Sábado, 21 de Junho de 2008

Podem as máquinas pensar?

Digitalizar0001 « Stu: Estou a ver que te sentes confiante, o que é óptimo. Admito que não fui muito longe; mas, afinal de contas, sou apenas um estudante -- é verdade que sou um estudante de matemática, mas ainda assim sou apenas um estudante. Por outro lado, és um professor de filosofia. Este não tem sido por isso um debate justo. Conheço um professor de matemática que tenho a certeza que pode lidar contigo mais em pé de igualdade. Já discuti com ele este problema da mente/máquina e posso assegurar-te que ele não é nenhum simpatizante do mecanicismo. Na verdade, ele disse-me várias vezes que conhece uma refutação matemática do mecanicismo. Estás disposto a encontrares-te amanhã connosco, para ver se podes refutar a refutação dele? Ou só discutes com estudantes?

Phil: Tal como deves saber, nós filósofos investigamos a verdade até onde essa investigação nos conduzir -- mesmo que nos conduza a um professor de matemática. Traz-me lá então o teu professor de matemática. » p.28

Peguei esta tarde neste livrinho da colecção Filosofia Aberta. Lê-se bem porque está em forma de diálogo, para além de que é um texto curtíssimo. Não pegava neste livro, publicado pela Gradiva no ano de 1996, já há muito tempo, mas foi um reencontro feliz pois pude verificar uma série de aprendizagens realizadas. Confesso que na altura em que li o livro pela primeira vez não sabia da maior parte das teorias apresentadas para resolver o problema de saber se as máquinas podem ou não pensar tal como os seres humanos. É uma leitura refrescante e uma forma muito prática de nos confrontarmos com o problema e as suas diversas teorias. A passagem que escolhi ilustra bem das capacidades deste livrinho que anda injustamente meio esquecido por aí nos escaparates das livrarias. O leitor não deve ficar assustado com as elucidações matemáticas que aparecem ao longo do diálogo, dado que a linguagem não é técnica e torna acessíveis teorias como a dos teoremas de Godel. Vale mesmo a pena ler, tanto mais que dada a sua estrutura de diálogo, o livro lê-se de um fôlego só.

Paul T. Sagal, mente, homem e máquina, Gradiva

publicado por rolandoa às 14:02

link do post | favorito
2 comentários:
De Vitor Guerreiro a 21 de Junho de 2008 às 18:43
A pergunta "pode uma máquina pensar?" tem um problema na sua formulação: sugere que "by default" as coisas que conhecemos e que são capazes de pensar (as nossas mentes) não são máquinas. Só parece surpreendente que uma máquina pense se partirmos do princípio que o pensamento não está de modo algum ligado aos poderes causais de um determinado arranjo físico de células e órgãos, isto é, de uma máquina. Quando a hipótese da máquina pensante nos choca, o que está na verdade a acontecer é que jogamos com os sentidos pejorativos das palavras mas não estamos a pensar de facto. Pensar implica levar a sério as proposições, os argumentos, as conclusões, e não o modo como as palavras que usamos para exprimir proposições soam, o seu colorido, etc.

É engraçado que quando vemos uma pessoa ficar chocada com a hipótese das máquinas pensantes, a sua motivação é normalmente repugnar-lhe a ideia de que não há diferença entre a sua mente e um computador. Contudo, como o texto do John Searle "Minds Brains and Programs" explora muito bem, o projecto da IA (inteligência artificial) forte é dualista e não fisicalista: nas simulações computacionais tudo depende de um programa formal que pode ser instanciado numa variedade de sistemas físicos (o quarto chinês é um exemplo de sistema físico onde o mesmo programa é instanciado). No fisicalismo ou no materialismo acerca da mente, tudo depende da máquina (arranjo de células e órgãos, a física e a química do cérebro) e não do programa formal. Além disso, as simulações computacionais não conseguem dar conta da semântica, mas apenas da sintaxe. Os programas de computador, por mais sofisticados que sejam, não passam de instrucções sequenciais que manipulam símbolos sem "saber" que o fazem. Fazem o mesmo que eu faria, que não sei patavina de chinês, se estivesse dentro de um quarto fechado, a receber papéis com caracteres chineses que contam uma história, tendo comigo instruções em português para relacionar símbolos chineses de acordo com o seu aspecto. Eu aplicaria as regras, e devolveria símbolos chineses pela mesma entrada através da qual me passavam os caracteres chineses originais, dando a entender a quem está fora do quarto que percebo tudo o que me dizem em chinês. Isto mostra que um programa formal não pode dar conta da semântica.

Claro que o assunto não fica por aqui...

Abraço
De rolandoa a 21 de Junho de 2008 às 18:53
Olá Victor,
Pois tens razão. A pergunta é mesmo enganadora. Bem, é comum usá-la assim, pelo menos era, apesar de enganadora.
Bom essa é uma das teses apresentadas pelo matemático ao longo do livro, baseada no aparentemente simples teorema de Godel, que consiste mais ou menos naquilo que dizes (apesar que eu não sou entendido na matéria). Posso tentar arriscar uma explicação: segundo Godel um sistema aritmético para ser consistente tem de ser incompleto. Esta descoberta baseia-se em algo como: "Esta frase é falsa" pode ser uma frase V e o computador não está habilitado a decidir sobre a V ou F dado que não capta esta nuance do pensamento. É que, segundo Godel, "esta frase é falsa" é V. É mais ou menos isto, acho. Que dizes, tu que andaste aí nas maxines e nos thinkingues!!!
Abraço

Comentar post

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS