Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Alguns pontos do programa

DeathOfSocrates3b Ocasionalmente tenho-me referido ao programa de filosofia, mas creio que nunca o fiz de modo exclusivo num texto. Como não aprecio a postura do “treinador de bancada” vou perspectivar alguns pontos que me fazem pensar que o programa merece umas mexidas. Antes disso gostaria de deixar claro que não defendo uma alteração radical do programa, por duas razões principais: 1) porque o programa tem pontos positivos que podem e merecem ser mantidos, 2) porque tal nunca é benéfico para um trabalho que está já iniciado e realizado no terreno. Com efeito, estas razões não devem ser impedimento de mexidas no programa. Em equipa que ganha não se mexe, mas o programa de filosofia já nos fez perder alguns desafios. Refiro-me somente ao programa do 10º e 11º anos, pois o do 12º necessita de outras acções e de uma reformulação completa.

Rolando Almeida

O que é que o programa tem de positivo?

O programa de ensino de filosofia no secundário é aberto, pelo que dá a possibilidade de a ensinar em diversos contextos de diversos modos. Aparentemente este é o ponto mais positivo do programa, mas, efectivamente traz maus resultados para a disciplina. Um programa aberto pressupõe uma cultura filosófica muito sólida, coisa que não nos podemos arvorar em ter, pois não temos. A solidez de uma cultura começa pela base, pelo que mais vale investigar seriamente os pontos cardeais com que se faz a filosofia com boas práticas hoje em dia e começar por aí. Estudar os modelos de sucesso de outros países é um bom passo para nós. Não podemos é insistir em seguir modelos que condenaram a filosofia ao seu parcial ou completo desaparecimento dos currículos de secundário. No domínio das competências o programa de filosofia não necessita de grandes mexidas. Acontece que só se desenvolve competências no aluno se este for confrontado com os conteúdos e é aí que precisamos de algumas mexidas. Em relação aos tópicos do programa, nada de grave a assinalar, muito embora me pareça muito mais plausível falar em filosofia moral em vez de ética e valores, de filosofia da arte em vez de experiência estética ou de filosofia da religião em vez de experiência estética. Mas esta alteração, a verificar-se, é uma questão somente de ir ao ensontro às designações que mais se usam como boas práticas em filosofia. Com isto pode perfeitamente aparecer experiência religiosa no programa que tal não invalida de se praticar um bom ensino da filosofia da religião.

A primeira grande mexida que deveria ser tomada num programa de filosofia, diz respeito a três pontos que me parecem centrais:

1) A 1ª unidade do 10º ano é muito bem escolhida. Nela procura-se dar uma definição de filosofia ao aluno. Só não faz muito sentido que se perca aí tanto tempo. Assim, um pequeno ponto cumpre perfeitamente com o objectivo de tentar colocar o problema da definição da filosofia de um modo claro e até intuitivo para o aluno neófito na filosofia. Ao longo do estudo de dois anos da filosofia, o aluno poderá ser sempre ser confrontado com o problema da filosofia e da sua definição. Nesta fase inicial, como defendo, basta uma aula para colocar o problema. Seguidamente parece-me correcto partir para os instrumentos lógicos do pensamento. E aqui é que faria sentido ensinar as noções básicas de lógica que aparecem somente na 1ª unidade do 11º ano. Ora ensinar estas noções no 11º é ensinar a meio do percurso as ferramentas para trabalhar com os argumentos dos filósofos. Tal não faz muito sentido e faz com que muitos alunos olhem para a lógica como uma unidade isolada que não faz muito pela filosofia, o que é uma ideia tola. O que se deve então ensinar de lógica? Regras muito simples e algumas definições operacionais. Deve ensinar-se a distinção entre validade, verdade, premissas, conclusão, solidez, cogência, lógica formal, informal, etc. Não faz também grande sentido incluir num programa de filosofia do secundário a silogística. O silogismo até pode aparecer no programa como um tipo de raciocínio e é útil ensinar o quadrado das oposições para ensinar a negar proposições. O que deve ser ensinado é algo tão elementar como as tabelas de verdade e os respectivos inspectores de circunstâncias. A melhor forma de interpretar argumentos é desmontá-los para compreender a sua consistência e consequência interna. Se os argumentos são consistentes são, à partida, bons argumentos, caso contrário, são maus argumentos. Ora, na análise formal, os simples inspectores de circunstâncias permitem-nos saber da situação do argumento em apenas alguns minutos. Sei de antemão que a expressão “inspectores de circunstâncias” assusta alguns colegas professores devido a uma má formação em lógica. E sei porque também me assustava! Acontece que é muito mais simples trabalhar com inspectores do que com silogismos. E é mais simples por uma razão: o leque de argumentos a que aplicamos os inspectores é infinito, pelo que qualquer dúvida do aluno é facilmente esclarecida, ao passo que a silogística levanta imensos problemas que não sabemos responder. Precisamente por levantar problemas é que os lógicos reformularam a intervenção lógica nos argumentos. Não estou a afirmar que a silogística seja de todo dispensável. Estou somente a explicar que a lógica proposicional possui uma abrangência muito maior e revela-se muito mais operacional quando queremos ensinar a disciplina de filosofia pela base.

2) Uma vez revisto o ponto 1) não faria qualquer sentido ensinar os pontos seguintes do programa sem atender ao que se aprendeu antes, aos pré conhecimentos. Para além de tudo, se assim fosse não seria possível aferir dos resultados da progressão do aluno e, em consequência, a avaliação contínua cai por terra. O que fazer então? Se aprendemos a ferramenta na 1ª unidade, agora estamos em condições de a aplicar na prática. E o que encontramos no laboratório da filosofia? Argumentos. Temos os temas, por exemplo, «filosofia da religião», e temos os problemas, por exemplo, «será que deus existe?». Para os problemas temos as diversas teses, que mais não são do que os argumentos dos filósofos. Tomás de Aquino apresenta razões para provar a existência de deus. Com uma selecção cuidadosa de textos de Tomás de Aquino, pode-se perfeitamente analisar os seus argumentos, tanto do ponto de vista formal, como informal. Finalmente podemos estudar um autor que objecte os argumentos de Tomás de Aquino. Se assim for, o aluno simultaneamente aprende a ler, a interpretar e, aspecto central na filosofia, a pensar. E isto é fundamental. O professor não tem de ensinar Tomás de Aquino para provar ao aluno que deus existe. Tem de ensinar Tomás de Aquino para mostrar ao aluno que o problema da existência de deus é um problema real e é pensado na filosofia, pelos filósofos. Por regra, os alunos do 10º ano, quando os questionamos na 1ª aula sobre o que ouviram já falar da filosofia, respondem que em filosofia “damos a nossa opinião”. Ora o que possibilitamos ao aluno com a nossa disciplina é que ele dê a sua opinião munido de justificações que o falam compreender a sua opinião. No exemplo dado o professor não tem de se importar se o aluno acredita ou não em deus. O aluno é que, munido dos argumentos, justifica a sua opinião ou crença. E isto é o que significa “do vivido ao pensado”. Em regra todos os alunos têm uma opinião proveniente da sua experiência de vida acerca da existência de deus. Na nossa cultura, em geral, acreditam em deus por imposição, mas não porque tenham pensado muito no assunto. A função da filosofia não é pregar doutrina para angariar fieis, mas fazer com que aquilo que o aluno pensa seja uma conquista sua, autónoma, livre. E podemos dar dezenas de exemplos de acordo com os problemas filosóficos em análise. Na filosofia da arte é comum ouvir-se da parte dos adolescentes que os gostos são subjectivos, pelo que não são discutíveis. Isto é o que eles sabem intuitivamente a partir das suas vivências. Ora, o que pode fazer a filosofia sobre isto? Precisamente dar-lhes argumentos racionalmente sustentados mostrando que pode não ser bem assim. As teorias objectivistas objectam essa crença inicial. Se assim for não há razão para os alunos acharem a disciplina de filosofia aborrecida, pelo contrário, uma boa parte sente que a filosofia lhe está muito próxima e a experiência vai-me mostrando que os jovens aderem muito facilmente a estas discussões, mesmo aqueles que trazem muita falta de vontade no seu percurso escolar. E isto remete-me para o meu ponto final sobre o programa.

3) O programa de filosofia tem de fomentar a discussão filosófica. E só a fomenta se contemplar conteúdos filosóficos. Não interessa que o programa contemple Heidegger ou Stuart Mill. Interessa que contemple os argumentos centrais. Como é que sabemos quais são os argumentos centrais? A melhor forma é lendo as boas introduções à filosofia que hoje em dia são publicadas. Por regra estas introduções são feitas por filósofos e não são feitas para enganar o povo, são resultado da investigação em filosofia. Esta prática é hoje muito comum em todas as áreas do saber. Muitos cientistas, filósofos, artistas, etc., após fazerem as suas investigações muito específicas, escrevem obras introdutórias para mostrar o percurso, isto é, como é que algum dia se pode chegar a fazer investigações específicas. Se essas obras são feitas pelos investigadores, normalmente pelos melhores, se não confiarmos neles vamos confiar em quem? Do mesmo modo os nossos jovens estudantes confiam em nós, professores, para lhes ensinarmos filosofia.

Conclusão

Não pensei aqui aspectos técnicos do programa, como a divisão em tempos lectivos, práticas lectivas, etc. Falei de um modo geral e pretendi somente apontar sugestões de trabalho. Tenho consciência que não existem programas perfeitos. Por essa razão defendo que qualquer programa merece reformulação que visem limar defeitos elementares visando sempre melhorar a consistência da disciplina. Resta-me desejar que estes apontamento vão sendo úteis.

publicado por rolandoa às 11:13

link do post | favorito

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS