Terça-feira, 10 de Junho de 2008

A indignação Klossowski

Digitalizar0001 (2) Digitalizar0002 (2) Digitalizar0003 O meu apontamento sobre as opções de escaparate da recente livraria Byblos (ver aqui), resultou numa onda de contestação em relação ao escritor e ensaísta Pierre Klossowski. Não percebo por que razão os leitores dos outros dois livros referidos não reclamaram o estatuto das obras nas sua áreas de intervenção. O facto é que Pierre Klossowski terá, obviamente o seu estatuto literário e ensaísticoo, mas o autor nem por sombras é um autor central na filosofia. E vendê-lo como filosofia é muito discutível. O meu comentário às opções da Byblos refere-se ao modo como se exibe livros de filosofia nas nossas livrarias. Do mesmo modo acho disparatado que se faça montra de obras demasiado técnicas e específicas. O público geral não compra essas obras e quem compra não precisa de as ver na montra para as encontrar. Fazer montra de filosofia com os autores que referi é uma opção comercial errada e foi esse o erro que apontei. De resto, muito iludido pelo espanto de alguns leitores pela minha heresia, consultei duas obras de referência para a filosofia, de consulta geral, das mais referenciadas editoras internacionais. Poderia ter consultado outras, é verdade. Até poderia ter consultado os meus apontamentos. Consultei estas pois são obras de referência. Em nenhuma delas é referenciado o nome de Klossowski. Bem, o melhor que os meus entusiasmados leitores tem a fazer, é enviar uma nota de espanto a Ted Honderich e Edward Craig. Ou então, a melhor das hipóteses, escrever nos seus blogs um texto simples e claro onde mostrem aos leitores desinformados porque é que o autor é central na filosofia e deve ser estudado. Essa atitude é mais pedagógica do que escrever sobre mim e alegar que sou pessoa a evitar porque disse que vender Klossowsky por filosofia é banha da cobra, tal como o podia ter dito em relação ao Dalai Lama. Finalmente consultei também um dicionário de filosofia, o de Thomas Mautner, the penguin dictionary of philosophy e nenhuma referência ao autor é feita. Há, com efeito, um nome muito parecido que é o de Leszek Kolakowsky, um filósofo polaco de tradição marxista. É claro que Klossowsky será relevante noutras áreas, mas, como se vê, não na filosofia, pelo que toda esta conversa não passa de disparate e a acusação de que pretendo vender a filosofia X ou Y, falsa. Refiro que o espanto inicial resultou numa acusação de que pretendo ditatorialmente impor autores aos meus alunos e o texto que me acusa aparece em tom de advertência aos professores de filosofia. Resta saber se Honderich ou Craig querem impor ditatorialmente algum filósofo!!! E são autores de meios académicos sérios. Vamos imaginar agora que lhes perguntam porque não incluíram Klossowski nas suas obras. Será que vão ficar entalados? Quanto a este assunto, considero-o arrumado.

Referências:

Ted Honderich, The Oxford Companion to Philosophy (1056 páginas assinadas pelos nomes de referência da filosofia contemporânea)

Edward Craig (edited By), The shorter Routledge encyclopedia of philosophy (1077 páginas)

Thomas Mautner, the penguin dictionary of philosophy (663 páginas)

publicado por rolandoa às 00:02

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20 comentários:
De Márcia Adriana a 10 de Junho de 2008 às 00:44
Repito aqui o comentário q acabei de deixar no post:Resposta a quem toma Klossowski por «obscuro»
Caro Rolando
Acompanhei ,com certa tristeza ,esse"debate" bem como o seu texto q o originou. Como já te disse anterior/te sou admiradora de seu trabalho e da filosofia, apesar de ser estudante de outra área proxima a esta. Em minha pesquisas vi q nem é preciso ser especialista na área pra ver q Klossowsky, apesar de ter o seu lugar , não tem na filosofia a relevância q querem atribuir-lhe. Penso q todos esses ataques pessoais têm a ver com outros trabalhos seus aqui no blog; e aproveitando q vc resolveu responder a esses ataques, vomitaram tudo q estava engasgado. Pelo menos é essa a impressão q dá pra quem observa a coisa do lado de cá. Sabemos q filosofia não se faz assim , pelo menos não a filosofia de seu blog e do seu trabalho . Já q hoje vc recebeu tantas palavras toscas, antes de me recolher deixo-lhe meu apoio. Eu continuo por cá. Força aí ! Um abraço bem brasileiro de sua aluna à distância !
De rolandoa a 10 de Junho de 2008 às 00:49
Márcia,
Muito obrigado pelas suas palavras de apoio.
Com consideração
De Você sabe quem a 10 de Junho de 2008 às 07:14
Em consideração ao leitor que poderá ficar com uma ideia errónea do contributo de Klossowski, recomendo que "use a cabeça" (citação do que, para o Sr. Professor, é a filosofia) e avalie por si mesmo:

1) Se, no domínio da filosofia, deve dar mais crédito a selecções enciclopédicas de Ted Honderich e Edward Craig ou a obras especializadas de FILÓSOFOS como Deleuze, Foucault, Blanchot, Lyotard, Baudrillard, etc.;

2) A validade do já famoso argumento do Senhor Professor de que «vender Klossowski por filosofia é banha da cobra», perante os factos sobejamente conhecidos da biografia do autor em causa:

«- He was mentored during his childhood by Rainer Maria Rilke.

- In the 1920s, he worked for André Gide as private secretary and copyeditor of The Counterfeiters, a trilogy of novels expressing Gide’s PHILOSOPHY.

- By the early 1930s, the Marquis de Sade had become Klossowski’s maître à penser, an affinity that he shared with Georges Bataille. Klossowski was interested in the PHILOSOPHICAL implications of Sadean pornography rather than in violence, excess, and immorality as tools of socio-political contestation.

- At the height of the Popular Front, Klossowski’s trepidation regarding the use of art for political purposes led him to befriend Walter Benjamin, whose seminal PHILOSOPHICAL essay “The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction” he translated into French.

- Klossowski participated in the EXISTENTIALIST movement during the late 1940s and early 1950s by contributing articles to Les Temps Modernes. Klossowski’s view of PHILOSOPHY as a fundamentally personal process of self-discovery and a form of solidarity with others, rather than as a call for collective engagement and social reform, placed him closer to Camus than Sartre, though he never openly took sides in the grand polemic between the two.

- BLANCHOT lauds Klossowski’s work as “a new gnosis [that] brings to literature what it has lacked since Lautréamont” (“Laughter of the Gods”, p. 163)

- DELEUZE wrote an admiring characterization of Klossowski PHILOSOPHY in “Pierre Klossowski ou le corps-langage,” Critique 214 (March 1965): 200.

[etc.]»


Sem falar no texto integral das conceituadas obras de FILOSOFIA que Klossowski efectivamente escreveu...

Aprecie, pois, o leitor se a teoria de que Klossowski «nem por sombras é um autor central na filosofia» tem pernas para andar?

Já sabe, "use a cabeça" ;-)

P.S.: É por consideração a quem se interessa por filosofia e aqui vem parar, que ainda venho a este blog, sobre o qual não resisto a citar um não-filósofo MODESTO o suficiente para dizer de si: «Pretendia alimentar um blogue; converteu-se numa blague».
De Você sabe quem a 10 de Junho de 2008 às 07:33
Para "reavivar a memória", do que já foi atrás apontado sobre as obras claramente pertencentes ao género filosófico de KLOSSOWSKI:

- «Nietzsche e o Círculo Vicioso», obra dedicada a Deleuze, foi considerada por FOUCAULT: “O maior livro de FILOSOFIA que alguma vez li, incluindo a obra do próprio Nietzsche”.

- «A Moeda Viva», nas palavras do mesmo FOUCAULT, é descrito como “o mais elevado livro da nossa época”.
De Você sabe quem a 10 de Junho de 2008 às 07:47
Mais uma ajuda mnemónica:

«Klossowski traduziu para o francês importantes textos de Wittgenstein (que é a grande referência do seu estimado Kripke), assim como de Heidegger, Nietzsche, Benjamin, etc. (...)

- Sobre «Nietzsche e o Círculo Vicioso» de Klossowski:
http://www.warwick.ac.uk/philosophy/pli_journal/pdfs/ansell_pearson_2_pli_9.pdf

»
De Você sabe quem a 10 de Junho de 2008 às 08:01
Face ao apresentado, qual é a validade de opiniões como estas, emitidas pelo Senhor Professor:

«É claro que Klossowsky será relevante noutras áreas, mas, como se vê, não na filosofia, pelo que toda esta conversa não passa de disparate».

«Vender Klossowsky por filosofia é banha da cobra»

«Vendê-lo como filosofia é muito discutível.»

??

Julgue o leitor.


P.S.: Seria lamentável que, por dar demasiado importância ao que não tem, o Senhor Professor nunca mais na vida quisesse experienciar a aprazível leitura de um livro de Klossowski. Mas, claro, é livre de o fazer.
De Você sabe quem a 10 de Junho de 2008 às 08:25
Note-se também que o alcance das opiniões do Senhor Professor não é apenas contradizer uma não-filósofa como eu.

Pelo desacerto dos seus juízos, ele está a pôr em causa:

- a validade de se estudar Klossowski como autor de Filosofia em cátedras de Filosofia, como, por exemplo, as das universidades anglo-saxónicas (de que oportunamente tenho fornecido links sobre o tema);

- a classificação editorial de uma série de editoras e distribuidoras em todo o mundo (incluindo a da Antígona e da Byblos em Portugal) que vendem Klossowski como Filosofia.

O Senhor Professor deve ser o DEUS da filosofia... para persistir em tanta pretensão.
De DE quem você não sabe quem é! a 10 de Junho de 2008 às 11:22
Que grande sapiência!..... Comovo-me com tanto Klossowski para aqui e para acolá. Olhe tire umas férias e verá que as sua frustações voaram bem longe. Quanto a mim que "sei que nada sei " continuarei a apreciar a forma energica e bem fundamentada com que o Professor Rolando trava uma guerra , ou melhor dizendo, um combate pela dignificaça~o da Filosofia! Por acaso colaborou com algum manual que foi sujeito a uma apreciação crítica? : )
abraços
De sei, sei... a 10 de Junho de 2008 às 11:42
Sei, sei...

Basta fazer análise de conteúdo.

Até mais ver!
De Rui a 10 de Junho de 2008 às 11:43
Olá Rolando :)

Paz!
Pessoalmente, isto passou muito por um mal entendido. Estava a ver-te Prof. Dr. numa Universidade em Lisboa, com responsabilidades na elaboração dos programas de Filosofia :) Imagina!!!

Um gajo que ouve Sonic Youth, Amon Tobin e Einsturzende Neubauten, deve ser um tipo poreiro. Mesmo que tenha lá as suas coisas :)

Tentemos ser construtivos (mais uma vez - e desculpa se notares aqui e ali alguma rivalidade - tens de aceitar que podemos não concordar, que nesses pontos terei de te contrapor, e isso não significa insultar-te, nem tens de vir puxar de "galões" como guardião Da Filosofia. Começas a parecer um "cão de fila" do Analiticos :) e só não te apercebes disso porque ignoras o próprio adversário (o que Sun Tzu te diria que era o primeiro passo para perderes a Batalha ;)

Se tivesses responsabilidades sérias na Universidade, o teu comentário a Klossowski merecia a minha intervenção perante o que dizias dos destaques feitos pela Byblos (que não são, como sabes, os "autores centrais" mas as novidades editoriais. Percebo que distorças o que disseste para te defenderes, mas depois, forneces o link e todos podemos confirmar o porque da indignação). Querer "banir" Klossowski das estantes de Filosofia, assusta-me e alguém que o defenda parece-me tender para o fachismo - mas pronto, é só dos ares da Madeira ;)

Eu sei que não fazes por mal. (relembro-te o livro que citei dos 100 Philosophers, que tendo FOucault na capa, não o tinha no conteudo, assim como NENHUM OUTRO filósofo europeu da segunda metade do Século. Isso é desinformação e propaganda "anglo-saxonica" (que não demonstra a "superioridade" do seu pensamento a ninguém, a não ser aos que já estão convertidos, ao mesmo tempo que dá uma triste imagem de ignorancia para quem pretende "listar os maiores pensadores") ;)

Tenho certeza absoluta que, com, os teus gostos, não queres dar contigo nessa personagem ;) (leste as Moscas de Sartre :)

Se me pedissem uma lista, vai, de 100 "autores centrais" talvez não tivesse espaço para Klossowsky. Se me pedissem para resumir essa lista a trabalhos destacados sobre Niettzsche, cuja leitura marca uma divisão pronunciada entre "Analiticos" e "Continentais" (por mais grosseira e estereotipada que seja esta divisão), então Klossowsky viria no TOP 10.

Foi isso que te tentei dizer (e lembrar à Sonia). Como é que se podem entender sobre a importancia de Klossowski, se divergem profundamnete na prórpria importancia de Nietzsche? Se para ti este é um autor "secundário" na grande linhagem (que inclui Mill, que a Sonia, por seu lado ;) gostava de poder excluir das estantes de Filosofia :), como podes achar uma obra como "NIetzcshe e o circulo visioso" como importante?".

Se aceitasses que este facto existia, teriamos conseguido centrar o nosso debate em como podemos ensinar filosofia aos miudos, atendendo que ensinamos uma filosofia que está longe de apresentar uma "imagem do pensamento" unitária. Como faze-lo em pluralismo. Não é assim tão diferente de se tivessemos intenção de ensinar "Política".

Não podes é ignorar que, em pluralismo, a tua "opinião" sobre o que é a Filosofia é "uma tradição", existindo outras, que só "desprezas" porque, do que se provou, ignoras profundamente.

Pessoalmente, como te provei, movo-me com tanto a-vontade na analitica como na continental e, do que percebo, tenho mais uns anos de vida e de leitura do que tu. Compreendo os problemas e gosto de debater soluções.

Posso ser ironico, mas procuro não cair no insulto. Como disse a Sonia, que este episodio sirva para sairmos todos mais "fortes" e não, mais tacanhos e fechados nas nossas opiniões, (que é o que nos estamos a arriscar os 3). Como amigos da sabedoria, independentemente das nossas simpatias, devemos conseguir chegar a noções comuns, em respeito mutuo (e isso, Rolando, começa logo por ter cuidado em não chamar "banha da cobra" aos autores que outros destacam - para o fazer, tens de ir ao terreno. Podes começar por fazer o trabalho que o Sokal não teve bagagem para fazer ;) embora o "serviço de propaganda" pareça ter sido bastante eficaz pelos resultados :)

Abraço, sincero e, por favor... não voltes ao insulto. Se fores construtivo, vais ver que nos iremos entender com o tempo (no blog na Sonia, claro)
De sonia a 10 de Junho de 2008 às 12:19
Rui,

Não podes afirmar isso, que «gostava de poder excluir das estantes de Filosofia» Mill. Mas guardarei este e outro elementos para um futuro tête-a-tête entre nós os dois ;)

Quanto ao resto, admiro-te pela amplitude da tua humanidade (sem seres um "humanista"), pela humildade, pelo tacto.

Reconheço que em mim é um ponto fraco a trabalhar, talvez com a ajuda da música (também gosto de Sonic Youth, Amon Tobin e Einsturzende Neubauten).

Certo é que «hard feelings» quebram o sentido de harmonia e portanto não predispõem para a música, pelo que gostaria sinceramente de os evitar.

Pax Romana
(que nos sirva de experiência aos 3)
De Rui a 10 de Junho de 2008 às 12:55
:)
Estava a brincar claro.
No teu comentário mostras claramente estar a par das questõe "dos dois lados da barricada", fornecendo material que ajuda os teus leitores a contrapôr Carnap a Heidegger, Kripke a Deleuze, criticas aos analiticos, do seu próprio campo e textos oriundos de Universidades Anglo-saxonicas que apoiam a tua perspectiva.

A tua livraria seria "instituição de interesse público" :)

Agiste com a paixão que te reconheço, mas também com a honestidade intelectual e a elevação que o tema requer :)

O nosso amigo Rolando é mais novo e ainda deverá amadurecer um pouco mais a sua vivencia da Filosofia, não se deixando cair nas anedotas que procuram descartar "adversários" sem ter de argumentar, como o "nazismo" de Heidegger, o "estalinismo" de Sartre, o anarco-desejante de Deleuze, a revolução Iraniana em Foucault... esse triste episódio que parece ter tido realmente impacto nas mentes mais honestas (mas também "mais preguiçosas) do caso Sokal em relação ao "pós-modernismo"...

É óbvio que nunca conseguiremos ler tudo que há para ler e, também por isso, alguns de nós se centram a ler os clássicos (começando por Aristoteles e Kant... no meu caso... para ir dominando mais e mais de Espinosa a Leibniz, de Hegel a Marx, de Nietzsche a Kierkgard, de Heidegger a Sartre, de Carnap a Levy Strauss (não é filosofo eu sei ;), de Foucault a Searl, de Deleuze a Kripke, de Arendt a Marcuse, de Apel a Habermas (notem que os continentais se devem dividir desde logo numa tradição mais francesa e outra mais alema, que por seu lado se divide, o mesmo poderia ter feito com analiticos ... etc, etc, etc). Outros, preferem ler as "complilações" e as sumulas, que os tradição dos "readers" americanos tanto promove (e que, com o beneficio de promover o ensino, promove também a indolencia :) exactamente como anda a acontecer com a leitura dos clássicos da literatura, que os alunos assimilam trapidamente nos digest para o exame :)

Nada disto é de uma gravidade extrema e, para sermos sinceros, o ensino da Filosofia em Portugal chegou a um ponto que se tornou quase irrelevante, por mais que isso nos deixe tristes :( . Digo em Portugal como, de resto, no Mundo. Mas cá estamos, os seus "amigos", para lhe dar voz :)

Agora... fiquemos amigos... dariamos uma má imagem da Filosofia se não conseguissemos aqui lançar pontes :)

Bjo (e abr ;)
Rui
De De quem você pensa que sabe que é! a 10 de Junho de 2008 às 17:07
Lançar, pontes ?......... Foje ,Rolando que a natureza dos escorpiões é picar, ou seja , destruir...matar...e estes alimentam-se do seu própio veneno, vivenvo dele, e tu parece que ,de facto, já decidistes deixa-los a debitar a sua grande "sabedoria ". Atitude que revela grande sageza .:)
Bom feriado.
De rolandoa a 10 de Junho de 2008 às 17:13
Obrigado e bom feriado também para si
abraço
De Vitor Guerreiro a 18 de Junho de 2008 às 19:11
Já sabes rolando, se alguém aparecer aqui e disser que o Chico da CUF ou o Arnaldo Matos são autores centrais da filosofia, não podes sequer tentar pensar por que raios será isso assim. Tentar pensar a razão seria pôr desde logo em causa a aceitabilidade de uma «tradição», diferente da tua, diferente logo indiscutível (não era o franciú sem órgãos que punha a diferença antes de si próprio?). Essa será apenas «outra» tradição... paciência. Por que não ainda outra tradição na qual gajos como o Lysenko são «centrais»? Afinal de contas, este último exemplo devia ser uma espécie de santo padroeiro dos pós-modernos. Foi sob a égide deste peido que os soviéticos caíram na ideia de fazer uma «biologia proletária» de raíz lamarckiana, contra a «biologia burguesa» onde a genética tem o seu lugar. O resultado desta «desconstrução» foi o atraso significativo da ciência soviética e parte da elite intelectual do país para o exílio ou para o gulag... Mas enfim... Tudo vale para defender as «outras tradições». Glória eterna aos Lysenkos deste mundo. Como dizia o Deleuze, que detestava a discussão pública e outros procedimentos analíticos, o que seria se gajos destes tivessem de justificar coerentemente aquilo que afirmam em vez de alinhavar as suas palavras preferidas umas ao lado das outras?

Abraço pá
De Luís a 21 de Junho de 2008 às 03:57
«Nietzsche e o Círculo Vicioso», obra dedicada a Deleuze , foi considerada por FOUCAULT : “O maior livro de FILOSOFIA que alguma vez li, incluindo a obra do próprio Nietzsche”.
«A Moeda Viva», nas palavras do mesmo FOUCAULT , é descrito como “o mais elevado livro da nossa época”.


Que argumentação persuasiva! Vou já ler Klossowski .
A autoridade de Foucault é incontestável. Pq ? pq X disse que é. ... !!!
De Vitor Guerreiro a 21 de Junho de 2008 às 18:52
Pois é Luís, a diferença fundamental entre duas «tradições» (acho muita graça aos tiques que esta palavra disfarça), uma que se interessa pelos processos argumentativos e pelo conteúdo das ideias, e outra que se interessa na mera genealogia das ideias é esta: num dos casos, a importância de algo mede-se pela contribuição positiva que nos dá para o pensamento de algum problema identificável e capaz de ser formulado claramente. (Há a ideia idiota de que quanto mais obscuros e indefiníveis são os problemas, mais profundas são as cabeças que os congeminam), no outro caso, a importância de algo mede-se por nos fornecer um acervo de palavras inusitadas e irreverentes, que usaremos para exibir de um modo atrevido a nossa filiação na «tradição» particular que escolhemos. Depois é só imaginar as reacções epidérmicas que os outros vão ter ao constatar esta nossa afirmação genealógica - o sex appeal de se ser qualquer coisa acabada em "iano" (sim, porque os pós-modernóides desconstruíram o "ismo" - assim, já não há marxistas, há marxianos... e marcianos também). O appeal de se ser nietzscheano. Depois é a torrente de asneiras: um gajo diz que é monista ou que pensa x ou y acerca da mente, não porque tenha um pensamento claro e sistemático sobre o assunto, mas porque é espinosista, ou porque é nietzscheano, ou outra coisa qualquer. Quer dizer, o que importa não é o pensamento, é o modo irreverente como se atira aos mortais ignorantes a nossa filiação, a nossa erudição oca que só lá está a tapar uma ausência real de pensamento e uma proverbial e lusitana preguiça de pensar. Porque o que interessa nesta «tradição» continentalóide não é o trabalho filosófico mas um análogo mais sofisticado da mesma coisa que os putos fazem com os ídolos rock e as t-shirts estampadas.

Inté
De rolandoa a 21 de Junho de 2008 às 18:55
Olá Luís,
Boas perguntas. De repente ponho-me aí a dizer que a obra do Chico Science é a mais relevante do mundo para a filosofia. Se me respondes que não, que a de Platão é que é, eu acuso-te de quereres vender a tua filosofia e o catano. Ora que raio de coisa!
Acho que , com piada, viste bem a coisa.
Abraço

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