Sábado, 31 de Maio de 2008

Uma situação embaraçosa no ensino da lógica

engrenagem01 Quando leccionamos lógica no 11º ano, de uma forma elementar começamos por dizer aos alunos que a lógica melhora a capacidade para raciocinar. Podemos estar a lidar com uma situação embaraçosa ao fornecermos uma explicação destas aos alunos. Bem, de uma forma ampla, a explicação parece-me correcta. Acontece que a formação dos estudantes ainda adolescentes condiciona-os a uma interpretação literal do que estamos a dizer. Assim, um estudante rapidamente pensa que depois de estudar lógica vai raciocinar com mais correcção, mas a realidade quotidiana, na maior parte das vezes, demonstra algo mais dramático, que nem sempre raciocinamos melhor por saber mais lógica. Isto pode ser decepcionante. A nossa tarefa como professores é mostrar-lhes o contrário. O livro de W. H. Newton-Smith, lógica, um curso introdutório, Gradiva, tem um pequeno mas interessante sub capítulo que nos ajuda, aos professores de filosofia, a lidar um pouco melhor com este embaraço (p.25). O autor compara – e bem – o que se passa com a lógica com o que se passa com a linguística. De um modo intuitivo sabemos distinguir muito bem as frases que obedecem a regras daquelas que não obedecem.

Rolando Almeida

Sem uma gramática elementar uma frase revelar-se-ia incompreensível. O mesmo se passa com os argumentos. Sem aplicarmos, mesmo intuitivamente, regras elementares, seria impossível compreender a relação entre premissas e conclusão num argumento. A vantagem em estudar lógica é precisamente a de passarmos de argumentos mais intuitivos para argumentos mais complexos. Se ao nível mais intuitivo não precisamos de saber muita lógica para distinguir um argumento válido dum inválido, a um nível mais sofisticado dos argumentos, tal é necessário. Assim, a melhor forma de mostrarmos aos estudantes a importância do estudo da lógica é partirmos daqueles argumentos que intuitivamente eles percebem se são ou não válidos e ir subindo gradualmente a parada. Não vale a pena fazer promessas aos estudantes que podemos não cumprir ou que eles podem não assumir como cumpridas, como o prometer-lhes que se estudarem lógica vencem todas as discussões. Creio até que é mais justo para os estudantes a explicação de que a lógica serve para distinguir argumentos válidos dos inválidos e partir logo para os argumentos e a sua análise. E isto sim, chama-se ensino centrado nas vivências do aluno, sem ter de entrar em disparates como aqueles que assistimos tantas e tantas vezes no ensino, resultado de fazermos aquilo que menos gostamos que os alunos façam, tomar as frases como acabadas como aquela que afirma que a aprendizagem deve estar centrada no que o aluno sabe. Há dois livros em português que abordam estas questões e que são muito úteis aos professores. Em termos práticos seria muito bom termos traduzidos os livros de Alec Fisher, principalmente o Critical Thinking. São livros cheios de exemplos. Este ano foi traduzido no Brasil, a Lógica dos Verdadeiros Argumentos (Ed. Novo Conceito, 2008). Deixo a referência das duas obras disponíveis em língua portuguesa, indispensáveis na biblioteca de qualquer professor de filosofia, apesar de ausente numa boa parte delas.

W. H. Newton Smith, Lógica, um curso introdutório, Gradiva

Anthony Weston, A Arte de argumentar, Gradiva

publicado por rolandoa às 01:12

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Rolando Almeida


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