Sábado, 2 de Agosto de 2008

Confusões de Heidegger

martinnnn Foi publicada recentemente na revista Crítica, a tradução que Vitor Guerreiro fez para a introdução do livro de Paul Edwards, Heidegger`s confusions. Não conheço o livro na integra pelo que aqui vou só fazer um breve apontamento ao que sugere a introdução. A introdução sugere que, ao contrário do que muita boa gente tem pensado em muitos círculos académicos, Heidegger nem é um pensador original nem é o maior impulsionador no século xx ao progresso do pensamento filosófico. Desde já assumo a minha posição de que Heidegger não possui o menor interesse e relevância para a filosofia, nem lhe reconheço qualquer estatuto de maior pensador do século xx. Não gosto dos textos de Heidegger, penso que estão imbuídos em contradições e linguagem obscura. Basicamente Heidegger nunca me estimulou a pensar filosoficamente pelo que o seu contributo para a minha formação é muito vago, ainda que tivesse de levar com o filósofo durante toda a licenciatura e muitas das vezes só servisse para menorizar uns em relação a outros, os que dominavam o alemão no original e os que seguiam as traduções. Nunca alcancei bons resultados quando fiz exames nos quais se questionasse sobre a filosofia de Heidegger.

Rolando Almeida

Os meus colegas de curso que tiravam boas notas nunca conseguiram expor Heidegger de forma clara, pelo que a minha desconsideração pelo pensador alemão é completa, só me interessando uma ou outra questão relacionada com o facto do alemão acabar por influenciar muita gente na filosofia. Mas a leitura da tradução que o Vitor fez despertou-me para uma ideia: se a hipótese de que Heidegger não possui qualquer importância para o pensamento filosófico for verdadeira e se for verdade que o seu pensamento não passa de enfeite e embrulho, isso levanta o problema de que a filosofia admite facilmente nos seus quadros charlatanice, o que não fica nada bem aos filósofos e à filosofia. Vejamos o problema por comparação: se olharmos para uma ciência, por exemplo, a física será que os físicos admitem durante tanto tempo uma ideia tola somente porque uma série de universidades dizem que é uma boa ideia? A resposta mais certa é «não». O que acontece é que, por mais que se queira proteger uma ideia tola, os testes empíricos acabam por demarcar a tolice da seriedade, o que fortalece a investigação e credibiliza a ciência em causa. Mas na filosofia será que temos um critério demarcador da filosofia e pseudo filosofia? Eu sou a favor de que sim, temos um critério que é dado pelo método, o pensamento crítico e a lógica. Com efeito, ainda assim, a demarcação empírica parece ser um critério menos contestável. Este é um problema da filosofia da ciência ainda em discussão, mas hoje em dia é consensual entre os filósofos que existem critérios rigídos para a demarcação científica. Desde Popper que é assim e os filósofos tem uma tendência crescente em acreditar que a objectividade não é somente uma cantiga de embalar. Mas isto não resolve o problema da filosofia, dado que é complexo fazer o transporte de objectividade para a filosofia. Nesse caso podemos falar de duas posições distintas e mais gerais:

a) Uma que defende o relativismo radical em que a filosofia de Aristóteles pode ser tão boa como a do Quim lá da aldeia; esta é a famosa e pateta tese de que todos os seres humanos são filósofos.

b) Uma tese mais moderada que defende que a filosofia é relativa aos filósofos mas que exige um qualquer critério de separação, por exemplo, entre muitos outros, o da filosofia só poder ser feita nas universidades.

Qualquer uma destas teses (que não são até tão diferentes quanto isso) contribuem para o fomento do vale tudo em filosofia e não são mais do que a noção de profunda crise interna da própria filosofia, ao necessitar de critérios externos para se afirmar dignamente. Por outro lado é este tipo de pensamento que conduz a um efeito indesejável: que muitos filósofos se expressem numa linguagem hermética para criar a ilusão de que se estão a tratar assuntos muito sérios, tão sérios que é inacessível ao comum dos mortais pensá-los dessa forma. Esta postura curiosamente tem sido responsável pelo desprestigio social da disciplina, sendo que Portugal, país onde o ensino universitário da filosofia é profundamente inspirado em Heidegger é um bom exemplo disso mesmo.

Se o que interessa à filosofia e ao ser humano - com a filosofia - é pensar autonomamente, de forma organizada e racionalmente crítica, o texto de Edwards pode lançar umas luzes sobre os efeitos nefastos de pensadores como Heidegger para a própria filosofia. Claro que um relativista radical diria que estou a sujeitar filósofos à fogueira, mas tal não passa de um disparate relativista. Se eu impedir um assassino de matar 10 pessoas, não me parece justo defender que ao impedi-lo de cometer o crime estou a contribuir para o desaparecimento do crime bárbaro e que tal é errado pois devo tolerar tudo, inclusive o crime bárbaro. Será mesmo verdade que a filosofia precisa de mitos para se desenvolver e progredir?

OBS: é provável que o link de acesso à tradução não funcione uma vez que a Crítica é uma revista de acesso não gratuito, pelo que se sugere a sua subscrição para aceder ao texto. Fica muito barato e é uma forma de ajudar a filosofia a exprimir-se em lingua portuguesa

publicado por rolandoa às 17:56

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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