Sábado, 14 de Junho de 2008

Casamento a três

Digitalizar0001 A passagem desta semana pela livraria trouxe-me um livro que é o resultado de um casamento a 3, mas feliz. Por um lado, o principal, trata-se de uma obra de um autor pelo qual mantenho a melhor admiração, George Orwell. Em segundo lugar, porque é publicado pela Antígona, uma das minhas editoras de sempre uma vez que publicou dos livros que mais me marcaram. E, finalmente, porque é traduzido por Desidério Murcho, uma pessoa que admiro muito, talvez não tanto pelo seu trabalho filosófico, mas muito pelo que tem feito na divulgação da filosofia no nosso país, sabendo fazê-lo como poucos. E gosto de George Orwell porque é um escritor terrivelmente honesto e directo, socialmente activo. Aliás, costumava fazer uma trilogia muito contestada com o 1984 de Orwell, o Admirável Mundo Novo de Huxley e o Mendigos e Altivos do egípcio Albert Cossery. O que é que estes livros tem em comum? Uma denúncia demolidora do amestramento a que conduz os excessos de poder. Se os primeiros dois livros são directos, o segundo talvez mais literário, o terceiro é arrasador, sarcástico, delicioso.

Rolando Almeida

E é precisamente por esta terceira escolha que a minha trilogia é contestada. Confesso que a obra de Cossery é um passo grande em relação às duas anteriores, mas ao passo que as primeiras fazem a denúncia com a esperança que outro mundo se construa, Cossery está-se nas tintas para outro mundo e escreve uma história muito real, onde não existem heróis nem palavra de esperança, mas optimismo da parte daqueles que nada tem a perder no mundo e na vida, pois vivem marginais do próprio sistema. Se os personagens de Orwell ou Huxley parecem ainda ter muito a perder, os de Cossery nada tem a perder habitando um universo de mendicidade desprovidos de qualquer sinal de aburguesamento, mas altivos e suficientemente capazes de gerar a mais nobre das felicidades no meio da lama. Finalmente a editora Antígona foi uma das editoras que me deu a conhecer alguns dos mais ferozes autores que li, desde Céline a Jack London, Vaneigam até Marquês de Sade. A editora reúne um catálogo apreciável de escritores libertinos e libertários, como é o caso de Cossery, tendo já publicada grande parte da sua obra (não tenho a certeza se já está toda publicada, uma vez que não são muitos livros, creio que uns oito).

Estas razões, por si só, já constituem para mim motivo para assinalar esta edição dos ensaios de Orwell. Como começo a ter o mau hábito de falar dos livros antes de os concluir, este é mais um. Comprei-o hoje pela manhã e tenho ainda uma boa parte do livro para ler. Dele conhecia já o ensaio «a política e a língua inglesa», publicado na Critica, Revista de Filosofia já conhecida dos leitores e a indicação que posso aqui dar é a de que, em época que se discute o acordo ortográfico, a leitura deste ensaio pode fornecer algumas pistas interessantes, na desmontagem que é feita das relações políticas de poder que o mau uso de uma língua pode conduzir ou da manipulação que é feita da língua para exercício do poder, apesar que a análise de Orwell se reveste de particular interesse para os campos da filosofia, literatura e ciências sociais tal qual se praticam em Portugal, principalmente dentro dos meios académicos. Li os dois primeiros ensaios do livro ainda pela manhã e é óbvio que Orwell não possui as preocupações filosóficas literalmente expressas nas obras dos filósofos, mas toda a sua escrita é realmente um acto de coragem daquilo que deve ser dito, mas que por qualquer razão de conveniência raramente é dito. Vale a pena experimentar a leitura desta pequena colecção de ensaios, até na expectativa que a Antígona continue a publicar alguns mais.

George Orwell, Por que escrevo e outros ensaios, Antígona, 2008, Trad. Desidério Murcho

publicado por rolandoa às 16:19

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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