Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Que fazer nas últimas aulas?

beer_can_chicken Galinhas com problemas psicológicos

Confesso que passei um bom bocado desta tarde em busca de uma referência que me ocorreu ainda pela manhã. Infelizmente não consegui encontrar, mas como não estou a escrever para a mundial, creio que estarei desculpado no modo como a vou invocar. A referência é de Peter Singer, em Como havemos de viver? A ética numa época de individualismo, Ed. Dinalivro, 2005. Gostaria de ter relido a passagem, mas vou arriscar a tentar reproduzir fielmente a ideia do autor o que me vai operacionalizar aqui outra ideia. Trata-se de uma passagem em que Singer fala de um problema que os criadores de galinhas tiveram com as suas aves. Estes repararam que as galinhas começaram a picar no pescoço umas das outras com muita violência e não conseguiam explicar o fenómeno, até que um etólogo sugeriu aos criadores que retirassem todo o milho dos recipientes e o espalhassem entre a palha do galinheiro. O resultado é que galinhas deixaram de se picar umas às outras. A finalidade com que a galinha está equipada é procurar alimento com o bico que tem preparado para tal. Ora, ao oferecer-lhe o alimento estamos a bloquear a possibilidade da galinha cumprir com a sua finalidade última, para a qual está instintivamente preparada. Podemos estabelecer uma analogia com os humanos. O sentimento de infelicidade aparece quando deixamos de ter objectivos, quando nos é bloqueada a nossa possibilidade de cumprirmos com a finalidade última.

Rolando Almeida

exams Alunos com falta de vontade

Um dos problemas, apesar de não me parecer dos mais graves, que vejo os colegas de profissão, os professores, queixarem-se diz respeito às últimas aulas do ano. Após a realização do último teste os alunos entram numa espécie de bloqueio mental ao trabalho do professor. Por outro lado, sejamos justos: se a avaliação está cumprida até ao último ponto, está já testada, que sentido faz passarmos mais uma ou duas semanas (as finais) a leccionar conteúdos? Ora uma sugestão viável consiste em aproveitar essas aulas para apresentação de trabalhos dos alunos, quando são pedidos para avaliação. Outra (a que eu mais adopto) é fazer uma apresentações em powerpoint com argumentos sobre problemas filosóficos, lançando alguma discussão nas aulas. E ainda outra (também recorro ocasionalmente a esta) é aproveitar estes tempos lectivos para exibir o tal filme que mostra o problema filosófico X. Seja como for, compreendo que é uma situação algo embaraçosa para professor e alunos. Isto seria muito bom se estivéssemos todos muito auto motivados.

A origem do problema

Um dos objectivos de qualquer estudante é aprender e um dos objectivos de qualquer professor é ensinar bem os seus estudantes. Não há formas perfeitas para aferir as aprendizagens dos estudantes do mesmo modo que não existem formas perfeitas de aferir a qualidade de ensino de um professor. É perfeitamente possível um meio estudantil no qual não existam exames. Para tal bastaria que todos possuíssem uma cultura de ensino fortíssima, em que a escola seria encarada como um valor em si mesmo. Esta seria a sociedade de ensino perfeita e, como tal, não existe, ainda que seja possível pensar num mundo assim. Há graus de cultura de ensino, uns mais evoluídos que outros, mas todos, sem excepção, com os seus problemas. Desde modo é um disparate conceber um sistema de ensino onde não há exames, que é uma das formas mais eficazes de aferir conhecimentos e aprendizagens aos estudantes. Um sistema de ensino mais forte pode dispensar os seus estudantes de alguns exames. Um sistema de ensino mais frágil, precisa dos exames para disciplinar o trabalho, a ciência, o saber em geral. Ora, o que acontece na realidade é precisamente o oposto do que aqui relato: os sistemas de ensino mais sofisticados são aqueles que têm mais exames (em razão disso também são os mais sofisticados) e os menos sofisticados – como o português – são os que têm menos exames. Uma sociedade estudantil habituada a passar de ano sem grande rigor, é uma sociedade mal preparada para qualquer desafio e uma sociedade educada a valorizar o laxismo. Sem exames, uma sociedade destas não vê qualquer valor intrínseco nos estudos, pelo que, sem exame, estes estudantes educados no laxismo se estão nas tintas para a escolas e para as aulas, principalmente quando não tem de fazer testes e exames.

E em conclusão?

Se o professor faz o último teste do ano na penúltima semana de aulas – o que é legítimo, por um lado para ter tempo de corrigir, entregar e avaliar todas as suas turmas, por outro lado porque as nossas escolas inventaram uma teoria engraçada de que os estudantes não podem fazer mais que um teste por dia, de modo que é uma complicação arranjar datas para testes - , restam 3 ou 4 aulas de 90 minutos em que literalmente não pode fazer nada, a não ser inventar um pouco. Se tiver alunos educados a coisa ainda vá que não vá. Desgraçado do professor que tem uma turma com adolescentes infantilizados pelo sistema educativo. Se existisse exame este problema não se colocaria, pois o professor ou estava a terminar o programa, ou então estaria a aproveitar todas as aulas para fazer revisões e tirar dúvidas.

Que fazer?

Um Ministério tão preocupado com a excelência da educação, priva cada vez mais os estudantes de um dos mais eficazes meios para motivar para o ensino, abrindo lugar a uma grave distorção de incentivos. Por outro lado, o Exame “obriga” o professor a ser rigoroso e muito mais atento ao que está a ensinar. Há alunos que terminam as aulas no início de Junho e não vão fazer um único exame, ficando de férias gordas até Setembro. Há professores que terminam agora as aulas e vão estar diariamente nas escolas a tratar de burocracias completamente inúteis para a educação dos nossos jovens. Creio que não é necessário explicar mais… E um ensino assim, só pode ser de ou para brincar.

publicado por rolandoa às 01:30

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3 comentários:
De Isabel a 4 de Junho de 2008 às 11:51
A continuar assim, a Escola Pública transforma-se num enorme CEF. É isso que a tutela quer. Reduzir os custos com o ensino e mostrar à Europa que não há insucesso.
isabel
congelado
De Luís Vilela a 4 de Junho de 2008 às 16:37
Oportuna referência! Mais uma.
Não sei se é solução, mas tem funcionado muito bem com as minhas turmas. Desde a minha primeira aula, os alunos sabem que a avaliação só termina na última aula. Rigorosamente. Até lá, estou a avaliá-los quanto a conhecimentos e a atitudes. E até competências - conforme as disposições. E assumo o compromisso de cumprir o programa. E, apesar da resistência inicial, os alunos compreendem por que tem de ser assim.
A cereja no topo é a seguinte: a última aula é destinada - não a pedir-lhes que "atirem" uns números para o ar, em jeito de bingo - mas no preenchimento de um documento de Auto-avaliação (e também se pronunciam sobre o meu trabalho), de acordo com o compromisso assumido desde a primeira aula.
Claro que isto funcionaria ainda melhor se pudéssemos fazer exames nacionais. Seriam avaliados os alunos e os professores. Responsabilizando, em justa medida, todos os intervenientes.
Na presente realidade, o que parece contar são as estatísticas - não dos exames - mas dos chumbos! Que custam caro - como ouvimos da Ministra - e toca a "passar" todos (como vemos na avaliação que é proposta para os docentes!) ou a enviar os "meninos" para CEF´s ou EFA´s que garantem conclusão dos ciclos sem grande exigência. E para quê? Se depois serão os mesmos que não conseguem prosseguir carreiras profissionais adequadas, porque as entidades laborais (e a sociedade em geral) não reconhece qualidade àqueles percursos.
Andamos mesmo a brincar... e com o fogo!
Saudações,
Luís Vilela.
congelado | discussão
De rolandoa a 4 de Junho de 2008 às 22:42
Viva Luís,
Ainda bem que dás essa sugestão. O blog existe para isso mesmo, para partilhar as nossas experiências. Por acaso já não faço a avaliação dos alunos ao meu trabalho, mas é verdade que é um mecanismo muito útil para nos apercebermos das nossas fragilidades como professores.
A auto motivação das aulas no secundário funcionaria muito bem se os alunos viessem com esse investimento desde trás, o que não acontece. Claro que o que eu referi no meu post não exclui o talento de dezenas e dezenas de colegas que conseguem aproveitar muitas aulas para mostrar muitos aspectos do mundo e da filosofia aos alunos. Acontece que este trabalho everia estar coordenado e não depender assim tanto da arbitrariedade.
Obrigado pelo teu comentário
Rolando A

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