Domingo, 6 de Julho de 2008

Adoramos ser formais

mr-square-head-500 Vale a pena ler o post do Desidério Murcho no Rerum Natura sobre o formalismo no ensino. Por regra temos uma estúpida tendência a pressupor que para explicar um determinado fenómeno, como o insucesso educativo por exemplo, temos de ter estudos cuja profundidade é inalcançável ao comum mortal. Isto acontece precisamente porque temos impregnada a ideia do formalismo e essa mentalidade é a existente nas escolas portuguesas. O importante é atirar o programa para cima dos jovens estudantes e preencher grelhas e actas. Ler bons livros, estudar, argumentar teses com os colegas, etc. isso não é visto nas escolas como trabalho real, mas como algo de quem não tem nada para fazer na vida. Aliás as bibliotecas das escolas são lugares que servem para castigar os alunos mal comportados e expulsos das aulas, quando deveriam ser lugares animados. As próprias escolas olham para a biblioteca como a prisão, o lugar da punição severa para os infractores. Mas o maior desastre (e não, não estou a cair no dramatismo habitual dos velhos do Restelo) do formalismo é a falta de invenção e criação.

Rolando Almeida

A filosofia é uma disciplina directamente afectada pelo formalismo, apesar que toda e qualquer actividade humana é afectada e violentada pelo formalismo. O formalismo produz actividade vazia e cabeças ocas, uma espécie de repetidores acríticos de ideias feitas, na maior parte das vezes transmitidas com erros graves, pois o formalismo bloqueia a capacidade de pensar autonomamente. É este formalismo que explica aqueles meus colegas de curso que tiravam boas notas mas que nem por isso compravam livros de filosofia e os estudavam. Para tirar boas notas bastava-lhes ganhar calos no dedo de tantos apontamentos que tiravam nas aulas. Se o professor dissesse um disparate, esses colegas registavam tudo tal e qual e repetiam tal e qual no exame final. A estratégia do formalismo é muito simples: imitar o que o mestre diz e a boa nota está garantida. O automatismo destes estudantes era de tal ordem que ainda recordo um colega que se afastava sempre que um outro queria discutir a matéria a ser avaliada. Segundo esse colega afastava-se para que não o confundissem. E este é o retrato do formalismo. Nas escolas portuguesas este é o estilo mais seguido. As pessoas executam tarefas sem pensar muito nelas, mas executam porque mandam executar sem saber muito bem por que razão o estão a fazer. O mesmo se passa na leccionação das matérias. O formalismo é de tal ordem que as aulas são repetição da repetição da repetição. No caso da filosofia repete-se o que alguém disse que Platão disse e, por sua vez, o aluno vai repetir o que o professor disse que alguém repetiu de Platão. Se o fizer escrevendo numa prosa fluente, o mais seguro é que acabe filosofia com 18, mesmo que não seja capaz de juntar duas ideias ou objectar uma tese. O formalismo forma assim uma geração de mortos, amorfos, gente psicofodida, incapaz de executar uma tarefa diferente daquela para a qual foi formatada, gente controlada e sem autonomia, gente mal criada e sem capacidade para gerir, liderar, pensar, etc. para além de tudo – talvez o mais grave – o formalismo contribui de forma decisiva para a reprodução social das diferenças culturais e de riqueza cavando cada vez mais o buraco daqueles que não gozam de acesso ao saber, ao conhecimento e, por conseguinte, à liberdade do pensamento e riqueza material. O formalismo é também uma herança salazarista que devíamos combater se queremos ser adultos e emancipados. E é também o formalismo que nos condiciona a vivermos segundo as decisões de políticos que são umas bestas, incapazes que estamos de tomar iniciativas e decisões.

Agradeço ao Desidério Murcho algumas ideias trocadas sobre este problema.

publicado por rolandoa às 23:26

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4 comentários:
De Anónimo a 7 de Julho de 2008 às 15:28
Quantas vezes foste à biblioteca este ano? Ai ai
De rolandoa a 7 de Julho de 2008 às 16:42
Caro anónimo,
Provavelmente fui poucas. Mas essa pergunta deve ser feita aos meus alunos. Não foram lá por castigo, mas consultar os livros que a escola comprou para fazerem os seus ensaios argumentativos ;-)
abraço
De Isabel a 8 de Julho de 2008 às 23:26
Não concordo com o que escreve àcerca das bibliotecas escolares. Hoje, quase todas as escolas têm bibliotecas renovadas. São espaços onde os alunos se sentem bem. Há equipas de professores que desenvolvem actividades deveras interessantes. Veja alguns blogs de alunos que fazem parte dessas equipas e talvez a ideia que tem das bibliotecas escolares, se altere. (Confesso que não li o artigo todo)
Isabel
De rolandoa a 9 de Julho de 2008 às 00:01
Olá Isabel,
De acordo. Talvez seja exagerado o meu comentário. E talvez seja residual o número de escolas que usam a biblioteca para fazer cumprir os castigos aos alunos. O meu comentário é uma análise empírica baseada na minha experiência e talvez fosse justo que eu o tivesse expresso dessa forma. Fica o reparo aqui neste comentário.
Obrigado

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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