Sábado, 28 de Junho de 2008

O assassinato da Filosofia

2085805089_cd84bbf014_o O colega Carlos Silva que tem colaborado neste blog activamente com sugestões na secção de comentários, deixou este texto do Público que merece destaque. Agradeço ao Carlos ter passado o texto.

A Filosofia no ensino secundário é uma disciplina decorativa. Sem importância. Morta à nascença Vai realizar-se no próximo mês de Julho, em Seul, na Coreia, o Congresso Mundial de Filosofia, organizado pelo FISF, organismo que concentra as sociedades dos professores de Filosofia do ensino secundário e do ensino universitário de todo o mundo. Tem a marca da globalização. É um encontro de tradições pedagógicas, de reflexão sobre a natureza e o papel da Filosofia na sociedade. Mostra o interesse dos vários países pelo problema. Mostra o que é evidente: o carácter vivo e actuante da Filosofia. O seu lugar insofismável na formação da mentalidade. Assim acontece no mundo. E em Portugal? Em Portugal assiste-se ao inédito. Pela primeira vez em mais de um século (desde a reforma de Jaime Moniz, em 1895) destruiu-se decisivamente a Filosofia no ensino secundário. Podemos recuar mais atrás, a 1844, e mesmo aos Estudos Menores, criados pelo marquês de Pombal em 1799. Estudos onde figurava a disciplina de Filosofia Racional. Servia de acesso aos Estudos Maiores. Neste quadro de interesse global já referido, lembra-se também que a UNESCO instituiu o dia 15 de Novembro como Dia Mundial da Filosofia, congregando 36 nações. E em Portugal? Em Portugal desvaloriza-se o exercício do pensamento, o rigor da análise, a descoberta de paradigmas e de valores, a discussão de problemas, a formação do espírito crítico, a reflexão sobre a aventura humana, parâmetros específicos da Filosofia e do seu ensino. Sabe-se que a finalidade do estudo em qualquer disciplina não é o exame. Mas também se sabe que, na prática, se não houver exame, os alunos não se interessam. Não estudam convenientemente. Residual e em vias de extinção a Filosofia no 12.° ano. Obrigatória no 10.° e 11.° anos mas não sujeita a exame nacional. "Para que serve?" pensam os alunos. É uma disciplina decorativa. Sem importância. Morta à nascença. Ainda se rege Filosofia na universidade nalguns cursos, cada vez mais despovoados. Com este vazio no ensino secundário, acabará de vez. O sucesso escolar não é gratuito. Depende de currículos apropriados, mas depende sobretudo de cabeças bem-feitas, treinadas numa apurada e progressiva ginástica mental, no exercício da abstracção, da comparação, do dissecar analítico. Esse exercício cabe especificamente à Filosofia. No limite, pela depuração que exige e supõe, aproxima-se da Matemática. Não é por acaso que grandes filósofos de referência (de Pitágoras a Descartes, de Leibniz a Russell) foram matemáticos. Tirar aos jovens esta ginástica mental é criar o caos. Multiplica-se no mundo a presença e o interesse pela Filosofia. Em iniciativas globais. De Paris a... Seul. Em Portugal, desvaloriza-se até a morte.

In. Público, Maria Luísa Guerra – 2008-06-28

publicado por rolandoa às 17:41

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6 comentários:
De Paulo Rolim a 29 de Junho de 2008 às 16:07
Concordo em geral com tudo aquilo que se diz no artigo. Penso realmente que o ensino da Filosofia está no fim. É normal que assim seja, pois quem nos governa não se põe em causa, logo nunca perceberá uma só linha de Filosofia e, consequentemente, não vislumbra qualquer necessidade de financiar uma disciplina que "não serve para nada". Acrescentaria mesmo mais: o ensino da Filosofia já morreu! Estamos ou queremos estar convencidos do contrário, até porque isso nos dá ainda imenso jeito.
Já não concordo absolutamente com a ideia de que uma disciplina, para ser digna, tenha que ter um exame nacional obrigatório. Aliás, estou em crer que é facilmente compreensível que esse argumento é um dos que mais tem destruído o ensino da disciplina. Algumas cabeças pensantes esvaziam a oportunidade da Filosofia querendo arranjar uma utilidade para a disciplina. Ora, a sua utilidade é justamente não ter uma utilidade directa e, assim sendo, servir para pôr em causa a avaliação formatada e igual para todos. O único argumento a favor da avaliação nacional é o de que, dessa maneira, os professores, no seu conjunto, preocupar-se-iam em dignificar o ensino da Filosofia e não fazer daquilo algo de absolutamente insuportável!
Caso contrário, até uma boa oportunidade para nos distanciarmos daqueles outros nossos colegas que enviesam o ensino para o exame e que depois ficam pasmados com o próprio exame. Ou porque não o sabem resolver ou porque é demasiado fácil e, portanto, arriscam-se a ter uma notas de exame que põem em causa as notas da frequência.
Os exames têm sido uma verdadeira palhaçada! É isso que queremos para a nossa disciplina?
E se nos preocupássemos em tornar os programas atractivos? Que tal se eles fossem mesmo de Filosofia? E se nos preocupássemos em dignificar a disciplina?
Concretizo: acompanhei há algumas semanas a discussão tão bem trazida para este blog sobre os manuais escolares. Para além da bizarria de algumas discussões escolásticas, penso que ficou bem patente a aversão da adopção de manuais que fazem pensar não só o aluno, mas o professor antes de dar uma aula. O professor de Filosofia não é aquele que olha para a badana de um livro para poder dar a aula recitando o manual. Será antes aquele que pensa na aula e percebe que o manual é um instrumento de apoio para o aluno.
Prepare-se, colega Rolando, quando os seus rebentos chegarem ao secundário, e se ainda houver Filosofia, ou tem muita sorte ou até a si lhe vai apetecer acabar com ela!
E se começássemos por aí e deixássemos a questão dos exames a quem quer fazer aquelas tristes figuras da nossa inefável ministra?...
De rolandoa a 29 de Junho de 2008 às 19:44
Olá Paulo,
Não concordo com o texto, mesmo que o tenha publicado (atenção que o texto não ´meu). O texto está num tom muito dramático, o que é habitual nos textos de crítica dos jornais. Creio que o esvaziamento do ensino é geral, por essa razão tanto morreu a filosofia, como a matemática, física ou química. E isto é um problema geral do ensino. A melhor forma de defendermos a filosofia e o seu ensino é optar por bons manuais, ensiná-la com rigor e clareza e não aquelas tretas que muitas vezes observamos. Caso contrário só estamos a ajudar para o enterro.
abraço
De Carlos Silva a 29 de Junho de 2008 às 20:17
Rolando e Paulo Rolim,

Uma constatação: a disciplina de Filosofia viu a sua importância do ponto de vista formal, pelo menos, diminuída.
Vejamos: até há bem pouco tempo os candidatos a Direito, por exemplo, precisavam de se submeter ao exame nacional de Filosofia no 12.º ano.
Este facto fazia com que muitos alunos se inscrevessem nesta disciplina no 12.º ano.
Entretanto, sem se saber bem o motivo, deixou de ser assim.
A consequência está à vista: A Filosofia quase desapareceu no 12.º ano.
Deixo aqui uma pergunta: terá sido esta medida ingénua?
Para além da consequência acima referida, esta medida poderá diminuir o n.º de candidatos à Filosofia no ensino superior. E, por este andar, não admira que mais cursos superiores de Filosofia venham a fechar as portas, entrando, assim, num círculo vicioso.
A ver vamos....

Carlos JC Silva
De rolandoa a 29 de Junho de 2008 às 21:19
Carlos,
Há um aspecto que eu não consigo compreender: é que grande parte do desprestigio da disciplina é culpa própria. O que é que se esperava da filosofia no 12º ano com o programa que se estabeleceu? O programa da disciplina foi um dos grandes responsáveis pelo gradual abandono. Nem os professores gostavam de leccionar aquele programa sem rei, nem rock.
abraço
De Paulo Rolim a 29 de Junho de 2008 às 23:41
Caros Rolando e Carlos,
É evidente que, em grande medida, tudo isto é por culpa própria.
Não concordo entretanto com essa crítica tão feroz ao programa do 12º Ano. Até era uma boa ideia! Pena é que, ao dar tanto trabalho, muitos de nós tivéssemos optado por torná-lo num autêntico xarope. Quem concebeu tal programa esqueceu-se que os jovens de hoje têm muito poucos hábitos de leitura, o que torna particularmente penosa a tarefa de conseguir convencer a malta desta idade que ler uma obra filosófica não é decorar um livro de interpretação, mas pensar sobre ela. O programa não era concebido para exame nacional. Não obstante, sempre que o leccionei e lecciono, não deixo de achar uma experiência interessante. Penso aliás que o erro está mais na (des ) ligação com os 10 e 11º Anos do que em si próprio. A mensagem torna-se muito confusa.
Tem o Carlos muita razão quando refere que a disciplina perdeu importância pelo facto de ter deixado de ser específica para Direito, por exemplo, e que isso irá provocar o fim de muitos cursos de Filosofia. É bem verdade. Mas lembra-se quem se mexeu mais contra essa situação? Terão sido os próprios professores de Direito! Muitos dos de Filosofia calaram-se. Talvez seja mais fácil não levar os alunos a exame! Todos nós nos lembramos de algumas iniciativas que mais não tiveram que meia dúzia de participantes.
Não concordo com essa ideia que a disciplina sofreu o mesmo esvaziamento do que outras. Sob um ponto de vista científico estou de acordo, mas, sob o ponto de vista social/pedagógico, de maneira nenhuma. É evidente que a nossa disciplina foi sendo progressivamente asfixiada e que as divagações sobre saberes fundamentais e estruturais estão erradas. Nós sabemo-lo , mas muitos outros não! Daí que se vá passando neste Portugal tão atrasado a tão anacrónica ideia positivista.O jeito provinciano com que o nosso (des )governo se envaideceu quando fez o acordo com o MIT fez esconder que justamente nesse instituto a Filosofia é uma das mais prestigiadas áreas. Enviesa-se o discurso e esquece-se aquilo que os países mais desenvolvidos já redescobriram: o valor da Filosofia!
Parece-me que a nossa disciplina ainda lá está meramente por herança e tão só de nome. Teremos nós ainda uma palavra? Estou de acordo com o Rolando: temos que trabalhar e bem! Abraço
De rolandoa a 30 de Junho de 2008 às 00:01
Pailo,
Estou de acordo que o programa do 12º possa acabar por ser uma experiência lectiva interessante para nós. O problema que coloco em causa no programa do 12º ano é o seguinte: a divisão de escolha das obras por época é uma opção errada. Seria muito mais correcto se a selecção das obras fosse feita em torno de problemas. Dou um exemplo. Vamos supor que uma das propostas do programa seria leccionar filosofia política, como poderia ter a opção de leccionar filosofia da religião ou filosofia da arte. A ideia é trabalhar um problema da filosofia política, como por exemplo, o problema da justificação do estado. Podia trabalhar-se sobre obras como a Carta sobre a tolerância do locke e o sobre a liberdade do Mill, ou outros que colocassem os problemas em confronto.Se a opção fosse a ética podia trabalhar-se obras como a fundamentação de kant em confronto com o utilitarismo do Mill. E isto é que permitia aos professores ensinar os estudantes a fazer filosofia e a pensar ela própria cabeça. A divisão por épocas o que trouxe foi o estudo de 3 obras sem qualquer discussão entre elas ou conexão nos problemas. A divisão histórica não deve ser critério em filosofia. Por essa razão também considero que o programa tem uma boa base, mas foi mal executado. A filosofia torna-se muito mais interessante quando anda em torno de problemas. É para isso que ela existe.
Sim, quando falei do esvaziamento é mesmo dos conteúdos. Claro que é indiscutível que a matemática goza de mais prestigio social do que a filosofia.
Abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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