Sábado, 2 de Agosto de 2008

Estudar Lógica

HPIM6354 A chegada do verão dificilmente deixará alguém a estudar lógica. Eu próprio faço sempre projectos para aprofundar os meus conhecimentos na matéria, mas vão sendo sucessivamente adiados. Ainda assim uma boa solução é ter boa bibliografia à mão. Com bons livros por perto podemos usá-los como enciclopédias de lógica e recorrermos a eles sempre que nos surjam duvidas. E, assim, quase por acidente, estamos sempre a estudar lógica, revendo sempre os nossos argumentos e os argumentos que estamos a ler. Deixo aqui um pequeno lote de livros que me tem ajudado a estudar lógica, formal e informal. Após algumas tentativas e erros ao comprar bibliografia de lógica, esta é a melhor que possuo e conheço no momento, se bem que há outras. E citarei somente introduções à lógica e não estudos específicos.

Digitalizar0001Digitalizar0002 Paul Herrick, the many worlds of logic

Daniel Bonevac, simple logic

São dois manuais muito próximos. Aliás não me parece boa ideia ter os dois volumes a não ser para tirar dúvidas mais específicas. Qualquer um dos dois é bom, actual, com imensos exemplos e exercícios. Ainda assim o do Bonevac está melhor organizado pelo que será talvez a melhor escolha. Estes livros são caros, mas uma boa opção é encomendá-los usados. Comprei os meus em hardback pelo amazon americano e custaram-me cada um cerca de 20€ incluindo os portes.

Digitalizar0003 Daniel Bonevac, deductive logic

A primeira vez que encomendei o Bonevac, por engano, comprei um outro volume que aqui refiro, o Deductive logic. Raramente peguei neste volume. Ele é bom, mas para estudos mais avançados, com efeito pouco útil para quem pretende ter conhecimentos mais pela base ao nível da lógica.

adp2008 Autores vários, A Arte de Pensar

Uma das melhores sínteses que conheço da lógica formal e informal é esta do Arte de Pensar, escrita a pensar nos estudantes de filosofia do ensino secundário. Mas é talvez a melhor e mais actual introdução à lógica que temos disponível em língua portuguesa. Para quem não possui qualquer conhecimento de lógica este é mesmo o melhor ponto de partida. Este manual merecia já uma edição comercial para o público em geral, dada a sua actualidade.

Digitalizar0004 Desidério Murcho, o lugar da lógica na filosofia

Trata-se de uma introdução à lógica muito original pois o autor começa a ensinar lógica alertando para os erros mais habituais. Durante algum tempo este livro é uma espécie de prontuário da lógica ao qual recorri imensas vezes até polir alguns conhecimentos. É um livro indispensável, para além de escrito numa linguagem muito clara sem o condicionalismo dos termos demasiado técnicos.

 

 

 

 

 

 

Digitalizar0006 Howard Kahane, Nancy Cadenver, logic and contemporany rethoric, the use of reason in everyday life

Este volume resulta da ideia de mostrar as implicações que a lógica tem quando usamos o raciocínio no nosso dia a dia. Pretende, assim, ser um livro que explica a lógica às pessoas comuns sem qualquer formação inicial em lógica.

Digitalizar0007 W. H. Newton Smith, Lógica, um curso introdutório

Se pensarmos em livros de lógica sem linguagem demasiado técnica e acessíveis e que estejam publicados em português, ficamos sem alternativa. A nossa procura recairá inevitavelmente por este completo manual. Creio que um curso de lógica numa licenciatura não irá muito mais além do que é exposto neste manual. Para o ensino secundário os 3 primeiros capítulos são essenciais.

Digitalizar0008 Alec Fisher, a lógica dos verdadeiros argumentos

Infelizmente não há edição portuguesa deste volume. A edição que tenho é a brasileira. Nesta obra Fisher recorta uma série de argumentos clássicos e mostra por que razão esses argumentos não são bons argumentos. É um livro de filosofia muito interessante.

c12663 Anthony Weston, a arte de argumentar

Este é a melhor introdução que temos em português sobre lógica informal. O mercado já anda a precisar de mais umas quantas obras sobre lógica informal, mas enquanto nada mais aparece, este cumpre com a finalidade de ensinar a pensar com consequência, ou pelo menos a perceber quando não o fazemos.

Digitalizar0009 Graham Priest, lógica para começar

Pessoalmente não é o livro de lógica que mais gosto. É denso em algumas passagens e existem melhores livros para o leitor desprevenido. Mas se lido com esta cautela é ainda assim um bom livro, sempre com a vantagem de o termos traduzido.

Digitalizar0005 Digitalizar0010 Richard Epstein, the pocket guide to critical thinking

Alec Fisher, Critical thinking, an introduction

Finalmente, uma das boas maneiras de começar a dar uns toques de lógica é estudando critical thinking que não é mais do que aplicar a lógica e o raciocínio crítico a todas as áreas do saber. Conheço alguns manuais de pensamento crítico, sendo que os dois que mais gosto são estes que aqui apresento. E é urgente traduzi-los disponibilizando-os ao público português.

publicado por rolandoa às 13:53

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12 comentários:
De isabel laranjeira a 4 de Agosto de 2008 às 08:42
Ainda assim, o verão não impede que alguns estudem lógica, por simples gosto ou por necessidade. Pela primeira vez, depois de doze ou treze anos a leccionar a lógica silogistica vou aventurar-me na lógica proposicional, (11ºano).
Depois de consultar e estudar vários manuais, conclui que de facto, o "Arte de Pensar", é o melhor ponto de partida. Partilho a sua opinião. Quanto ao "Lugar da Lógica" e ao " Arte de Argumentar", são dois livros que não dispenso há vários anos para preparar as aulas da unidade de Lógica.
Desejo boas férias e boas leituras.
Isabel
De rolandoa a 4 de Agosto de 2008 às 15:01
Olá Isabel,
Já agora aventuro-me num conselho para começar a ensinar lógica proposicional: procure utilizar nas aulas exemplos já previamente explorados nos bons manuais. Eu tive uma experiência quando mudei para a lógica proposicional: inicialmente estava com receio de me enganar nas aulas, mas no final da leccionação pude verificar que errei muito menos vezes do que quando ensinava a lógica silogística e isto por uma razão especial que eu - também por lentidão minha - não me tinha apercebido: é que a lógica silogística é muito limitada e abre sempre muito espaço à possibilidade do erro, isto se quisermos aulas mais dinâmicas nas quais procuramos ir sempre mais longe. Vai ver que os alunos a páginas tantas gostam de fazer inspectores de circunstâncias e, sobretudo, vai ver ao longo de todo o ano como a lógica proposicional é muito mais útil que a silogística, apesar da proposicional não encerrar também todos os casos possíveis e possuir algumas limitações.
Abraço, boas férias, obrigado e bom estudo
De Paulo Carneiro a 12 de Agosto de 2008 às 16:30
Apreciei bastante a página.Temas,indicações e comentários por demais instigantes e grande valia.Sou estudante de filosofia,da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,Brasil.Quanto ao estudo da lógica,um neófito.Enquanto me esforço para deslindar e avançar nos arcanos dessa disciplina,indiscutivelmente esencial para o fazer filosófico,acossam-me uma série de questões.Os bons livros que recomendas aqui têm me ajudado na travessia do deserto.Mas,à parte o que toca o valor central da lógica para a leitura e a reflexão filosófica,tenho me perguntado pelos limites e perigos dessa disciplina,sobretudo quando se pretende guindá-la ao status supremo de "O Método da Filosofia".Não se trata,por evidente, de atacar a lógica,ou de menosprezar sua relevância e fecundidade,tampouco de(seria inconsequente e frívolo)excluí-la da filosofia,tornando-a impotente para o tratamento dos problemas filosóficos.Entretanto,o inverso,quer dizer,torná-la soberana e onipotente,entronizando-a como "O Método da Filosofia",não implicaria recair na antípoda,igualmente exagerada, da postura inaceitável da impotência.Eis o dilema que talvez se constituo numa falso dilema:impotência ou onipotência?Provavelmente,haja um caminho do meio,uma espécie de "síntese conciliadora",capaz de apontar,por um lado, a natureza e os objetivos característicos do domínio da lógica e sua importância fulcral para o método filosófico,mas também,de outro,os limites e os perigos de elevá-la a "Rainha do Método Filosófico".Podemos,no andar da carruagem,ir "desempacotando" a constelação de problemas que essa discussão suscita.Não obstante engatinhe no entendimento desses filósofos franceses contemporâneos,parece-me que há questões consistentes suscitadas em relação às limitações da lógica formal por autores como Morin,Derrida e Deleuze,ou não?
De rolandoa a 12 de Agosto de 2008 às 22:23
Caro Paulo,
Obrigado peloteu comentário. Não existe risco algum em usar a lógica para argumentar, até porque não existe argumentação sem lógica. O perigo que falas foi já abordado pelos positivistas lógicos na primeira metade do seculo xx e foi um problema superado precisamente pelos positivistas lógicas. É um pressuposto errado pensar que se reduz toda a filosofia à lógica ou a fórmulas vazias de conteúdo. Seria o mesmo que estarmos a cortar uma maçã e pensar que o importante é a faca e, quando acabamos de a cortar mandamos a maçã ao lixo para adimrar a lâmina da faca. O importante é ver a maçã cortada para a comer.
Mas a melhor prova do que lhe digo é convidá-lo a ler alguns dos livros que divulgo aqui no blog e poderás ver por ti próprio se nessas obras os autores reduzem os problemas a um conjunto de regras sem conteúdo.
É verdade que os autores pos modernos se estavam nas tintas para a lógica, mas , na verdade estavam-se nas tintas para quase tudo e viam na filosofia uma espécie de bastão político. Ora, a filosofia não existe para afirmar que X é verdade, mas para questionar se X é verdade. É verdade que existe toda uma linha filosófica que nega a lógica, a mesma filosofia que anuncia a própria morte... nada como ler um ou dois bons livros de filosofia para perceber de vez que a lógica não mata a filosofia, mas a reanima...
abraço
De Paulo Carneiro a 12 de Agosto de 2008 às 16:39
Isso não quer dizer que esses filósofos franceses não cometam outros tipod de exageros,como alguns que sustentam o insustentável,como a tese "auto-destrutiva" do relativismo.

Abraços,

Paulo
De rolandoa a 12 de Agosto de 2008 às 22:25
Realmente tenho sérias dúvidas em relação ao que dizem muitos desses filósofos, mas sei que se lhes dá ampla reputação em países como Portugal e Brasil, curiosamente países desprovidos de filósofos relevantes hoje em dia.
abraço
De Paulo Carneiro a 14 de Agosto de 2008 às 07:28
Caro Rolando:


Agradeço muito pelos teus atenciosos comentários e orientações elucidativas, que serão, além dos livros que indicas, de grande valia no prosseguimento de meus estudos. Minha perplexidade central talvez fosse justamente em relação a esse perigo de jogar a maçã cortada ao lixo e ficar bestificado diante da performance da faca. Se corto a maçã, corto-a para vê-la cortada e,se vejo-a cortada depois de cortá-la, não é senão para comê-la e provar-lhe o verdadeiro sabor.Ou,antes,questionar-lhe o verdadeiro sabor,pois pode ser uma maçã bichada ou mesmo falsa...Ter a maçã cortada e assim jogá-la fora pelo puro e simples exercício de cortá-la não faria sentido algum.A lógica revela-se um ferramental valioso para a atividade filosófica se, e somente se,não reduzir toda a filosofia e o tratamento de seus problemas a um conjunto de regras formais sem conteúdo:eis a condição para que a lógica possa injetar sangue-vivo à filosofia enquanto atividade rigorosamente crítica de análise e argumentação que ela, a filosofia, consiste pela sua natureza mesma.Do contrário,talvez a lógica não passe de um delírio inócuo que se compraz em amolar a faca,cortar debalde a maçã e sucumbir à absurda estupefação face ao poder da lâmina...

Aprendiz na seara filosófica, não disponho de um repertório mais substancial para me pôr a discorrer nem sobre o positivismo lógico nem sobre a filosofia brasileira e muito menos sobre a portuguesa.Quanto à contribuição dos positivistas lógicos na superação do problema a que aludi,não me cabe outra tarefa senão a de procurar,metódica e pacientemente, conhecer melhor o que quer que hajam pensado a respeito.No referente à filosofia portuguesa,permito-me,por ora, suspender o juízo por total desconhecimento.Se bem que aprecio alguns portugueses da mais alta relevância e que jamais perderão sua atualidade,a saber: Camões, Pessoa, Mário de Sá Carneiro,Ênio de Andrade e Saramago.Este escritores ,embora não sejam filósofos no sentido estrito, problematizam e expressam, com a força de sua arte,questões filosóficas capitais.Nesse sentido,caberia perguntar se o fazer filosófico,tomado num sentido mais amplo,possui algum “lugar natural”.A academia não prestaria senão uma espécie de favor para a filosofia ao se constituir num espaço para seu ensino e produção?A academia é,ao menos,um lugar privilegiado para a abordagem e discussão dos problemas filosóficos?Penso que não.A filosofia ,historicamente,alimenta-se da arte, que dá vibração e densidade humanas às questões que os textos de filósofos especializados,normalmente,tratam de um modo árido e “descarnado”.Filósofos iletrados e alheios ao universo da criação artística tendem a ser mal filósofos.A propósito,há um brilhante filósofo brasileiro,recentemente morto,Gerd Bornheim, que chega a afirmar que o Brasil possui um único grande filósofo,cuja obra é um exercício de perguntação radical em torno da condição humana,a saber: Carlos Drummond de Andrade.A leitura literária,em especial,me parece tão importante para o filósofo quanto o estudo da lógica.A própria estética,enquanto domínio específico da geografia filosófica,não nos oferece talvez uma espécie de “chave integradora” de todos os demais ramos da reflexão filosófica,articulando problemas concernentes tanto ao juízo teórico quanto ao juízo prático?E ,no âmbito dos problemas relativos à afecção de afetividades e sentimentos morais,em que as dimensões ética e estética se conectam intimamente,qual seriam as possibilidades e limites ,enquanto ferramenta investigativa,de nossa capacidade de inferir e argumentar?E a própria inferência,enquanto processo de constituição de juízos ou fonte de conhecimento,nos dispensa de submetê-la ao crivo da reflexão crítica?

De Paulo Carneiro a 14 de Agosto de 2008 às 07:30
Não sei o que tu entendes por “filósofos relevantes hoje em dia”,mas tenho sérias dúvidas em relação à tua afirmação de que a filosofia brasileira é desprovida de filósofos relevantes.Como disse antes,sou um estudante de filosofia, não possuo uma visão mais consistente sobre a realidade da filosofia brasileira,mas,pelo pouco que sei,existem, no Brasil, muitos filósofos relevantes e atuais. De chofre,me vêm alguns nomes,como Marilena Chauí,Balthazar Barbosa Filho(o farol de toda uma geração de filósofos pelo Brasil afora),Renato Janine Ribeiro,Olgária Matos,Vicente Ferreira da Silva,Antônio Cícero,Kathrin H. Rosenfield, Denis Rosenfield e o já citado Gerd Bornheim.Isso para ficar nos filósofos “hard”,professores e investigadores no âmbito da universidade.Se manejássemos uma noção mais lata ou elástica da atividade filosófica,faltaria espaço para os nomes,mas me permito citar alguns paradigmáticos criadores, como Ferreira Gullar, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Carlos Nejar, João Cabral de Mello Neto e Clarice Lispector.Todos exercem e alimentam o pensamento filosófico com o vigor de suas obras artísticas de enorme envergadura e indiscutível universalidade.Para finalizar,aproveito para divulgar um grande evento,uma espécie de feira nacional do melhor da filosofia brasileira,que se realiza de dois em dois anos,promovida pela Aspof(associação de pós-graduações de filosofia),de seis a dez de Agosto na cidade de Canela, na serra gaúcha.Lá estará toda a fauna da filosofia brasileira atual,para todos os gostos,tendências e métodos,prevendo-se cerca de 1.700 apresentações.Vale conferir.Eu não perderei.

Atenciosamente,

Paulo

De rolandoa a 14 de Agosto de 2008 às 12:04
Caro Paulo,
Antes de tudo obrigado pelo teu comentário. A pergunta que fazes sobre se a filosofia possui algum lugar próprio incorre em confusões que são muito habituais, por exemplo, a estudantes de filosofia em Portugal. Creio que a realidade do Brasil é mais heterógenea, mas não muito distante, pelo menos pelo que conheço de leitores do blog do Brasil. Poderíamos desfazer essa questão com uma intuição muito simples. Vamos pensar que o mesmo se passa para o conjunto dos ouros saberes. Também a um matemático se exige que seja culto e, com efeito, não se pensa que um escritor é um matemático somente porque nas suas obras levanta alguns problemas com vislumbres matemáticos. O próprio Fernando Pessoa, que citas, usa o raciocínio lógico algumas vezes. Isso faz dele um lógico ou matemático? Creio que não. Tu próprio te contradizes uma vez que 1) pareces defender a tese de que não há um lugar próprio para a filosofia e 2) para apoiares a tua tese citas um filósofo brasileiro que defende que há “um único filósofo no Brasil”. Ora, este tipo de afirmações exigem critérios. O que podemos aqui questionar é o valor dos critérios, mas se pensares bem, critérios é coisa que existe sempre. São perfeitos? Claro que não. Exigem reformulações? Claro que sim. Mas vamos a outro exemplo: imagina que vais para um curso de pintura porque decidiste que queres ser pintor ou simplesmente achas que tens um talento para a pintura. Imagina que passas um ano inteiro a estudar matemática no curso de pintura. Ou, pior ainda, imagina que passas o curso inteiro a estudar a história da pintura (mais ou menos o que se passa nos cursos de filosofia em que praticamente só estudas a história da filosofia). Será que isso vai fazer de ti um pintor? Quando muito fará de ti um matemático ou um historiador das artes, um ser muito culto em história da pintura mas incapaz de pintar pois desconhece as técnicas mais elementares da pintura. Claro que podes objectar com o argumento de que muitos pintores não tiraram cursos de pintura. E isso é verdade. Tal como há matemáticos que não estudaram matemática, ou físicos que não estudaram física ou filósofos que não estudaram filosofia. Não estudaram em cursos. Isto é verdade, mas daí não decorre que não precisamos de cursos de matemática para formar matemáticos, uma vez que a maior parte dos matemáticos, filósofos, pintores… estudaram matemática, filosofia, pintura. Por outro lado, pegando no teu exemplo, a da estética, será que conhecer muita pintura faz de mim um filósofo das artes? Creio que não. Claro que a história da pintura é importante para o filósofo da arte, mas trata-se de uma condição necessária, mas não suficiente. Para se saber filosofia é preciso pensar pela própria cabeça. Claro que hoje em dia existem lugares próprios onde se pratica esse exercício, que é nas boas universidades, onde estão os bons filósofos com os quais aprendemos a discutir os problemas da filosofia.
Não tenho dúvidas que o Brasil terá os seus filósofos. acontece que, tal como em Portugal, são muito poucos aqueles que entram no debate filosófico com os seus pares. Vamos pensar num exemplo: vamos supor que eu vou para o Brasil e resolvo escrever uma pequena obra de filosofia da mente, na qual defendo que vou resolver os principais problemas da filosofia da mente. Acontece que o David Chalmers, um dos maiores filósofos da área, pura e simplesmente não vai conhecer o meu trabalho pois nem sequer tem acesso à língua portuguesa. Ora, qual o significado disto? A filosofia, ao contrário dos outros saberes, não tem recurso à experiência para resolver os seus problemas. Essa é a natureza de um problema da filosofia: resolvem-se, discutem-se com argumentos e não com experiências (ainda que em muitas áreas a experiência possa suscitar novos problemas). Se eu não sujeitos os meus argumentos aos filósofos da área, objectando os seus argumentos, como quero ser levado a sério? Como é que posso desejar objectar os argumentos da ética kantiana se não sujeitar os meus argumentos aos outros filósofos da área? É que a filosofia é isto mesmo, não tem outro recurso senão a discussão arguentativa.
De rolandoa a 14 de Agosto de 2008 às 12:05
Não temos muita dificuldade em aceitar pacificamente as regras da gramática do português para podermos comunicar, mas temos muita dificuldade em aceitar que a argumentação também tem a sua gramática, que é precisamente a lógica. Isto acontece porque raramente nos questionamos sobre o valor da gramática. A existência da gramática para comunicarmos de forma mais clara e objectiva é mais ou menos pacífica, mesmo sabendo que não existem gramáticas perfeitas, que não conseguimos expressar tudo aquilo que queremos, que somos mal interpretados, etc. já no que respeita à filosofia movemos um preconceito contra a lógica. Mas isso, garanto, só acontece em academias gastas e pouco produtivas. Tal como o estudo da gramática é considerado essencial para aprender português, o estudo da lógica é essencial para estudar filosofia e isso devia ser pacífico. Somente em alguns períodos menores da filosofia não se atribuiu esta importância fundamental à lógica. E basta ver os desenvolvimentos impressionantes das mais variadas áreas da filosofia que foram impulsionados pelo desenvolvimento da lógica desde Frege.
Espero ter ajudado a clarificar algumas questões
abraço
De Carlos Silva a 21 de Agosto de 2008 às 01:17
Rolando,

Ao visitar, recentemente, a "Novalmedina", em Coimbra, deparei-me com um livro interessante, do meu ponto de vista, para o ensino da lógica. Intitula-se "LOGICA", o seu autor é Juan José Sanguineti, das Ediciones Universidad de Navarra, S.A. (EUNSA).
O manual principia com uma Introdução à lógica como ciência para passar, de seguida, à lógica dos conceitos. A segunda parte aborda a lógica das proposições e a terceira, a lógica do raciocínio. Nesta parte analisam-se, ainda, o silogismo, a indução e os sofismas. O livro termina com um capítulo dedicado ao conhecimento científico.

Boas Férias
Abraço,
Carlos JC Silva
De rolandoa a 24 de Agosto de 2008 às 11:51
Olá Carlos,
Obrigado pela referência, útil sobretudo para os colegas que queiram ler em espanhol e não em inglês. É um bom recurso.
abraço
Boas férias

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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