisa nenhuma. E isto nem será culpa delas mas de todos: ainda nõa inventámos algo melhor para resolver os nossos problemas.

Dito isto, deixa-te lá de reverências ao estado-pai, com esses E's. Hoje constatei com desprazer que uma tradução que fiz foi corrigida pelo revisor na palavra "estado" — tudo para maiúsculas. Fiquei fulo. Mas que porra. Se é para "diferenciar" como dizem os rotos da nova mística nacional, por que camandro não escrevemos "Estado de Coisas" e "estado português"? Diferenciar por diferenciar, assim também diferenciava, bolas. E quando há ambiguidade entre 3 sentidos? Escrevemos maiúsculas no meio?

Cá para mim, os revisores e o resto que ponham as maiúsculas no...
De rolandoa a 25 de Setembro de 2008 às 23:47
Vitor,
Escrevemos Estado com maiúscula, para podermos dizer "Estado de merda" e não se confundir com um fulano que se borrou todo!!! ;-)
De Vitor Guerreiro a 25 de Setembro de 2008 às 23:51
E que argumento puramente linguístico (inideológico) haveria para não ser antes o "Estado de estar todo borrado" a levar E?

É puramente psicológica a noção de que "estado portugues" confunde "estado" com "estado-pai". É a psicofoda do estado pai, a exigir tacitamente que lhe honremos a gaita. Não há pachorra.

Mais depressa escrevo "peido" com P.

E os revisores que me façam um bb

Comentar post

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS