Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Médicos em Portugal

medicina_394f23a O post que escrevi sobre as médias de entrada nos cursos de medicina referia-se a um aspecto: que a medicina, enquanto ciência não tem nem mais nem menos valor que a física, química ou matemática e no conjunto dos saberes não existe qualquer razão para sobrevalorizar a medicina em relação à filosofia ou à história. Expliquei que a sobrevalorização prende-se com o lobby instalado da Ordem dos Médicos em Portugal, que superprotege a classe e o seu comércio e inflaciona de forma estúpida as médias de entrada nos cursos de medicina. Mas no meu post não me interessou tanto a questão comercial da coisa, mas somente esclarecer o leitor de que não existe qualquer respeito em relação à medicina que todo e qualquer outro saber organizado não mereça em igual ou maior proporção.

Rolando Almeida

Com efeito, nem de propósito, recentemente somos confrontados no nosso país com uma realidade: os médicos espanhóis regressam a casa, ao seu país de origem. Ora, membros do governo apareceram desde logo na TV a lamentar-se que deram formação com pós graduações a esses médicos e agora eles vão-se embora, com grande prejuízo para Estado português. Pois é, que pena! Mas este negócio interessa a alguém, no caso, aos médicos portugueses. Só que não existe coragem política para estragar o negócio da Ordem dos Médicos e desconfio que algum médico deixe de andar de Mercedes só para termos um melhor serviço nacional de saúde. Enquanto os médicos enriquecem, nós, o Estado, pagamos os seus luxos. A melhor medida a tomar desde já, que revelava coragem política, é fazer descer a média de entrada nos cursos de medicina. Não seria por aí que a qualidade dos médicos decrescia e o mercado na medicina seria muito mais versátil. Claro que este assunto nada tem a ver com a filosofia, pelo menos directamente, já que é responsável pela descaracterização social de muitos saberes. Mais vale mesmo regressar ao estritamente filosófico. Mas é uma questão de justiça.

publicado por rolandoa às 20:21

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6 comentários:
De Vitor Guerreiro a 18 de Junho de 2008 às 23:42
Tenho alguma dificuldade em compreender o conceito de «coragem política» e o que o diferencia das outras formas de coragem, sejam elas o que forem. Receio mesmo que o seu uso possa conter algo de anti-filosófico na medida em que traz implícitas algumas ideias que precisavam primeiro ser analisadas.

A imagem que imediatamente retiramos é a ideia de que a única coisa que impede os políticos de tomarem decisões que ponham o sistema a funcionar de um modo mais justo é a falta de coragem, quer dizer, uma simples afecção psicológica do governante.

A segunda imagem é a de que no fundo os políticos estão ansiosos por se porem contra os interesses que são lesivos do bem estar da população na sua maioria. Eles bem querem (diz a ideia), mas falta-lhes a coragem! Por outras palavras, isto compromete-nos com a ideia de que o estado é um árbitro neutro e que os políticos são mediadores de interesses e não representantes de interesses que por sua vez também participam directamente na produção e manutenção desses interesses. É a eterna tentação de pensar: isto no fundo está tudo muito bem concebido, só é pena é os chefes serem básicos. Isto impede-nos de pensar a própria relação entre os governantes e os governados e limita-nos a pensar os termos da relação. Filosoficamente, não podemos conceder tanto. A relação tem de ser pensada.

Pensar os princípios que subjazem as relações de poder não é algo que não tenha a ver com a filosofia. Muito pelo contrário. Se há um trabalho propriamente filosófico é esse. Tal como a filosofia da música analisa os conceitos fundamentais da prática musical, a filosofia social e política estuda a natureza das relações, mas de um ponto de vista que não se confunde com a politologia ou a sociologia. Os filósofos interessam-se pelos conceitos que organizam as relações. Essa é a razão pela qual o Príncipe do Maquiavel é um livro de política mas não de filosofia política. Não discute conceitos, discute a gestão das relações de poder. Isso não significa que não seja «central» para quem se interessa por pensar os conceitos.

O meu último ponto é uma questão, pois não compreendi bem o que seja a «descaracterização social» de um saber. Quer dizer, posso conjecturar a partir do contexto, mas a ideia não me pareceu clara.
De rolandoa a 18 de Junho de 2008 às 23:51
Ok Victor,
Vamos lá:
1) coragem política = coragem dos políticos :-) Uma das formas habituais de governação é não mexer muito para não abanar o establishment. Ora, um político mais corajoso é capaz disso em favor da justiça social.
2) descaracterização social de um saber - é a imagem que uma determinada sociedade tem do saber. Por exemplo socialmente ser médico é muito bem visto, ou ser futebolista é muito bem visto, ter dinheiro é muito bem visto. Em Portugal a sociedade está cheia de estigmas, pelo que ser filósofo não é tão bem visto como andar de BMW ;-)
Creio ter respondido
Abraço
De Vitor Guerreiro a 19 de Junho de 2008 às 12:50
Porreiro. É que estava a ler "descaracterização" e não deixava de me soar ao género de coisa que dizemos quando passamos da parte "histórica" de uma cidade para a parte mais "moderna" (escolha interessante de palavras, como se o novo estivesse fora da história) e ocorre dizer "aqui começa a descaracterização." Desse modo, não conseguia encaixar o sentido. Talvez a melhor palavra aí fosse "desvalorização" social dos saberes. Pois o carácter da filosofia permanece inalterado, os preconceitos sociais acerca da filosofia é que se avolumam, ou seja, nenhuma transformação se dá no carácter da própria filosofia, apenas nas crenças da população em geral e naquilo que é letra comum.

A tua caracterização da coragem política como coragem dos políticos parece-me insuficiente. Se um marceneiro ou um filósofo forem corajosos, isso não significa que a nossa ontologia via ganhar um novo item: a coragem marceneira ou a coragem filosófica. Tínhamos de dizer o que há nisso que os políticos fazem de corajoso que torna essa coragem específicamente política. A coragem do marceneiro em seguir, sei lá, uma conduta honesta no que diz respeito a preços e escolha de materiais para trabalhar é apenas a coragem comum aplicada às circunstâncias da sua vida pessoal. Nada há nela que a torne "marceneira". Por outro lado, há outra nuance: o marceneiro que age assim talvez aja, na esmagadora maioria dos casos, por uma série de razões que nada têm a ver com a coragem. Como sabemos, as pessoas que estão pouco habituadas aos mecanismos e meandros do "ter", as pessoas que não compreendem bem como funcionam os esquemas de apropriação das coisas, são as que têm maior tendência a sentir o "peso da consciência", ficam muito aflitas mal recebem uma carta a cobrar um serviço em atraso, orgulham-se de trabalhar o triplo daquilo que recebem, etc, etc. Por outras palavras, o político pode agir corajosamente por razões que nada têm a ver com a coragem, mas com a necessidade. Há determinado tipo de opções que se colocam necessariamente uma vez que tenhamos assumido certo tipo de compromissos. Pelo que ao seguir esse compromisso não estamos de facto a ser corajosos mas apenas a fazer o que temos de fazer. Normalmente, a meu ver, aquilo que os políticos fazem e que suscita em nós as exclamações de que lhes falta a "coragem" não são acções pouco corajosas. Eles simplesmente não têm compromissos connosco, não obedecem à mesma necessidade que orienta as acções da maioria das pessoas que tu e eu conhecemos na rua. Queres exemplo melhor do que as reacções dos gajos ao não irlandês ao tratado de Lisboa? Independentemente de saber o que pensam as pessoas que votaram não ou se têm ou não razão (isso é outro assunto), as reacções dos políticos, o tipo de respostas que dão, baseiam-se todas no pressuposto de que a necessidade a que eles têm de atender é uma e a necessidade a que reagem as pessoas que votam é outra. De contrário nunca um referendo seria entendido como potencial "obstáculo" a seja o que for. Se a ideia é um projecto de construção europeia comum, então por que tanta necessidade têm as instituições de se resguardar contra as opções maioritárias da população? Simples, porque o projecto de construção europeia não é teu nem meu, nem de seja quem for que conhecemos, é de outras pessoas que o concebem, que o sentem como seu e que respondem à necessidade que orienta a redacção de cada artigo e cada alínea.

O problema é paralelo ao caso em que dizemos que todos os políticos são mentirosos. Repara: quando dizemos que os políticos são todos mentirosos, estamos implícitamente a aceitar que eles partilham a mesma necessidade que nós, isto é, que os seus objectivos e os nossos são os mesmos. Só que eles, fracos como são, mentem, e mentem, e mentem, porque se "transviam" do caminho certo. Mas esta pressuposição é acrítica e dogmática. Os políticos não são mais mentirosos do que qualquer outra pessoa. Simplesmente, como qualquer outra pessoa, eles mentem a quem têm de mentir, tal como nós mentimos se disso depender a nossa paz de espírito ou a nossa continuidade na existência. Conheces algum moralista que hesitasse dois segundos em pregar uma treta só para não aturar um amigo muito chato num momento em que não tem tempo para o fazer? Os políticos limitams-se a fazer isto.
De Vitor Guerreiro a 19 de Junho de 2008 às 13:02
Para concluir o parágrafo final (isto tem numero limitado de caracteres): A quem é que se mente? Ao inimigo ou a quem não partilha os mesmos objectivos nem obedece à mesma necessidade que nós.

Qual é aqui o pressuposto acrítico que nos faz pensar que todos os políticos são mentirosos? (Como se eles tivessem uma essência mentirosa, diferente das pessoas comuns, ou sofressem de uma doença compulsiva) É o pressuposto de que entre nós e os políticos há uma partilha de objectivos, necessidades e compromissos.

As pessoas com quem te dás todos os dias andam a percorrer os corredores dos ministérios, do parlamento europeu, das salas de negociações pela europa fora, as reuniões onde se tomam decisões de fazer algo que afecta a vida a milhões de pessoas simultaneamente? Não, não andam. Quando te moves neste ambiente, é ilusório pensar que as pessoas que andam ao teu lado partilham os mesmos objectivos, preocupações, interesses, compromissos, que os teus colegas na escola ou na oficina ou no escritório ou na rua. Essa é a ilusão que o Agitprop nos procura vender, porque é dessa sensação falsa que depende a legitimidade do assim chamado estado de direito, mesmo quando decide contra o interesse e o bem estar da população na sua maioria. O que se faz nestes casos? Apela-se à "razão de estado". Quer dizer, a um dispositivo místico cuja função é explicar como aquilo que lesa os teus interesses é, em última análise, do teu interesse (tu é que não percebes, porque não participas da razão de estado. Os gajos participam e por isso é que governam.)
De Vitor Guerreiro a 19 de Junho de 2008 às 13:02
Para concluir o parágrafo final (isto tem numero limitado de caracteres): A quem é que se mente? Ao inimigo ou a quem não partilha os mesmos objectivos nem obedece à mesma necessidade que nós.

Qual é aqui o pressuposto acrítico que nos faz pensar que todos os políticos são mentirosos? (Como se eles tivessem uma essência mentirosa, diferente das pessoas comuns, ou sofressem de uma doença compulsiva) É o pressuposto de que entre nós e os políticos há uma partilha de objectivos, necessidades e compromissos.

As pessoas com quem te dás todos os dias andam a percorrer os corredores dos ministérios, do parlamento europeu, das salas de negociações pela europa fora, as reuniões onde se tomam decisões de fazer algo que afecta a vida a milhões de pessoas simultaneamente? Não, não andam. Quando te moves neste ambiente, é ilusório pensar que as pessoas que andam ao teu lado partilham os mesmos objectivos, preocupações, interesses, compromissos, que os teus colegas na escola ou na oficina ou no escritório ou na rua. Essa é a ilusão que o Agitprop nos procura vender, porque é dessa sensação falsa que depende a legitimidade do assim chamado estado de direito, mesmo quando decide contra o interesse e o bem estar da população na sua maioria. O que se faz nestes casos? Apela-se à "razão de estado". Quer dizer, a um dispositivo místico cuja função é explicar como aquilo que lesa os teus interesses é, em última análise, do teu interesse (tu é que não percebes, porque não participas da razão de estado. Os gajos participam e por isso é que governam.)
De Vitor Guerreiro a 19 de Junho de 2008 às 13:15
Vou dar um exemplo concreto:

A promessa de pleno emprego que a esquerda continua a manter no seu vocabulário político. Se aplicarmos a ideia da coragem política aqui, podemos pensar que aquilo que nos separa do pleno emprego é apenas a coragem dos governantes em tomar medidas que proporcionem o pleno emprego. Isto é falso. O pleno emprego é um conceito demagógico porque cada vez menos é possível fazer a integração das pessoas na sociedade através do trabalho tal como nos habituámos a conceber desde o fim da 2ª guerra mundial. Qual é a consequência? Tem de se fazer um esforço fenomenal por produzir lixo e vacuidade, para remendar os buracos. Se não fossem as indústrias inúteis e parasitas que se têm instalado nos últimos anos (pagas produtos mais caros para ter publicidade a dizer-te que eles são os mais baratos, etc) tinhas ainda mais gente à nora, em vez de estar no limiar da integração, entre a integração e a exclusão.

Os russos defrontaram-se com um problema similar: tinham tecnologia para construir estações espaciais, mas não aplicavam integralmente esta tecnologia para manter a ilusão do pleno emprego. O que acontece então? Embora as forças produtivas permitam libertar cada vez mais mão de obra, há uma recusa das instituições em aplicar essa tecnologia porque isso iria alterar as relações sociais que são a base ideológica do sistema. O que faria o politburo com uma turba de desempregados? Simples: teria de fazer o que até as nossas instituições não fazem - arranjar novas formas de integrar as pessoas na vida social activa. Mas isto é lixado porque não pode ser feito sem subverter o funcionamento de uma série de coisas das quais depende muitos interesses. (É que o passo seguinte seria o que? Voltavam aos sovietes tradicionais e mandavam a nomenklatura toda para os gulags? Isso até seria giro, se conseguissem convencer os burocratas a mandar-se a si próprios para o gulag!)

Então, voltamos ao mesmo: a decisão das instituições deles em retardar a aplicação da tecnologia não foi mais corajosa que a decisão das nossas instituições ao prolongar a idade da reforma ou a dilatar a escolaridade mínima obrigatória. Fazem-no porque é o que têm de fazer em função dos seus compromissos. Se retiras os compromissos da equação, as opções deixam de fazer sentido e é aqui que as pessoas se iludem e começam a ler tudo no registo da psicologia individual, isto é, da coragem individual dos governantes.

Abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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