Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Estudar medicina, monopólio ou Fiat para todos?

medico Vamos imaginar que eu quero abrir um snackbar no bairro onde vivo. Continuemos a imaginar que sou parente dos donos maioritários das lojas para alugar para comércio no meu bairro. A melhor forma de não ter concorrência é convencer os meus parentes a aumentar as rendas sempre que alguém queira abrir um snackbar. Claro que esta possibilidade não exclui uma outra de alguém apresentar um projecto muito viável impossível de recusar. Mas esse alguém teve uma oportunidade que a maioria não teve. Provavelmente é parente de um perito em economia e gestão ou, até, parente do Presidente da Câmara. Se esta for a situação, abrir um snackbar no meu bairro, por muito que até fosse negócio viável, é algo muito difícil de conseguir. E ao mesmo tempo é considerar que os snack bares são mais importantes que qualquer outro comércio, como por exemplo, uma frutaria ou uma tabacaria. Este é o esquema simples daquilo que conhecemos como lobby. Ao final de alguns anos as pessoas sabem que, no meu bairro, vão ter de se esforçar muito para abrir um snackbar e que as probabilidades de o abrir são remotas.

Rolando Almeida

Imaginemos agora outra situação. O meu irmão mais novo, que sabe desta situação e que a pensa como injusta, consegue quebrar a barreira do lobby e faz com que, ao fim de alguns anos, abrir um snackbar no meu bairro seja tão fácil como abrir uma loja de meias. Os snacks começam a abrir, começam a fazer ofertas diversificadas, os empregados deixam de ser arrogantes, eu, que tinha o meu monopólio deixei de andar de Mercedes e comprei um Fiat, ao mesmo tempo que outras pessoas que nem sequer carro tinham também compraram um Fiat. Para diversificar o meu negócio não só tive de baixar os preços como contratar um pasteleiro para fazer bolos deliciosos, bem como um cozinheiro para fazer refeições rápidas. As pessoas de outros bairros começaram a comprar mais casas no meu bairro e, com mais gente, vieram os correios, um centro de saúde, um espaço verde, um supermercado. Ao fim de alguns anos, eu deixei de andar de Mercedes é certo, mas a vida no meu bairro tornou-se muito mais dinâmica, economicamente mais viável e muito mais diversificada.

Se abrir um snack bar no meu bairro não é mais importante que abrir uma loja de meias, por que razão tirar um curso de medicina em Portugal é considerado mais importante que tirar um curso de matemática ou filosofia?

Pode-se sempre alegar questões práticas, como que quem está enfermo não está para filosofias. Mas tal argumento não funciona e é até muito idiota, pois quem está enfermo não está para estudar seja o que for. Mais óbvio é que as pessoas reconhecem facilmente na medicina valor intrínseco. Mas a verdade é que também o reconhecem para a matemática ou a filosofia. Pelo menos têm uma ideia vaga. Outra hipótese é a de que a medicina é tão importante que só mesmo os melhores é que podem tirar o curso e ser médicos. Mas significará isso que qualquer um pode ser filósofo ou matemático? Além do mais a medicina não se faz sem filosofia e sem matemática. Isto seria um argumento tacanho. A verdade é que em Portugal exige-se muito mais para se entrar num curso de medicina do que para um curso de filosofia ou matemática. Mas curiosamente são as pessoas que vão tirar cursos de filosofia ou matemática que mais tarde vão avaliar estudantes que irão para medicina. A hipótese mais segura só pode ser a hipótese comercial. Não entram mais alunos para medicina para reproduzir o estatuto social da classe médica. As médias de medicina nada tem que ver nem com a inteligência dos estudantes, nem com questões que se relacionem 1) com a responsabilidade profissional 2) com a medicina enquanto saber. São questões que se relacionam exclusivamente com questões comerciais, muito salvaguardadas pela existência de uma Ordem, uma espécie de organização secreta de defesa de interesses do grupo. E estas questões de poder são práticas pouco democráticas, com a aparente conivência do sistema de ensino. Por outro lado, é mais ou menos corrente entre nós uma ideia muito estúpida de que democratizar o ensino é torná-lo mais fácil ou – igualmente grave – que, democratizar o ensino é torná-lo mais acessível e que tornar acessível é banalizar os conteúdos.

Assim a primeira exigência a fazer-se é a de acabar com os elitismos nas médias de entrada nos cursos de medicina. De certeza que não vamos ficar com piores médicos.

publicado por rolandoa às 00:35

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4 comentários:
De Vitor Guerreiro a 13 de Junho de 2008 às 15:51
Uma boa ilustração do que afirmas é o facto de só haver «ordens» para as profissões que ou são social e financeiramente vantajosas ou desfrutam de um prestígio social superior, precisamente por causa dessas benesses e não por causa do seu conteúdo científico particular. Toda a gente se está a marimbar para os factos, a ciência, a metodologia, envolvidas na medicina. Depois é altamente duvidoso que se tenha de ser mais inteligente para ser médico do que para ser matemático. Provavelmente é o inverso. Um bom médito terá aptidões que se relacionam mais com o lado da medicina que é menos «intelectual», saber comunicar com as pessoas para lhes retirar a informação relevante, ser observador, conseguir acumular uma massa enorme de factos na cabeça. Talvez seja preciso muito mais inteligência para resolver problemas matemáticos ou filosóficos. Quer dizer, talvez não seja preciso ser bestialmente inteligente para ser um bom médico. Não estou a dizer que por necessidade de definição os matemáticos são mais inteligentes que os médicos, atenção. Estou a dizer que temos uma noção demasiado ampla da inteligência, como se fosse apenas sinónimo de ter médias de 19 e 20. As pessoas desconhecem que se pode perfeitamente ser burro e muito erudito ao mesmo tempo. Que erudição e inteligência são coisas diferentes.

Voltando ao tema inicial: já imaginaram o que seria se eu, ao concluir um curso de filosofia, tivesse primeiro de ser reconhecido pela Ordem dos Filósofos antes de ter direito a pronunciar-me sobre um problema, paradoxo ou teoria qualquer? Seria risível. Infelizmente isso já acontece de certo modo, pois tanto quanto me recordo da faculdade, o que interessa não é a originalidade de pensamento nem a capacidade de ligar ideias. O que se valoriza é o ter muitos factos metidos dentro da cabeça. a demonstração meramente ritual de que se estudou muito e se é capaz de citar muitos nomes de um modo sofisticado e com alguns trejeitos orais à mistura. Mostrar que aquilo que se diz já foi dito de algum modo, que é sancionado pela tradição e que não infirma o papel do mestre como produtor de cultura: pregar o mesmo evangelho durante 20 e 30 anos a gerações sucessivas de estudantes pasmados com as habilidades linguísticas de uma pessoa que cita grego e alemão sem saber falar grego ou alemão.

Abraço
De rolandoa a 13 de Junho de 2008 às 21:30
Olá Victor,
Pois é como dizes. São mais questões sociais que questões científicas ou ligadas ao conehciemento e saber. O que me parece mais estúpido é que dar maior importâncias às questões sociais que às científicas é colocar o carro à frente dos bois.
Confesso ñunca ter sabido nada em concreto sobre a criação das Ordens, mas segundo sei já vem desde o salazarismo e são altamente coorporotivistas e mantêm esse espírito. Se assim é, obviamnente que só entopem o desenvolvimento científico, mais não servindo do que proteger a reprodução social de uma grupelho de interesses.
De Marta Isidoro a 13 de Junho de 2008 às 20:50
Presidente da Câmera?!!?!?!?!?!?
De rolandoa a 13 de Junho de 2008 às 21:26
Cara Marta,
Obrigado pela correcção da gralha. Acontece aos heróis :-)

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