Sábado, 7 de Junho de 2008

Grelhas de avaliação de manuais

istock_000002664920small Não tenho a certeza se todas as escolas cumprem com o requisito que a seguir vou comentar. Na escola onde trabalho é-me entregue, como representante de disciplina, um documento que tenho para apresentar de avaliação do manual adoptado e que também tem de ser preenchido para os outros manuais que estiveram em análise. Ora se o meu trabalho fosse o ponto de ordem, passaria uma semana a preencher os ditos papelinhos para o Ministério da Educação, uma vez que produzi algum trabalho de análise de manuais, como de resto é sabido e conhecido. Bem, simplifico ao máximo este trabalho por uma razão: porque não acredito nele nem que ele produza mais efeitos do que a rica burocracia que o Ministério promove a toda a hora com pilhas de papéis para a escola, mesmo em pleno choque tecnológico (por acaso o copy past tem-me dado muito jeito para me poupar a imensa burocracia que por aí grassa). A ideia é claramente kafkiana, fascista vá lá – eu é que queria ser suave (mesmo que o ambiente Kafkiano de suave tenha muito pouco, mas como é literatura, tal coisa não ofende muito (só nos ofendemos quando a selecção nacional de futebol perder com a Turquia).

Rolando Almeida

Lembra aquele ambiente em que dezenas de funcionários estão num grande armazém todos sentados a uma secretária supervisionados por um chefe gordo de bigode de varinha na mão pronto a apontar qualquer indício de inércia. Ora, neste ambiente, todos os trabalhadores, mesmo sem estar a produzir a ponta dum caracol tem de mostrar um ar muito devoto ao que estão a fazer, mesmo, repito, que não exista nada que produza. As nossas escolas andam neste movimento: produzem quilos de burocracia sem qualquer efeito activo. Mas não quero aqui para já discutir as razões porque tal acontece deste modo. Ás vezes confesso que me sentia mais útil numa escola se estivesse a varrer o chão. Bem, o tal documento burocrático visa dar a indicação ao Ministério dos erros graves que aparecem nos manuais, bem como da sua qualidade geral. Até aqui há um ponto positivo e que me deixa numa posição confortável: é que o Ministério dá-me razão ao pedir este documento, pois parte do pressuposto, correcto, que alguns manuais tem erros e, mais do que erros, erros graves. De acordo! É o que mais tenho dito! Por outro lado o documento sugere que os professores são sensatos e não adoptam manuais com erros graves, mas são capazes de os detectar: bem aqui não sei o que dizer, mas não posso deixar de fazer uma observação: se os editores se anteciparam ao Ministério ao contratarem revisores científicos, a maior parte deles, professores universitários com nome instalado na praça, 1) por que razão desconfia o ministério que os seus funcionários do superior atestam manuais com erros graves? 2) por que razão deixam os universitários passar para o secundário manuais com erros graves? Há aqui alguma coisa de muito errado e creio que temos matéria suficiente, para de uma forma disciplinada, discutir o assunto.

Centrando agora no corpo do documento.

O documento está centrado em 4 pontos essenciais sobre os quais os manuais devem ser sujeitos a avaliação. A primeira nota a reter é que estes pontos são universais, servindo tanto um manual de 7º ano, como de 12º, o que deixa desde logo antever uma situação: a análise é abrangente e, em consequência, vaga. Isto faz-me lembrar a avaliação dos docentes, em que um docente de Educação Física, por exemplo, vai ser avaliado com critérios praticamente iguais aos de um docente de matemática. Começa-se logo aqui a perceber como é que o saber e o conhecimento são tratados nos manuais e na análise que o Ministério pede. Os 4 pontos são: “organização e método”, “informação”, “comunicação” e “características materiais”. Até aqui a coisa passa bem, mas vamos a cada um dos pontos em particular. Cada ponto tem uma meia dúzia de subpontos muito interessantes, logo a começar no subponto 1 de “Organização e Método”. Pede este ponto para avaliar de insuficiente a excelente o seguinte: ”apresenta uma organização coerente e funcional, estruturada na perspectiva do aluno”, bem, há aqui duas interpretações possíveis:

1) segundo o aluno o manual está bem estruturado e é funcional?

Ou

2) O manual está bem estruturado e é funcional para o aluno usar? Parecem iguais, mas não são.

Se 1) for o caso, então temos de perguntar aos alunos o que pensam dos manuais, o que até me parece possível fazendo algum estudo sistemático. Se estivermos a pensar em 2), são os professores que avaliam o manual, mas tendo em atenção o aluno. 2) é pura e simplesmente idiota, pois afinal para quem adoptam os professores os manuais? Como o disparate é muito e o meu tempo reduzido sou forçado a avançar se quero mostrar mais algumas preciosidades. O subponto 5 pede a seguinte avaliação: se o manual “permite percursos pedagógicos diversificados”. Se estivermos a pensar na filosofia, que é o caso, o que é que podemos esperar deste ponto? Que o manual propõe de vez em quando para ver um filme, passear na escola, pintar o muro da escola, comer chocolates só na hora do lanche, etc.? ou, então, que o manual propõe que se façam trabalhos de grupo, que o professor utilize o powerpoint, etc.? Bem, para despachar este absurdo, vou clarificar um aspecto importante, mas que tem feito muita confusão a muita boa gente: uma coisa é um manual de filosofia, outra bem diferente um manual de pedagogia. Claro que pode existir um manual de pedagogia da filosofia. Aliás, os livros de Lipman são manuais de pedagogia para ensinar filosofia a crianças, mas não são manuais de filosofia. O manual não tem de propor percursos pedagógicos diversificados. Um manual de filosofia tem é de expor com clareza e rigor os problemas e argumentos filosóficos. O professor é que pode e deve propor percursos pedagógicos diversificados. Bastaria ir por aqui para perceber que os senhores do ministério não sabem o que andam a fazer e a pedir aos professores. Mas também não percebo muito bem como é que muitos professores aceitam estes absurdos sem pensar muito no assunto, mas aceito a ideia que nós, professores, andamos demasiado formatados para a burocracia, que dá trabalho, é verdade, mas trabalho inútil porque improdutivo. Desejo mesmo avançar, mas mal olho para o formulário, que leva o nome pomposo de “Documento de Trabalho” e dou logo com os olhos no ponto 6 com esta proeza: “O manual contempla sugestões de experiências de aprendizagem diversificadas, nomeadamente de actividades de carácter prático e experimental”. No caso da filosofia este ponto adquire contornos radicais e violentos. Vamos pensar num exemplo: estamos a tratar o problema dos direitos morais dos animais não humanos. Um manual que contemple, por exemplo, esfolar gatos para ver na prática se tal acto é moralmente correcto ou incorrecto terá, neste ponto magnífico, mais pontuação que um outro manual que não proponha actividades práticas desta natureza. Será que vale a pena prosseguir nos exemplos? Pedofilia, aborto, eutanásia… e já agora (apetece-me mesmo desmontar esta porcaria) e se forem problemas metafísicos? Avançando.

O subponto 3 do ponto “Informação” pede para avaliar se o manual “fornece informação correcta, actualizada, relevante e adequada aos alunos a que se destina”. A maior parte dos manuais de filosofia (não todos atenção) chumbava este ponto. A informação relevante e adequada aos alunos a que se destina tem a ver com aquilo que os alunos gostam, desde os morangos com bacalhau, até aos ténis All Star. Talvez seja isto que quem pensou esta grelha estava a pensar, não sei. O manual deve fornecer informação relevante, rigorosa e central da disciplina que ensina. Já se está mesmo a ver que esta ficha é mesmo eduquês. A única preocupação que revela quanto aos manuais é se serve o aluno. Agora se o manual é de filosofia e fala de alhos e bugalhos, menos de filosofia, que se lixe. E depois ainda há colegas aqui no blog todos revoltados quando são confrontados com um manual que tem a preocupação de 1) ensinar filosofia 2) ensinar filosofia a adolescentes do secundário. Mas segue-se mais dois subpontinhos mesmo a condizer com a ideologia do eduquês: subponto 5, “promove a educação para a cidadania”, 6, “não apresenta discriminações relativas a sexos, etnias, religiões, deficiências,…” As reticências não são minhas e fico sempre a pensar o que significam? Talvez, “políticos, benfiquistas, gajos que gostam de cerveja, etc.” Porque é que afirmo que estes pontos são expressão da ideologia? O que a escola deve antes de tudo ensinar é o conhecimento, o saber e a ciência. Só em posse do conhecimento é que alguém pode emancipar-se em liberdade e sair da ignorância. Ora, o eduquês o que propõe, ainda que subtilmente, é o amestramento dos estudantes a serem acriticamente amigos dos negros, da natureza, dos muçulmanos e dos cristãos, etc. A diferença é que tínhamos uma sociedade conservadora com ideias próprias da época (escravizar os negros, fugir dos ciganos, etc.) e agora queremos uma sociedade que também é fruto da época (tolerar, tolerar, tolerar…). Acontece que um sistema educativo que prefere o amestramento (aparentemente mais fácil e menos dispendioso ao Ministério) à educação livre, é um sistema que só pode estar falido em termos democráticos. Claro que a escravatura é uma estupidez, mas é importante que cada um possa ver as razões por que a escravatura é absurda pela sua própria cabeça e não porque foi formatado a pensar assim. Se não fosse assim, os seres humanos nunca tinham percebido que a escravatura é estupidez humana. E o que o eduquês promove é esta hipocrisia dos valorzinhos para o povo. Se queremos indivíduos criativos, tolerantes, livres, autónomos, demos-lhes conhecimento que eles saberão construir o mundo porque aprenderam desde cedo a realizar as suas próprias descobertas. Não se constrói um mundo sem escravos só porque é moda não escravizar. Constrói-se um mundo sem escravos porque as pessoas são capazes de pensar as razões pelas quais a escravatura não é desejável. Mas não é isto que a ideologia do eduquês promove.

O ponto seguinte, “comunicação” não traz qualquer novidade ao que já foi aqui dito, aprofundando ainda mais o absurdo com subpontos como, “a concepção e organização gráfica do manual facilitam a sua utilização e motivam o aluno para a aprendizagem”, se “as diferentes tipos de ilustrações são correctos, pertinentes e relacionam-se adequadamente com o texto.

Finalmente, um ponto que também levanta algumas questões. O ponto é sobre As características dos materiais e levanta supontos como: se o manual é de fácil transporte, se é reutilizável, se o formato, dimensão e peso são adequados etc. O que há de curioso nisto?

1) Se o Ministério não impusesse a adopção de manuais, as editoras não seriam tão agressivas na altura das adopções e limitar-se-iam a fazer manuais mais modestos e mais baratos. Os manuais dos estudantes do básico e secundário ingleses e americanos não são coloridos nem em papel da melhor qualidade, nem são, em razão disso, tão caros aos pais dos alunos;

2) O ministério pede aos professores que avaliem se o manual é pesado e com formato adequado, mas é o mesmo ministério que promove programas extensos com imensas unidades de opção, que encarecem os manuais uma vez que aumenta o número de páginas e, lá está, o peso. Mas é o que dá aprendizagem centrada no aluno. Temos de dar a liberdade do professor optar por uma infinidade de temas e problema e os editores querem oferecer essa diversidade nos seus manuais. Por vezes de 100 páginas vão-se leccionar somente 5.

Este documento de trabalho inclui ainda um anexo 2 para descrição dos problemas em relação a: 1) adequação do programa / orientações curriculares, qualidade científica (incorrecções graves) – pede para apontar as páginas dos erros – e adequação ao nível etário dos alunos – pede também para apontar as páginas onde se detectaram problemas. Ora bem, para que quer o Ministério isto tudo? O que irá fazer com este material? Será que vai produzir manuais? Este é o trabalho que praticamente todos os editores fazem. Basta que façamos um teste: enviar um email a uma editora de manuais qualquer no qual se refira o seguinte: “Gostaria de vos indicar que o vosso manual é mau”. Recebem logo de imediato um convite, muito simpático, a pedir para indicarem os erros. O que os editores querem é fazer manuais de qualidade, por essa razão andam sempre atrás dos professores e tratam-nos com muito mimo. A culpa dos maus manuais não é dos editores, mas de quem os faz e do sistema educativo que promove o eduquês desmerecendo o rigor, o saber e o conhecimento e a qualidade do ensino só pode estar no rigor daquilo que se ensina e não noutro lugar qualquer inventado politicamente para servir interesses ideológicos e demagógicos.

Este ficha fez-me acreditar com maior convicção que a crítica e análise pública é o melhor caminho para se melhorar um trabalho. Imaginemo-nos a todos filósofos. Estaríamos porventura à espera que algum ministério viesse impor rigor nas nossas conversas públicas? Isso é o que faríamos uns aos outros, discutindo livremente os problemas. E é isto que nos faz falta, habituar-nos a discutir as coisas e a trabalhar conjuntamente.

publicado por rolandoa às 16:45

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5 comentários:
De Anónimo a 8 de Junho de 2008 às 11:29
"Ás vezes confesso que me sentia mais útil numa escola se estivesse a varrer o chão"

Permita-me que o cumprimente pela sua lucidez.
De rolandoa a 8 de Junho de 2008 às 12:27
Caro Conterrâneo, uma vez que me escreve de Vila Nova de Gaia,
Não se esqueça que também falo em seu nome!
De Anónimo a 8 de Junho de 2008 às 13:14
Enganou-se, ainda que por pouco.
Quis imitar os neo nazis que aterrorizam pessoas dizendo-lhes que sabem onde moram?
Queira fazer o favor de ir para junto da sua mãezinha, percebe?
De rolandoa a 8 de Junho de 2008 às 13:24
Meu caro,
Esperava maior educação da sua parte.
1) o meu blog não é um lugar livre, pelo que me reservo aos meus direitos;
2) quem é que anda a brincar aos neo nazis, eu, ou o anónimo? Isto porque se armou em chico esperto a mandar a sua boquinha, mas anónimo, como é próprio da cobardia.
Se eu andasse a brincar aos neo nazis não assinava no blog, nem nos nos comentários. Mas não tenho medo de dar a cara.
Portanto, para casa da mãezinha vá você pá e seja bem educado que eu tenho os meus dias. Trabalhe, exponha o seu trabalho: Mostre-se.
De neubi a 18 de Julho de 2010 às 22:29
http://webx.ubi.pt/~d1elmec/

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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