Domingo, 1 de Junho de 2008

Manuais e comércio

Philosophy2005_F1 Os manuais escolares são responsáveis por mais de metade do volume de vendas de livros no nosso país, segundo algumas fontes públicas. Quer isto dizer que o negócio é apetecível e concentra o interesse dos maiores grupos editoriais. Em certo sentido devemos ficar felizes quando sabemos que os livros vendem bem. No caso dos manuais vendem porque são obrigatórios. Por regra, com algumas excepções, os autores de manuais ganham consoante o número de escolas que adoptam o seu livro. Assim, um autor adoptado em 5 escolas ganha muito menos dinheiro do que se for adoptado em 20 escolas. Este é o funcionamento do sistema e, à partida, nada de relevante a assinalar. Claro que os autores entram na corrida para que os seus manuais sejam o mais adoptados possível. E também não vejo problema algum decorrente daí, mas é justo assumir que aparecem efeitos marginais a este sistema, sendo que um dos mais evidentes é que alguns autores façam manuais sem qualquer qualidade para ganhar algum dinheiro. E, claro, da parte dos editores montam uma verdadeira operação de marketing com apresentações dos manuais em hotéis de luxo, para além de oferecerem os manuais aos professores, que encarece os dos alunos, pois alguém vai pagar essa distribuição gratuita.

Rolando Almeida

Ora bem, há formas muito eficazes de travar ou minimizar estes efeitos principalmente o de aparecer na corrida manuais sem qualidade. Uma delas é fazer um conjunto de leis com as principais directrizes de concepção de manuais. Acontece que quem faz leis não sabe de filosofia, pelo que não tem forma de saber da qualidade dos manuais. Recentemente os grupos editoriais inventaram mais uma falsidade: os autores convidam alguém com nome na filosofia, geralmente um professor universitário, que empresta o nome em troca de uns bons euros pagos pelos editores, para aparecer na capa como revisor científico. Claro que algumas destas pessoas querem é o dinheiro e protagonismo, uma vez que não fizeram revisão de coisa alguma e, se o fizeram, então nada sabem de filosofia pois deixam passar erros graves. Outra das formas de controlar os maus manuais e provavelmente a forma mais eficaz, é a crítica pública de manuais. A crítica pública de manuais, de preferência pelos próprios fazedores de manuais, evitaria em grande parte a corrupção latente de certificar manuais que não possuem qualidade. Se um autor souber que se falhar tem a crítica à perna, vai evitar falhar. Claro que no nosso país confunde-se tradição salazarista com crítica pública e pensa-se que criticar publicamente é dizer mal para defender uma determinada ideologia. Infelizmente, numa boa parte das vezes, a crítica pública em Portugal que acontece desde nos blogs até aos jornais e telejornais, não passa de histórias de folhetim e inimizades de bairro. Mas ainda existe um outro instrumento para tentar reduzir este efeito à crítica pública, que é a capacidade de produção de quem crítica. No futebol, é considerado um bem ter o José Mourinho como comentador crítico de um jogo. E a razão é que o José Mourinho sabe o que a casa gasta e está habilitado a analisar o trabalho dos seus pares, os outros treinadores. Além do José Mourinho, temos a grande massa de milhares de treinadores de bancada, mas esses não estão a jogar em casa, são meros espectadores que não estão habituados nem às regras, nem às tácticas do futebol. Algo semelhante pode acontecer com os manuais escolares, que os pares se pudessem criticar publicamente uns aos outros. Se os professores usarem a inteligência vão perceber claramente quem faz a crítica movido pelo dinheiro ou movido pela qualidade do ensino da filosofia. Aliás, um autor de um manual, ao ler uma crítica ao seu trabalho, só tem duas saídas: ou está calado porque não tem defesa, ou responde defendendo-se.

Frequentemente tenho lido nos comentários do blog acusações de interesses ideológicos e comerciais relativamente ao manual A Arte de Pensar. É como se existisse uma expécie de conspiração anglo saxónica contra a verdadeira filosofia, aquela que mais aprendemos nas universidades. Eu não sei se os autores do Arte de Pensar fizeram ou não um manual para ganhar dinheiro, tal como não o sei em relação a outros autores de outros manuais. Mas há uma realidade que eu sei porque é factual. É que os autores do Arte traduzem livros, escrevem livros, traduzem gratuitamente textos e textos, participam activamente em fóruns de discussão, dão palestras gratuitas, oferecem dicionários de filosofia on line, mantém uma produção on line invejável. Ora, que não passe pela cabeça de alguém que aquela gente vive destas actividades porque, estas sim, não dão qualquer dinheiro ou dão muito pouco. E isto ao passo que os autores de outros manuais, a única coisa que fazem pela filosofia é exactamente um manual de filosofia, nada mais. Dá-me para perguntar quem é que tem aqui interesses comerciais e quem é que possui um interesse genuíno pela filosofia? Claro que, perante este estado de coisas, acho muito curiosos os comentários que acusam os autores do Arte de Pensar de interesses comerciais ou ideológicos. Stuart Mill alerta em Sobre a Liberdade (Ed, 70), que uma falsidade quando repetida vezes sem fim, facilmente é tomada como uma verdade. Mas somos nós, profissionais da filosofia, quem ensinamos aos nossos alunos que pensar criticamente é pensar pela própria cabeça, pelo que, pelo menos, temos obrigação de pensar um pouco o que é que realmente se passa na produção de manuais de filosofia. Parece igualmente claro que não estou aqui a defender que os autores de manuais ou livros de filosofia não devam ganhar dinheiro com o seu trabalho. Não parto do princípio que os autores de materiais de filosofia sejam todos filhos de pais ricos que sustentam a sua actividade. Por regra, os autores destes materiais mantêm os seus empregos, em geral, como professores ou do ensino secundário, ou do ensino superior. Não faz sentido que determinados boatos sejam aceites sem qualquer sentido crítico. Recordo muito bem colegas e inclusive professores universitários tratarem a filosofia anglo saxónica como algo a evitar. Há bem pouco tempo, um professor universitário referiu-me que não se filia na tradição analítica como se de um cancro se tratasse. Mais recentemente um amigo, doutorado em filosofia, escreveu-me a dizer que a filosofia analítica não passa de uma grande farsa condenada ao fracasso. Não se percebe muito bem as razões deste pavor à filosofia chamada analítica que mais não é do que a filosofia que se faz hoje em dia, nos melhores e maiores centros de investigação do mundo. Deveríamos aceitar esta realidade, pois a conspiração está do lado de cá, ainda que não nos apercebamos: trata-se de uma estúpida guerra entre departamentos universitários. Claro que a filosofia tal qual se faz hoje em dia é o resultado de investigação séria e não somente um produto da moda. Recordo ainda que, no meu período de universidade a filosofia analítica (muitas vezes erradamente tratada como a filosofia americana) era tomada como o mal radical na filosofia. Acontece que a chamada filosofia analítica é a filosofia que segue a tradição filosófica e, ao contrário dos nossos pressupostos, o discurso pós moderno é que constitui uma cisão temporal no progresso da própria filosofia. Aliás, é o discurso pós moderno que de forma muito directa anuncia o fim das “grandes narrativas”, o fim da possibilidade de verdade no discurso filosófico e a apologia do relativismo. Imensos filósofos contemporâneos trataram de desmascarar este discurso do relativismo pós moderno.

Recusar aprender a lógica proposicional, ler filósofos de universidades inglesas, australianas ou norte americanas é recusar que vivemos no século xxi, que os métodos da filosofia revelaram progressos e remeter a filosofia para um lugar de obscuridade que ela não merece. Continuar a aceitar manuais que alinham nestas idiotices é comprar bilhete para assistir ao funeral do ensino da filosofia. Bem, se ao menos esses manuais fossem mal inspirados mas bem elaborados, tal parece-me perfeitamente aceitável. O problema é ainda outro: é que são manuais que nem pertencem à posição X nem Y, nem analíticos, nem pós modernos, mas manuais cheios de idiotices.

Recentemente um leitor levantou uma questão interessante e que acabou por me despertar a vontade de escrever este post. O leitor considera que o colega Paulo Ruas, autor do manual Logos (Santillana) falhou moralmente ao analisar um manual de outros autores. Ora, o que aqui estou a defender é que não existe qualquer problema moral nessa atitude e que, para além do mais, é exactamente assim que se deve trabalhar. Em Portugal estamos habituados a ver um comentador na Tv, que não é especialista de nada a não ser a viver da sombra da fama, a opinar injustificadamente sobre todos os assuntos da nação, desde a literatura, à filosofia, à política, etc. Ora, isto não é bem assim noutros países. Se um escritor escreve um livro, são os outros escritores que fazem a crítica pública, positiva ou negativa e não um opinador que nada sabe de literatura. Imagine-se que agora eu lançava uma obra de filosofia a defender a tese X e via o Miguel Sousa Tavares e o Marcelo Rebelo de Sousa a discutir o meu livro, como se fossem filósofos, ao passo que os meus colegas de filosofia ficavam em silêncio. Há uma situação ainda mais radical: será que os biólogos permitiriam que o Miguel Sousa Tavares discutisse as mais recentes teorias da biologia no Jornal da Noite? E por que razão na filosofia não nos incomodamos muito que falem da filosofia mesmo sem saberem de filosofia? Já é altura de se fazer alguma justiça moral a quem faz algo pelo ensino da filosofia.

publicado por rolandoa às 17:50

link do post | favorito
4 comentários:
De Márcia Adriana a 1 de Junho de 2008 às 20:39
Fico espantada por saber é q alguns "filósofos " se prestam a esse serviço de assinar ou dar seu aval a algo q não revisaram. Para qq profissional é algo terrível , mas pra um filósofo q na maioria das vezes é tb professor me parece mesmo é triste e de grande prejuizo para os alunos, q receberão o produto final desses trabalhos.
Agora ,qto aos produtores do Arte fazerem os manuais pra ganhar dinheiro, bem, temos visto q não é só pra ganhar dinheiro, mas se o fazem "também" pra ganha-lo não vejo problema, uma vez q são qualificados e devem receber pelo seu trabalho como todos nós. Nada mais justo.
Bom trabalho pra v caro Rolando, parabéns pelo blog mais uma vez!
Abrç!!
congelado | discussão
De rolandoa a 1 de Junho de 2008 às 22:02
Márcia,
Bem, eu levantei essa hipótese uma vez que os manuais são revistos, mas continuam com erros graves. Mas não tenho provas disso.
abraço
De António Paulo a 3 de Junho de 2008 às 21:39
Rolando
A propósito da crítica de Paulo Ruas ao manual da Asa e de algumas críticas subsequentes, publicadas na caixa de comentários do teu blog à crítica de Paulo Ruas, encontrei um pequeno excerto de T. Kuhn interessante e relevante para o assunto. Podes encontrá-lo em http://hermes-embuscadesophia.blogspot.com/2008/06/filosofia-e-crtica.html
Um abraço
António Paulo
congelado | discussão
De rolandoa a 3 de Junho de 2008 às 22:57
António P,
obrigado pela referência. O Feynman tem um bom texto sobre os manuais que podes encontrar neste link: http://criticanarede.com/html/ed104.html
abraço

Comentar post

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS