Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

Leituras na praia

cadeira-de-praia Não devo ser a melhor pessoa para sugerir leituras de verão, por uma razão especial: é que, em férias quase não leio nada, nem jornais. Se tiver a sorte de viajar (o que não é o caso infelizmente este verão) então alheio-me completamente do país, das leituras, da filosofia (bem desta não sei mesmo se me alheio assim tão completamente). No verão gosto mesmo de ser acompanhado de 1 ou 2 discos dos Flaming Lips, 10 T-shirts, uns calções e uns ténis daqueles que deixam entrar o ar (detesto sandálias). Leia ou não, faço-me acompanhar de livros e acabo sempre a comprar um ou dois por onde passo. Não sei se posso universalizar este meu espírito de verão, mas creio ser mais ou menos universal a ideia de que no verão, para aqueles que estão de férias, não pegamos na Crítica da Razão Pura, mas em coisas menos técnicas. Vou tentar fazer algumas recomendações de leituras menos sofisticadas para umas férias mais filosóficas. Não poderei escolher obras recentes porque, pura e simplesmente, os últimos meses não trouxeram nada de relevante a não ser a reedição pelos jornais Público e JN de obras clássicas da filosofia.

Rolando Almeida

340x255 agostinho2 quebrar_o_feitico A edição de livros de filosofia de carácter de divulgação está num marasmo impressionante, não fossem as colecções da Bizâncio e da Filosofia Aberta a salvar o barco do afogamento total. Sei que a Esfera dos Livros editou recentemente duas obras que podem ser interessantes, Woody Allen e a filosofia e os Monty Pyton e a filosofia. Alguém os leu? Gostava de saber se são bons livros, dado que não os comprei. A primeira metade de 2008 é mesmo para esquecer. Esperemos que a segunda metade nos revele algumas surpresas. Sei, pela revista Crítica que se avizinha a edição de obras muito interessantes, tanto na Gradiva, como na Bizâncio. Até lá estamos a marinar. Ao mesmo tempo somos confrontados com números impressionantes de obras publicadas em língua inglesa, com as mais variadas opções. Mas nem tudo está perdido, temos motivo para dizer que temos pouco mas bom nesta primeira metade de 2008. Não vou divulgar aqui obras em língua inglesa, mas somente aquelas que me parecem as edições mais significativas em língua portuguesa e lançadas em 2008. Provavelmente estou a omitir uma ou outra, mas como este blog possui bastante interactividade, o leitor está sempre habilitado a fazer uma chamada de atenção para alguma omissão minha, o que agradeço antecipadamente. Só para aborrecer aqueles que gostam de lançar pedras sempre que se fala em manuais, uma boa sugestão desta primeira metade de 2008 seria a leitura do manual, a Arte de Pensar 11 (Didáctica, 2008). Aliás, a edição deste manual tratado para livro de venda ao público geral não é completamente descabida. Não temos nada igual no mercado português, muito menos de autores portugueses, pelo que existe esse vazio. Se quero oferecer um livro de filosofia a um amigo que o possa cativar sem maçar muito com discurso técnico, seria a prenda ideal, ainda que tenha uma ou outra obra de autores estrangeiros, como a do Kolak e a do Warburton ou Nagel. Então, mas e o que vamos levar para a praia, a acompanhar o balde de areia e as pazinhas? 3 livros:

Daniel C. Dennett, quebrar o feitiço, a religião como fenómeno natural, Esfera do Caos

Gareth B. Matthews, Santo Agostinho, Ed. 70

Peter Singer, Escritos sobre uma vida ética, D. Quixote

Temos então motivo para pensar que o mundo não está perdido. Uma obra de filosofia da religião para começar. Ainda que não seja uma obra de introdução, não é um livro muito sofisticado, pelo menos não abusa de linguagem técnica nem tem referências para o umbigo dos académicos. Além do mais Dennett é um pensador muito mais elaborado que Dawkins, por exemplo, que é cientista.

O livro de Gareth B. Matthews é a obra que me fez regressar ao santo. Sem esta obra provavelmente tão cedo não pegaria na filosofia de Santo Agostinho. Recordo quando li este livro que o que me ficou mais na consciência é o pioneirismo e originalidade de pensamento do santo, tendo levantado problemas filosóficos ainda hoje com muitos motivos de investigação. Após ter lido esta pequena obra nunca mais posso dizer que não gosto dos santos.

Finalmente, no meio da areia, no seio do próprio planeta e de todos os seus problemas, está Peter Singer neste best of que são os escritos sobre uma vida ética. É uma obra que compila os principais argumentos deste filósofo sobre problemas da ética aplicada que vão desde a pobreza, ecologia, eutanásia, aborto, etc. Ame-se ou odeie-se é incontornável a ideia de que Singer nos deixa a pensar seriamente sobre estes problemas. Por norma gostamos de ter as nossas ideias arrumadas sobre estes problemas e não os discutimos muito. Por essa razão é que as palavras de Singer são incomodativas, porque nos oferece razões para pensarmos de outros modos, com outras premissas que não aquelas que julgávamos, à partida, tão segurinhas. Em Singer nunca encontramos uma linguagem muito técnica, mas encontramos sim um desafio intelectual para os nossos preconceitos tão queridos. É uma forma de – na praia – acordarmos para o mundo.

Boas leituras e boas férias.

publicado por rolandoa às 16:36

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1 comentário:
De Vitor Guerreiro a 3 de Julho de 2008 às 10:31
Tenho outra recomendação para as pessoas, embora esta seja um clássico literário que nunca me canso de elogiar: As Aventuras do Valente Soldado Svejk, do Yaorslav Hasek. O mano que na Praga do império austro-húngaro teve a audácia de fundar o Partido do Progresso Moderado Dentro dos Limites da Lei, com um grupo de amigos. É surpreendente como estes gestos de gozo com a ideologia - venha ela do estado ou das forças que querem ser estado - nunca perdem a frescura.

A tradução da Vega não tem todos os contos sobre as aventuras do Svejk, mas em contrapartida tem uns contos anteriores do Hasek, passados durante a guerra civil russa, que são de cair para o chão a rir.

Abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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