Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Exames fáceis

schoolexamREX_468x360 Está instalada a polémica dos exames. Anualmente na altura dos exames temos polémica e sempre que se fala em Ministério da Educação temos polémica. E temos polémica precisamente porque sendo a educação um sector social vital, é também aí que se assiste a reformas umas atrás das outras sem resultados positivos. O ME em exercício só tem aprofundado os problemas, mas com umas limpezas de cosmética invulgarmente ditatoriais. Já se sabe de antanho que o ME resolve implementar exames, medidas e reformas ignorando as sociedades científicas, o que já de si é uma atitude muito estranha. Não sei o que se passa dentro daqueles corredores mas já dá para adivinhar a atitude de desresponsabilização, apontando o dedo aqui e ali, a professores e pais e a quem valha, quando se trata de resultados.

Rolando Almeida

Claro que o ME não pode acabar com o ensino de uma vez. Mas tem de apresentar resultados. Aliás, qualquer cabeça com meio palmo de testa percebe a urgência com que a actual ministra aparece nos ecrãs televisivos a apresentar resultados. Vamos supor uma situação: eu tenho as minhas turmas de alunos com maus resultados. A análise desses maus resultados permite-me concluir que vem de trás, isto é, são alunos muito mal preparados nos anos anteriores, de modo que se torna tarefa quase impossível exercitá-los no espaço de um ano. Não existe solução para estes alunos. A melhor solução seria refazerem toda a escola outra vez. Estão mal preparados, não dominam nem conteúdos, nem competências básicas, ponto. O bom senso possibilita-me pensar que se deve aprender com os erros e, de imediato, começar a implementar reformas logo no 1º ciclo de ensino para evitar perpetuar gerações de alunos mal preparados. Uma das reformas a ter em consideração é precisamente a implementação de exames de final de ciclo, que motiva por si só os estudantes a trabalharem mais, mesmo em tenra idade. Bom mas perante a situação em que o mal já está feito, que fazer? Não faz grande sentido chumbar sistematicamente os alunos. Na verdade, aqui a ministra tem razão. A escola não oferece nada ao estudante quando o chumba. Mas também lhe oferece muito pouco se o passar gratuitamente, como se a escola fosse anos de frequência mesmo sem qualquer trabalho. Deste modo facilmente percebemos um aspecto que me parece central: é que o problema não é chumbar ou passar alunos. Para isso bastam medidas fáceis, como fazer exames sem grande nível de exigência ou pura e simplesmente eliminá-los, como foi feito ao exame de filosofia (curiosamente um exame em que o número de chumbos era muito baixo). A solução está em mudar as práticas de ensino. Mas como é que isto se faz? O primeiro aspecto a ter em conta é que isto não se faz da noite para o dia, pelo que jamais a ministra poderia, se quisesse mexer na qualidade educativa, vir para as TVs vangloriar-se dos sucessos obtidos em apenas alguns meses. E a primeira coisa a mexer é nos programas de ensino reformando-os. O que os programas de ensino tem de errado é que pressupõem que o estudante pode desenvolver competências sem aprender conteúdos, de forma que os conteúdos foram gradualmente desvalorizados. É fácil ver que um exame contempla conteúdos e daí o espalhanço dos estudantes. Por outro lado, o professor, após terminada a sua licenciatura, vê-se a braços com imensa burocracia que contempla competências sem conteúdos. Perde todo o tempo aí e rapidamente aprende que estudar é coisa pouco importante para ser professor, quando deveria ser central. O plano de formação dos professores até é bem pensado, mas na prática são aos milhares aqueles que se vêm na obrigação de fazer formação, por exemplo, como eu, em Powerpoint (que é uma ferramenta que sei usar na perfeição) para ganhar horas de formação dado que não existe formação na sua área de ensino ou é muito raro aparecer. Mas existem carradas de formação nas áreas da psicologia da educação com os nomes habituais como “Motivação do aluno”, “relação pedagógica”,”introdução à pintura de azulejos”, etc. um programa, seja de que disciplina for, bem organizado segundo conteúdos precisos e objectivos, contemplando uma linguagem clara, rigorosa e despretensiosa possui múltiplas vantagens: motiva muito mais os estudantes, motiva muito mais os professores e o trabalho em equipa, possibilita a realização de exames sem grandes atropelos. Mas para desenvolver um ensino com qualidade é necessária a tal reforma curricular, que não se faz com dezenas de medidas em cima do joelho, mas com pequenas reformas. Daqui a 5, 10 anos podemos, então, falar em resultados, uma vez que são os meninos de agora que daqui a uns anos acabam o ciclo de estudos obrigatório legalmente. O que se está a fazer é o contrário disto: está a facilitar-se a tarefa temendo que os alunos fujam da escola se o que lá aprendem for difícil. Mas esta ideia é errada. O que se aprende na escola não é mais nem menos difícil do que se aprende na globalidade da vida. Tem é os seus métodos próprios que devem ser exercitados desde cedo e que desenvolvem determinadas capacidades que - na vida e sem a escola - se tornam, para a maioria das pessoas, mais difícil desenvolver. Capacidades de raciocínio, leitura, compreensão, que não são mais do que competências desenvolvidas pela aprendizagem de conteúdos. Pessoalmente não tenho uma visão radical do trabalho que está feito com os programas e currículos de ensino básico e secundário, pelo que considero que não se deva esperar revoluções. Mas faz sentido fazer reformulações apertando com os conteúdos próprios das disciplinas, em vez da conversa da treta que muitos programas incentivam. Por outro lado não faz sentido a substituição de disciplinas nucleares para proveito de outras como áreas de projecto e afins. Estas são disciplinas complementares e não centrais e a prová-lo estão os programas que são, na sua grande maioria, desprovidos de conteúdos próprios, uma vez que não se tratam de ciência ou corpo de conhecimentos com o mínimo de organização. Sem exigência a ideia que se passa da escola é que é para aleijados e incapazes, como muitas vezes se tem passado em relação ao ensino profissional. O ensino profissional não tem de ser para os alunos fracassados, mas a realidade é que aparece ainda como 2ª opção para uma grande maioria de alunos. Pela experiência que tenho de ligação ao ensino profissional, a grande maioria dos alunos só tem essa opção após 1 ou 2 ou 3 anos de fracasso no ensino regular. Basta observar a média de idades dos alunos dos cursos profissionais. Claro que, palavra puxa palavra e cada vez mais alunos optam pelo profissional, não propriamente em busca de uma profissão que em muitos casos não vão exercer, mas em busca da tal facilidade. Os currículos não tem de ser opção por serem mais fáceis, mas por serem diferentes e desenvolverem nos estudantes outras capacidades e competências. Muitas vezes ouço dizer que as avaliações são altamente subjectivas muito dependentes do professor. Mas só o são, não por causa da vontade do professor, mas mais pela subjectividade que os programas suscitam e, por conseguinte, o modo como testes e exames são feitos em função disso. Um workshop sobre avaliação bem pensado coloca a nú precisamente esta realidade. No único workshop que fiz sobre avaliação, um mesmo teste, dava nas mãos de um professor 16 e, nas mãos de outro, 6. Isto significa que o estudante está lançado à arbitrariedade do professor. «Se vai com a minha cara, tiro boa nota, se não vai, não tiro». Os professores mais empenhados (uma boa maioria neste aspecto, diga-se) organizam os seus próprios sistemas de avaliação consoante as turmas que têm. Mas se um colega não o quiser fazer, não o faz. E não se pense que a avaliação de professores contemplada no novo ECD vem mexer neste ponto, visto que há inúmeras formas de contornar e iludir. Um ME que pretende avaliar professores deveria ser capaz de avaliar em 1º lugar os programas com um trabalho rigoroso e firme. Depois contemplar exames em todos os ciclos em consonância com esses programas. Finalmente tinha à disposição instrumentos para implementar uma avaliação aos docentes que não caísse na arbitrariedade tola que a que se propõe cai. Qualquer político empenhado poderia: 1) apresentar bons resultados, 2) trabalhar em consonância com a classe docente e sindicatos, 3) melhorar o sistema educativo. E, por outro lado 1) os alunos não fugiam tanto da escola dada a utilidade do que lá se aprende, 2) o mercado de trabalho valorizaria mais a escola, 3)aumenta-se o interesse, diminui-se o stress , violência e outros fenómenos.

Para melhorar a educação são necessárias duas ou três ideias simples, que se vão construindo de governo para governo. Esta trapalhada do ME em nada vai contribuir para melhorar. É capaz de mudar um pouco a mentalidade nas escolas, mas para pior degradando o clima entre professores, professores e alunos e professores, pais (como se observa com o inconsequente presidente da CONFAP, munido de interesses políticos e financeiros).

Mesmo que não existam – nem vão existir – estudos que mostrem se os exames são fáceis ou difíceis, temos algumas razões para pressupor que talvez este não seja um rumo muito bom a dar no plano educativo. Mas vamos ver.Não queria ser muito pessimista e espero não ter razão.

publicado por rolandoa às 14:48

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6 comentários:
De Carlos Silva a 25 de Junho de 2008 às 13:51
Rolando,

Pode, o "sistema", facilitar a vida aos alunos, no presente. Como parece acontecer. Mas isso é pura ilusão. A ilusão de que tudo é fácil, de que não é preciso (grande) esforço para se atingirem as metas. Além do mais, esta ilusão, como qualquer outra, é perversa. Primeiro, porque desmotiva, desmobiliza energias da parte de quem pretende obter bons resultados, nivelando, tudo, por baixo. Segundo, porque desvirtua a realidade, não contribuindo para a socialização, para a inserção na vida activa, tarefa a que a escola não pode deixar de servir. É que esta (a vida activa), ao contrário do que supostamente o tal "sistema" defende, não se coaduna com facilitismos. Aqui impera a selecção. Neste sentido, reitero a ideia de ilusão, de falsas expectativas.
Não espantará nem escandalizará a previsão de que, num futuro (próximo), as entidades empregadoras questionem a proveniência dos certificados de habilitações, como já acontece(u), aliás, com os diplomados em Direito.
Se Portugal pretende acompanhar os países mais desenvolvidos não poderá enveredar pela filosofia do facilitismo.
Todos somos, creio, a favor da democratização da escola e do ensino. Mas de uma escola com algum grau de exigência e rigor. Não de uma escola "massificada", em que o único valor a considerar pelo poder político é a demagógica e fria estatística. Não será, seguramente, isso o que a sociedade civil espera da escola nem do poder político.

Carlos JC Silva
De rolandoa a 25 de Junho de 2008 às 16:11
Carlos,
Em poucas palavras traduziu bem a situação. Subscrevo o que diz integralmente. Pelo menos vamos estando atentos ao que se vai passando.
Abraço
De Juliana Gama a 27 de Junho de 2008 às 19:30
Olá,
Conheci o seu blog através de um link na comunidade "Ensino de Filosofia" do orkut. Achei muito interessante e gostaria de saber se posso criar um link dele no meu blog, que também trata de assuntos referentes ao ensino de Filosofia.
Abraços.
De rolandoa a 28 de Junho de 2008 às 14:21
Olá Juliana,
Agradeço a visita ao blog e claro que pode linkar. Só lhe agradeço. Passarei também pelo seu blog, a fim de trocar ideias e experiências.
obrigado
De Carlos Silva a 28 de Junho de 2008 às 16:11
Rolando,

Aproveito para divulgar, se me permites, o artigo do "Público", de Maria Luísa Guerra – 2008-06-28


O assassinato da Filosofia

A Filosofia no ensino secundário é uma disciplina decorativa. Sem importância. Morta à nascença Vai realizar-se no próximo mês de Julho, em Seul, na Coreia, o Congresso Mundial de Filosofia, organizado pelo FISF, organismo que concentra as sociedades dos professores de Filosofia do ensino secundário e do ensino universitário de todo o mundo. Tem a marca da globalização. É um encontro de tradições pedagógicas, de reflexão sobre a natureza e o papel da Filosofia na sociedade. Mostra o interesse dos vários países pelo problema. Mostra o que é evidente: o carácter vivo e actuante da Filosofia. O seu lugar insofismável na formação da mentalidade. Assim acontece no mundo.
E em Portugal? Em Portugal assiste-se ao inédito. Pela primeira vez em mais de um século (desde a reforma de Jaime Moniz, em 1895) destruiu-se decisivamente a Filosofia no ensino secundário. Podemos recuar mais atrás, a 1844, e mesmo aos Estudos Menores, criados pelo marquês de Pombal em 1799. Estudos onde figurava a disciplina de Filosofia Racional. Servia de acesso aos Estudos Maiores. Neste quadro de interesse global já referido, lembra-se também que a UNESCO instituiu o dia 15 de Novembro como Dia Mundial da Filosofia, congregando 36 nações.
E em Portugal? Em Portugal desvaloriza-se o exercício do pensamento, o rigor da análise, a descoberta de paradigmas e de valores, a discussão de problemas, a formação do espírito crítico, a reflexão sobre a aventura humana, parâmetros específicos da Filosofia e do seu ensino.
Sabe-se que a finalidade do estudo em qualquer disciplina não é o exame. Mas também se sabe que, na prática, se não houver exame, os alunos não se interessam. Não estudam convenientemente. Residual e em vias de extinção a Filosofia no 12.° ano. Obrigatória no 10.° e 11.° anos mas não sujeita a exame nacional. "Para que serve?" pensam os alunos.
É uma disciplina decorativa. Sem importância. Morta à nascença. Ainda se rege Filosofia na universidade nalguns cursos, cada vez mais despovoados. Com este vazio no ensino secundário, acabará de vez.
O sucesso escolar não é gratuito. Depende de currículos apropriados, mas depende sobretudo de cabeças bem-feitas, treinadas numa apurada e progressiva ginástica mental, no exercício da abstracção, da comparação, do dissecar analítico. Esse exercício cabe especificamente à Filosofia.
No limite, pela depuração que exige e supõe, aproxima-se da Matemática. Não é por acaso que grandes filósofos de referência (de Pitágoras a Descartes, de Leibniz a Russell) foram matemáticos. Tirar aos jovens esta ginástica mental é criar o caos. Multiplica-se no mundo a presença e o interesse pela Filosofia. Em iniciativas globais. De Paris a... Seul. Em Portugal, desvaloriza-se até a morte.



Público, Maria Luísa Guerra – 2008-06-28

De rolandoa a 28 de Junho de 2008 às 17:42
Carlos,
Fico muito agradecido pelo texto. Publiquei-o em post para lhe dar mais destaque. Espero que não te importes.
Abraço e obrigado uma vez mais

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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