Sábado, 26 de Julho de 2008

Por que razão comemos galinhas e vacas e não nos comemos uns aos outros?

Digitalizar0001 Peter Singer é dos filósofos da actualidade que mais se parece com Sócrates na antiguidade. E muita boa gente, incluindo, pasme-se, filósofos (maus, é claro) gostariam de condenar Singer ao veneno da cicuta. Mesmo que muito contestado foi-lhe atribuída a cátedra de bioética em Princeton, uma das melhores universidades norte americanas. Singer é interventivo q.b.. Tenho andado na leitura desta obra escrita em parceria com Jim Mason e que procura explorar argumentos que mostrem que as nossas escolhas alimentares no que comemos tem fortes implicações éticas. Aliás este é um trabalho que Singer vem desenvolvendo desde Animal Liberation. Ame-se ou odeie-se Singer é dos filósofos que actualmente mais nos deixa a pensar os argumentos éticos sobre questões tão centrais como o aborto, eutanásia ou direitos morais dos animais não humanos. Nesta obra, Como comemos, os autores partem de estudos empíricos para seguir com uma argumentação consistente sobre a ética na forma como nos alimentamos hoje em dia. Grande parte do paladar sentido no prato é dependente de maus tratos e exploração da vida animal, com consequências a maior ou menor prazo para o ambiente, saúde e, a curtíssimo prazo, para a vida dos animais. Grande parte da obra (são quase 400 páginas) trata da exploração dos estudos de campo levados a efeito para a sua concepção.

Rolando Almeida

Mas, na filosofia também, precisamos de sustentação prática, da vida em estado bruto para podermos reflectir sem psicofodas hipócritas e inconsequentes. Frequentemente tenho ouvido vozes que apontam Singer como um autor levezinho. Essas considerações partem da deformação filosófica que pretende discursos pseudo profundos. Singer é directo quanto aos problemas, mas discute-os com premissas difíceis de abanar e que nos deixa no estado de perplexidade perante os problemas. Além do mais Singer nunca assume o papel do justiceiro da humanidade. Pensa os problemas e expõe-nos de forma clara e muito rigorosa. Para quem se preocupa com o mundo e gosta de pensar pela própria cabeça a obra de Singer é um tiro no alvo, para além de que mostra como as palavras, os livros e, acima destes, os argumentos podem mudar o mundo. Em vez das conversas fiadas em que se defende que a filosofia contribui para o desenvolvimento da cidadania, mais vale mesmo partir para o pensamento em prática, como Singer muito bem nos tem mostrado com os seus argumentos. Devemos-lhe todos muito e talvez no futuro possamos ver como foi errado tratar os animais não humanos como um dia os negros foram tratados vendo os erros morais do especismo.

Peter Singer, Jim Mason, Como comemos, porque as nossas escolhas alimentares fazem a diferença, D. Quixote, 2008, Tradução de Isabel Veríssimo.

publicado por rolandoa às 15:46

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1 comentário:
De Vitor Guerreiro a 27 de Julho de 2008 às 10:12
As pessoas que pensam que autores como Singer carecem de profundidade, mas que gostam imenso de chanfanadas pseudo-poéticas e loas ao Ser e à divindade, que ao cabo de 200 páginas nada afirmaram ou adiantaram ao seu leitor, prende-se com um aspecto particularmente cruel da psicofoda, o aproveitamento das susceptibilidades das pessoas. E a sua capacidade para se autopsicofoderem, uma vez dado o pontapé de saída, ou seja, a influência original que lhes enfiou a série de macaquinhos na cabeça.

Uma destas susceptibilidades é simples de ver: as pessoas acham naturalmente que são muito diferentes das outras e acham que se se exprimirem serão forçosamente muito mais originais que o vizinho, desde que exprimam o fundo do que lhes vai na alma. Só que, alas — as pessoas raramente têm pensamentos interessantes porque isso é algo difícil de fazer, mesmo para quem pense sistematicamente todos os dias, com rigor e coerência. O que acontece então? O confronto com textos de pessoas como Peter Singer gera um efeito semelhante àquele argumento que certas pessoas dão em favor da existência de Deus: se não há Deus, como é possível ter havido génios como Bach ou Beethoven? Claro! Uma das poucas piadas de jeito que o Dawkins fez em The God Delusion foi precisamente esta: as pessoas que são incapazes de compor dois compassos musicais interessantes acham que a existência de génio no mundo é tão ultrajante para a sua originalidade profunda, que a presença de pessoas como Bach só pode ser explicada por milagre ou intervenção divina. Quando se confrontam com textos de filosofia a sério, não necessariamente de génio comparável ao de Bach, as pessoas fazem algo parecido: negam a existência de proficiência no discurso filosófico, desta vez não indexando-a à divindade, mas simplesmente fazendo de conta que não está lá porque admiti-lo é admitir que as chanfanadas de que tanto gostam são pura perda de tempo sem qualquer valor humano, prático, cognitivo ou o que seja.

Ok, estou a exagerar um pouco. Mas será algo por aí. A sensação de pouca profundidade que as pessoas têm ao confrontarem-se com textos como os de Singer não é senão a sua própria ansiedade em que as suas chanfanadas e ridículas dores de alma tenham mais sentido que os problemas palpáveis dos seres humanos na sua maioria, que são o objecto das reflexões de Singer.

Abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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