Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Menos só

why_so_alone Finalmente estou menos só na crítica pública de manuais. Paulo Ruas assina uma análise muito precisa ao manual, Um Outro Olhar Sobre o Mundo, Asa, 2008, na revista Crítica Na Rede. Estas análises são necessárias, pois são elas que nos ajudam a limar as arestas na nossa disciplina e a dissipar fantasmas e preconceitos em relação aos manuais. As análises são boas quando estão isentas de ideologia. Espero que, desta vez, ao autor, se discutam os erros, as imprecisões que a sua análise possa conter e não tanto aspectos que se relacionam com o insulto gratuito e reaccionarismo pouco próprio de bons profissionais, como algumas vezes vi aqui acontecer. Venham mais análises.

publicado por rolandoa às 16:42

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25 comentários:
De catia faria a 30 de Maio de 2008 às 18:20

Sim, parabéns ao Paulo Ruas pela análise (que já enviei para o grupo de filosofia da minha escola que tinham o «outro olhar..» como segunda escolha) e pelo trabalho conseguido com o Logos. Veio, aliás, limpar a anterior mancha da Santilhana - «Ágora», manual com o qual queriam que ensinasse filosofia, este ano... Enfim...

Abraço, Cátia
De rolandoa a 30 de Maio de 2008 às 21:44
Viva Cátia,
Temos de ter paciência. Uma coisa que estou algo ansioso é de saber os resultados das adopções. Para mim será escandaloso se vir que manuais como o Pensar Azul ou O Outro olhar sobre o mundo foram adoptados massivamente. Isso ficaria muito mal aos professores de filosofia, logo agora que a imagem dos profes anda tanto por baixo, atiravamos ao ar uma boa oportunidade de mostrar que somos competentes na nossa disciplina.
abraço
De António Paulo a 30 de Maio de 2008 às 23:01
Rolando
Eu estou um pouco pessimista. Creio que vamos assistir ao um renascer do livro da asa. Para meu azar, a escola onde o meu filho estuda (para o ano vai para o 11º) parece que vai adoptar o outro olhar, por exemplo. Há professores, que por comodismo, não querem mudar as suas práticas. Mudar significa estudar, investigar, investir em livros, perder mais horas de trabalho, etc., mas isso dá muito trabalho. E depois admiram-se que muita gente tenha uma má imagem dos professores.
Saudações
Antóni Paulo
De rolandoa a 30 de Maio de 2008 às 23:33
António,
Tens um herdeiro crescido!!! O meu (que está aqui ao meu lado) só vai nos 6 meses.
Pois, o problema é que os nossos colegas não se dão conta que estão a dar cabo da disciplina, ou se se dão conta estão-se nas tintas e tanto lhe dá ensinar filosofia como cidadania. Eu, como tu, não sou indiferente 1) porque gosto muito da minha disciplina, 2) porque estou mesmo convencido da sua importância no ensino secundário. De resto numa frase conseguiste dizer o mais importante. Mas olha que, por curiosidade, podes enfrentar uma situação mesmo embaraçosa. Não me imagino nessa situação que é ter um filho e saber que ele está a estudar erros e ter de lhe dizer que ele está a estudar erros. Não deve ser nada agradável! Como é que queremos educar os nossos filhos para a verdade?
Abraço
De António Paulo a 31 de Maio de 2008 às 00:13
Rolando
Tenho um de 16 anos e outro que vai fazer 10, e preocupo-me muito com o futuro deles. E o que mais me aborrece é que no ano passado, um pouco por minha influência, porque conheço alguns professores da escola, adoptaram o arte. Mas parece que deu muito trabalho a alguns dar aulas por ele. Se calhar, pela primeira vez tiverem, eles próprios que estudar para darem aulas. E o que me revolta é que o meu filho vai passar do melhor manual de filosofia existente em Portugal (opinião muito subjectiva, mas é a minha) para o pior manual.
Não há qualquer interesse da minha parte nesta posição a não ser o querer o melhor para o meu filho.
Um abraço
António Paulo
De António Paulo a 31 de Maio de 2008 às 00:16
P.S. O único que gostou de trabalhar com o arte foi o professor do meu filho, por isso é pena não continuaram com ele, ou pelo menos com o do Luís Rodrigues, o criticamente ou o logos.
É a vida.
De rolandoa a 31 de Maio de 2008 às 00:59
è verdade Paulo. Eu também começei a estudar muita filosofia pós Arte. Que o Arte é o melhor manual acho uma crença verdadeira justificada ;-)
De Manuel Rodrigues a 31 de Maio de 2008 às 11:19
Bom dia a todos

Por acaso ninguém acha eticamente incorrecto que um autor de um determinado manual venha fazer uma crítica pública a um outro manual que lhe é concorrente, ou será que já chegamos ao vale tudo para"eliminar" a concorrência? Não quero com isto dizer que as críticas sejam ou não válidas, não vou discutir isso, mas não lhes parece, no mínimo, estranho tal atitude? Não me quero alongar em mais considerações sobre o caso mas parece-me que se está a atingir um ponto muito pouco saudável. Mas isto sou eu a pensar! Quanto às adopções, há razões que a razão desconhece.
Um abraço a todos.
De rolandoa a 31 de Maio de 2008 às 13:11
Caro Manuel,
Não existe nada de eticamente errado, bem pelo contrário. Então repare: acha eticamente errado que Descartes tenha criticado Aristóteles? Ou acha eticamente errado que Mill tenha criticado Kant? Sei que estamos pouco habituados, mas a crítica de manuais devia ser feita entre pares. Mas sabe por que razão tal não acontece, pelo menos em Portugal? Porque por cá ou se dá palmadinhas nas costas uns dos outros ou então se anda ao murro. E isto é que o Manuel deve achar eticamente errado. O Colega Paulo Ruas assinou uma crítica merecida ao manual. Eu, por exemplo, acho eticamente errado que os professores optem por um manual como o Outro Olhar Sobre o Mundo, quando tem melhores opções. E acho eticamente errado porque uma opção dessas revela claramente falta de profissionalismo.
Fez bem em focar o problema porque tocou num problema essencial
Abraço
De Manuel Rodrigues a 31 de Maio de 2008 às 14:18
Vai-me desculpar Rolando mas parece-me que os exemplos que dá para justificar o Paulo Ruas não serão os melhores. Não me parece que qualquer deles criticasse os outros para venderem mais livros do que eles. As críticas estavam num nível muito mais elevado, ao nível das ideias e das linhas de pensamento. A meu ver aqui nada disso está em jogo, é pura e simplesmente apontar os erros dos concorrentes, porque é isso que os outros são para o Paulo Ruas. Nada tenho contra a crítica aberta das ideias mas neste caso não é disso que se trata. Não se diz que se prefere esta ou outra orientação por isto ou por aquilo, diz-se que o outro não presta porque tem erros. Parece-me que é bem diferente. E reafirmo, parece-me eticamente incorrecto que se faça isso entre pessoas que são concorrentes num negócio, porque ninguém andará nos manuais por missão mas para juntar o útil ao agradável, o que é perfeitamente legítimo. Não me parece uma boa atitude, mas repito, é o que eu acho. Se a crítica fosse feita directamente ao visado nada a opor, mas publicamente parece-me que fica muito mal e mais, acho que diz alguma coisa sobre o carácter de quem o faz. Não tem de concordar comigo, claro.
Um abraço
De rolandoa a 31 de Maio de 2008 às 14:32
Manuel,
Claro que podemos discordar. O comentário que fez não é nada estupido e eu percebo-o, mas realmente discordo. Não creio que o Paulo Ruas possua qualquer interesse comercial na análise que fez. Essa é uma acusaão que também levo, mas, no meu caso, nem sequer sou autor de manuais :-) Mas ainda há um outro aspecto curioso: mesmo que tenha interesses comercias, ele tem razão em fazer a crítica que fez, por uma razão: porque o manual em causa é de facto um manual cheio de erros e foi preterido em relação ao seu - O LOgos - que é um manual muito mais rigoroso e apurado, pelo que é manifestamente injusto que o lixo venda enquanto a qualidade fica a apnanhar ar.
Em relação aos filósofos, olhe que também não é esse mar de ingenuidade que o Manuel sugere. Aliás, existe essa ideia de que os filósofos são mais puros que as outras pessoas, mas é uma ideia parcialmente falsa. Claro que os filósofos, pelo menos os bons, estavam interessados na verdade e a sua discussão e obras chegam até nós em via disso, mas não é por serem filósofos que eram melhores que os jardineiros ou os peixeiros. Há-os mais e menos honestos, mais e menos interessados na fama, etc... Neste aspecto não existe qualquer diferença significativa. São pares que se analisam, criticam e emendam e isso é prática, por exemplo, nas melhores universidades do mundo e nos melhores circuitos onde se publicam livros. Nós é que não temos esse hábito, provavelmente por termos vivido uma forte repressão de censura há tão poucas décadas.
De todo o modo eu não conheço o Paulo Ruas e tamém apontei uns defeitos ao manual dele, muito embora me paraceça dos melhores manuais para ensinar filosofia, mas não interessa muito ao caso se o Paulo Ruas quer trocar de casa ou de carro. Interessa sim, os erros que lapidarmente apontou ao manual da Asa que é, sem qualquer dúvida, um mau manual e que qualquer bom professor de filosofia evita mesmo sem ter de ler o que o Paulo escreveu.
Abraço
De Desidério Murcho a 31 de Maio de 2008 às 15:38
Caro Manuel

Se me permite, meto aqui uma colherada. A sua convicção é muito comum em Portugal — e penso que está não apenas errada como profundamente errada. Releva, aliás, um completo desconhecimento do que é a vida académica normal (provavelmente porque tal coisa não existe infelizmente no nosso país).


Se você ler revistas académicas, seja de física seja de filosofia seja de história seja de matemática, verificará uma coisa repetidamente: quando sai um livro de X quase sempre quem escreve sobre esse livro é outro académico que tem livros sobre X também. Isto é natural: quem melhor para avaliar um livro sobre X do que quem conhece profundamente o assunto?

O mesmo acontece com os manuais escolares, que são livros como outros quaisquer. Ficaria muito satisfeito com críticas feitas ao Arte de Pensar pelos meus colegas que fazem outros manuais, mas não ligaria muito a críticas feitas por quem nunca escreveu manuais. Porque essas pessoas não sabem o que é escrever manuais, não têm conhecimento aprofundado dos programas e das dificuldades de escrever um manual.

Quanto ao facto de o Paulo Ruas só apontar erros aos colegas Leitão e Abrunhosa, isso é outro assunto. Podemos não gostar da crítica do Paulo Ruas, podemos achar que é demasiado severa, ou parcial, ou injusta; podemos, em suma, criticar saudavelmente o que ele diz sobre o manual dos colegas. O que não podemos é desqualificar a sua crítica só por ele próprio ser autor de manuais. Isso é puro disparate, se me permite a franqueza.

PS: Quanto ao facto de os manuais serem um negócio, já o disse várias vezes e volto a repetir: eu teria feito o Arte mesmo que nenhum dinheiro ganhasse com o manual, tal como faço muitas outras coisas pela filosofia sem ganhar dinheiro com isso. Mas não me parece que ganhar dinheiro com livros seja uma coisa má. Os professores ganham dinheiro a dar aulas, e não vejo qual é o problema disso. Vejo um grande problema é quando se ganha dinheiro com maus livros e más aulas.
De Manuel Rodrigues a 31 de Maio de 2008 às 16:13
Caros Rolando e Desidério

Não vou alimentar esta polémica muito mais, até porque tenho trabalhos dos alunos para corrigir e está visto que o nosso desacordo é total. Não está em causa a crítica, nem está em causa uma pretensa posição sobre determinada matéria, teoria ou ideologia, o que aqui está em causa é uma posição que eu considero eticamente incorrecta, mas repito, sou eu a pensar nestas coisas. Quanto aos autores de manuais ganharem dinheiro também não está em causa, acho muito bem que o façam, quanto mais não seja estão a trabalhar para aqueles que não os fazem e para os alunos e acho muito bem que ganhem dinheiro com o seu trabalho. Com o que eu não concordo é com estas atitudes. O que está aqui em causa não é uma obra, por exemplo, a por em causa alguns princípios da teoria da relatividade, como é o caso da investigação do João Magueijo , o que pode ser rebatido e discutido, ou qualquer trabalho científico universitário que é discutido sem qualquer interesse comercial. O que aqui está em causa é um autor de uma manual, não interessa para o caso o que se passa na sua escola, que faz publicamente uma crítica (apontando exclusivamente os erros, e repito que não está em causa o acerto dessa crítica) quando é um concorrente directo, não me parece ético, é concorrência desleal, digo eu, mas também pouco importa não é verdade. Uma coisa completamente diferente são as críticas feitas pelo Rolando, por mim ou por qualquer outro colega a este ao aquele manual, não temos interesse directo no assunto, podemos mostrar preferência por este ou por aquele que isso não aquece nem arrefece, agora os autores entrarem nesta onda parece-me que lhes fica mal. Outra coisa seria se o Paulo Ruas tivesse enviado as críticas directamente aos autores do manual da Asa. Sinceramente, enquanto professor de filosofia, não me revejo nestas atitudes.
Um abraço
De Manuel Rodrigues a 31 de Maio de 2008 às 16:13
Caros Rolando e Desidério

Não vou alimentar esta polémica muito mais, até porque tenho trabalhos dos alunos para corrigir e está visto que o nosso desacordo é total. Não está em causa a crítica, nem está em causa uma pretensa posição sobre determinada matéria, teoria ou ideologia, o que aqui está em causa é uma posição que eu considero eticamente incorrecta, mas repito, sou eu a pensar nestas coisas. Quanto aos autores de manuais ganharem dinheiro também não está em causa, acho muito bem que o façam, quanto mais não seja estão a trabalhar para aqueles que não os fazem e para os alunos e acho muito bem que ganhem dinheiro com o seu trabalho. Com o que eu não concordo é com estas atitudes. O que está aqui em causa não é uma obra, por exemplo, a por em causa alguns princípios da teoria da relatividade, como é o caso da investigação do João Magueijo , o que pode ser rebatido e discutido, ou qualquer trabalho científico universitário que é discutido sem qualquer interesse comercial. O que aqui está em causa é um autor de uma manual, não interessa para o caso o que se passa na sua escola, que faz publicamente uma crítica (apontando exclusivamente os erros, e repito que não está em causa o acerto dessa crítica) quando é um concorrente directo, não me parece ético, é concorrência desleal, digo eu, mas também pouco importa não é verdade. Uma coisa completamente diferente são as críticas feitas pelo Rolando, por mim ou por qualquer outro colega a este ao aquele manual, não temos interesse directo no assunto, podemos mostrar preferência por este ou por aquele que isso não aquece nem arrefece, agora os autores entrarem nesta onda parece-me que lhes fica mal. Outra coisa seria se o Paulo Ruas tivesse enviado as críticas directamente aos autores do manual da Asa. Sinceramente, enquanto professor de filosofia, não me revejo nestas atitudes.
Um abraço
De rolandoa a 31 de Maio de 2008 às 16:23
Manuel, Também estou a responder no meio dos testes e ensaios dos alunos :-) Claro que temos diferentes posições pelo modo como, logo à partida, encaramos as coisas. Por exemplo, eu não vejo diferença substancial entre o desafio que a obra do Magejo faz para a física teórica e o que um manual pode fazer para o ensino da filosofia. São campos de actuação distintos, nada mais. O João Magejo discute teorias físicas com os fisícos e os autores de manuais podem discutir o potencial didáctico dos manuais uns com os outros. Tal como os engenheiros discutem como se fazem pontes uns com os outros. Sabe quem ficaria a ganhar com esta dinâmica? A própria filosofia, uma vez que veria os erros reduzidos nos manuais. Se não há crítica, os erros continuam a desfilar alegremente nos manuais.
Obrigado. Manuel, lançou uma boa questão. Um destes dias vou escrever algo sobre essa matéria e o Manuel se quiser fazê-lo terei gosto em publicá-lo, sem problemas.
Abraço
De Carlos Silva a 31 de Maio de 2008 às 17:48
Rolando,

Embora o diálogo não seja comigo, gostaria de referir umas ideias.
Em primeiro lugar, tenho a convicção de que se a imagem da Filosofia não está famosa, tal não se deverá única e exclusivamente aos manuais. A própria escola está, hoje, a atravessar uma crise sem precedentes. Trata-se do próprio conceito de Escola e Educação que estão em jogo. Veja-se, a esse exemplo, a introdução do ensino profissional e de outros cursos. Por si só, este facto até pode ser encarado como algo positivo. Mas um certo espírito de "facilitismo" impera no ar, actualmente. E isto é que é condenável porque sem trabalho não se consegue nada. Atrever-me-ía, mesmo, a constatar uma certa crise de valores. Hoje, qualquer pessoa (e os jovens também) tem o mundo nas suas mãos, na ponta dos seus dedos. À distância de um simples clique. Este simples facto, entre outros, neutro à partida, conduz à sensação de "saciedade", de que as coisas estão ao virar da esquina, à nossa espera sem qualquer esforço. É o próprio espírito da época que está em causa. Claro que fazer generalizações é perigoso mas não será um pouco o que se passa hoje em dia?
De seguida, embora não seja autor de manuais e não querendo tomar partido por este ou aquele manual, queria, se me é permitido, tecer algumas considerações em relação ao "Arte de Pensar". O manual parece conceder um segundo plano à lógica silogística, até na sequência com que esta é apresentada, a seguir à proposicional, contrariando aquilo que normalmente acontece. Penso que alguns exemplos que são apresentados como argumentos pecam, em minha opinião, por algum déficit de clareza. No que concerne à chamada inferência imediata, omite a oposição e em relação à conversão, afirma que as proposições de Tipo A não se convertem. Porquê? Dizer que Todo A é B não é equivalente a dizer que Algum B é A? Afirma, ainda, que as de tipo O também não se convertem quando tradicionalmente se apresentam a negação e a contraposição como vias possíveis.
No que diz respeito aos argumento não dedutivos, não sei se se chega a definir o que é uma indução. Parece ser intenção do(s) autor(es) definir o que não é.
No que diz respeito ao conhecimento a priori e a posteriori, afirma que "também se chama conhecimento empírico ao conhecimento a priori".
Em minha (modesta) opinião, o capítulo da lógica silogística será o ponto fraco deste manual embora este se revele como inovador.

Abraço,
Carlos JC Silva
De Desidério Murcho a 31 de Maio de 2008 às 18:22
Caro Carlos

Todas as críticas ao Arte são bem-vindas; temos até um fórum onde essas críticas podem ser postas directamente aos autores, e são-no muitas vezes. E o nosso manual é lido atentamente por muitos professores à medida que está a ser elaborado.

Não há qualquer subalternização da lógica silogística. Na edição anterior a lógica silogística surgia antes da proposicional, mas isto é irrelevante, dado que o professor ou dá uma ou dá outra. Que diferença pode fazer a ordem? Mas é evidente que a lógica silogística tem muitíssimo menos importância do que a proposicional — para começar, aplica-se apenas a 4 formas proposicionais, ao passo que o número de formas proposicionais a que se aplica a lógica proposicional é infinito. Contudo, o capítulo de lógica silogística foi totalmente reescrito e penso ser de todos os manuais o que oferece mais conteúdos cognitivamente relevantes aos estudantes, em grande parte porque não ficámos presos à apresentação tradicional da silogística, que pouco mais consiste do que em montes de coisas para decorar que depois não têm qualquer aplicação em coisa alguma.

Quanto às chamadas inferências imediatas, peço desculpa mas o Carlos não tem razão. A conversão de “Todos os marcianos são duendes” não pode converter-se em “Alguns duendes são marcianos” pela simples razão de que a primeira é verdadeira e a segunda falsa. Este tipo de conversão só pode fazer-se excluindo classes vazias, Carlos, coisa que nós não fazemos, precisamente para não restringir tanto a silogística.

Quanto à indução, apresentamos claramente na página 92 os dois tipos de indução (previsão e generalização), com exemplos esclarecedores. Mas é verdade que não as definimos explicitamente (apenas implicitamente, através dos exemplos). Obrigado pelo reparo, se bem que não sei até que ponto é realmente importante definir explicitamente a indução. Em todo o caso, faça-se a justiça de reconhecer que a definição cientifica rigorosa de termos cruciais não era prática habitual nos manuais de filosofia antes do Arte.
De Desidério Murcho a 31 de Maio de 2008 às 18:28
Esqueci-me do conhecimento empírico: Carlos, obrigado por ter encontrado essa irritante gralha. Já foi anotada e será corrigida na versão definitiva do manual.
De rolandoa a 31 de Maio de 2008 às 18:51
Caro Carlos,
Já vi que o Desidério respondeu a algumas das questões. Mas queria acrescentar algo mais. O Carlos diz:

“Embora o diálogo não seja comigo, gostaria de referir umas ideias. Em primeiro lugar, tenho a convicção de que se a imagem da Filosofia não está famosa, tal não se deverá única e exclusivamente aos manuais. A própria escola está, hoje, a atravessar uma crise sem precedentes.”
Sem dúvida que sim. A escola de hoje coloca outros problemas e exige outras respostas. Nós em Portugal temos tido políticas educativas pouco consistentes e corajosas, embora todo o problema também não passe somente pela política. É evidente que há uma questão social. Não sei se há crise de valores. Pessoalmente creio que os valores tradicionais nem sempre foram os melhores. O discurso da crise de valores foi muito popularizado pelos autores de esquerda que serviam os interesses da esquerda política e intelectual. Não creio que hoje exista mais crise de valores que noutros tempos. Creio é que temos os nossos problemas como todo e qualquer tempo teve os seus.


“Trata-se do próprio conceito de Escola e Educação que estão em jogo. Veja-se, a esse exemplo, a introdução do ensino profissional e de outros cursos.”
Já trabalhei no ensino profissional e ele pode ser tão válido quanto qualquer outro. O problema das políticas educativas é pensar que se reintroduz o ensino profissional e resolve-se o problema do insucesso. Isso é que me parece idiota.

“Mas um certo espírito de "facilitismo" impera no ar, actualmente. E isto é que é condenável porque sem trabalho não se consegue nada.”
Certíssimo. Não acrescento nem mais uma linha. Este é, no meu ponto de vista, situar bem o problema. Não é preciso dizer mais nada Carlos.
Em relação ao Arte:
Vou tentar responder em nome próprio, pelo que os autores podem e devem ter outras justificações. O facto da lógica proposicional aparecer em 1º ou 2º lugar não oferece qualquer obstáculo dado que são opcionais, com efeito, levanta-lhe a suspeita de um privilégio em relação às lógicas. Bem, mas nesse caso também podemos ter a suspeita em relação ao programa. Por que razão inclui o programa a lógica aristotélica em opção se ela praticamente já não é usada pelos filósofos? Temos a tendência a não por em dúvida as orientações do programa que, a meu ver, em muitos aspectos, são questionáveis, como é o caso concreto da lógica. Do mesmo modo era normal os manuais apresentarem a fenomenologia que é uma explicação do conhecimento, em vez do problema central do que é o conhecimento. Ora a fenomenologia consiste numa resposta e não no levantamento do problema tal qual aparece em Platão. Hoje em dia podemos observar que todos os manuais fazem a norma ao colocarem o problema do Teeteto nessa unidade e a maior parte já retirou a fenomenologia. Portanto afirmar que é normal ser de um determinado modo pode incorrer na falácia de apelo ao povo.
Em relação às outras questões ainda bem que o Desidério Murcho amavelmente respondeu.
Abraço

De Carlos Silva a 31 de Maio de 2008 às 21:17

Antes de mais, os meus agradecimentos à amabilidade e prontidão com que Desidério Murcho respondeu às observações anteriormente feitas.

Rolando: quando abordo a lógica clássica, costumo ter o cuidado em mostrar a importância prática, por exemplo, do silogismo. Se argumentarmos, a título de exemplo, que "A lógica é útil porque nos permite descobrir sofismas", pode solicitar-se a identificação da conclusão e da(s) respectiva(s) premissas. E a partir desse ponto, a formulação do respectivo argumento na sua forma canónica/padrão (silogismo). Óbvio que o tipo de raciocínio subjacente à tarefa é mais enriquecedor do que pura e simplesmente apresentar-se um dado silogismo e solicitar se é válido ou não. Neste sentido, a lógica clássica não é totalmente destituída de importância.
Quanto à questão do conhecimento, tradicionalmente ou normalmente era hábito fazer-se uma descrição do "fenómeno" do conhecimento, a qual tem apenas um significado preparatório. A sua missão não era resolver, como refere Hessen, J., o problema do conhecimento mas sim conduzir-nos à presença desse problema. E este método (fenomenológico) tinha virtualidades. Como introduzir a questão, por exemplo, do problema da essência do conhecimento? Na descrição fenomenológica do conhecimento caracteriza-se a relação sujeito/objecto como uma determinação do sujeito pelo objecto. Mas é legítimo perguntar-se se esta concepção da consciência natural é justa. E assim somos conduzidos ao respectivo problema da essência ou natureza do conhecimento. Talvez seja uma perspectiva mais complexa mas isso é outra questão. Também vejo virtualidades na abordagem do conhecimento (como CVJ) feita por Platão que permite, possivelmente, uma melhor análise dos fundamentos das nossas crenças. Todavia, a ruptura com o "paradigma" anterior foi talvez, um tanto ou quanto violenta.

A este propósito, deixo aqui a referência de:

"Realidade, Conhecimento, Filosofia",
Stephen Hetherington,
Instituto Piaget

em especial os capítulos sete, oito e nove.

É verdade que a norma, agora, começa a ser esta abordagem do conhecimento. Mas, Rolando, continua a ser verdade que afirmar que é normal ser de um determinado modo pode incorrer na falácia de apelo ao povo.

Abraço,
Carlos JC Silva
De Desidério Murcho a 31 de Maio de 2008 às 21:52
Olá, Carlos!

Obrigado pela sua amável resposta. Quero só dizer duas coisas.
Primeiro, que a lógica silogística é muito limitada (e não lhe chame “lógica clássica”, porque isso é a lógica proposicional). Mesmo que se faça exercícios como sugere — e concordo que se façam — só pode usar quatro tipos de proposições, e ainda para mais tipos de proposições que raramente se usa em filosofia. A lógica silogística não tem quase aplicação prática para a análise da argumentação quotidiana, científica ou filosófica.
Segundo, que aquilo a que Hessen chama “análise fenomenológica” do conhecimento não é a análise fenomenológica do conhecimento. Mesmo que fosse, não haveria qualquer necessidade de continuar a repetir um manual alemão com mais de 30 anos. Mas o problema é que essa coisa que o Hessen inventou nada tem a ver com a análise fenomenológica do conhecimento, que você pode encontrar em Husserl e nada tem a ver com essa fantasia do sujeito a entrar e a sair de si. Essa história é puro delírio, sem qualquer conteúdo cognitivo relevante para os estudantes. Para lhes dizer que o conhecimento é uma relação entre um objecto do conhecimento e um sujeito não precisamos dessa conversa confusa. Eu sei que dizer isto é uma surpresa, pois os professores tendem a repetir o que vem nos manuais sem pensar muito, mas a verdade é que o que Hessen escreveu é pura invenção. Basta aliás você tentar encontrar um filósofo da fenomenologia que tenha escrito algo que se pareça a essa história, e você vê logo que não há tal coisa. Husserl nunca escreveu nada remotamente semelhante a isso. Repetir isto é puro erro científico: repetir uma repetição sem ninguém saber já qual é a fonte. É como os boatos: toda a gente afirma a pés juntos que é verdade, mas ninguém sabe qual é a fonte.
De rolandoa a 31 de Maio de 2008 às 22:55
Olá Carlos, Antes de tudo tenho de lhe dizer uma coisa muito pessoal. O Carlos já há algum tempo que participa no blog e eu aprecio muito a sua atitude. É uma pessoa muito educada, discorda sem fazer ataques pessoais e essa é uma qualidade que merece ser destacada. Para além de tudo ainda faz uma coisa muito, mas mesmo muito saudavel, que é deixar algumas referências bibliográficas. Neste sentido, só tenho a agradecer-lhe. Com essa atitude positiva conseguiu até cativar o Desidério a dar algumas dicas e trocar impressões. Bom, realmente a lógica clássica é a proposicional e a lógica silogística é a Aristotélica. A lógica silogística que aparece nos manuais é a que sofreu remodelações com os filósofos medievais. Nós temos uma história da lógica traduzida na Gulbenkian, do Kneale, mas parece-me um bocado exaustiva para o que precisamos de saber. Creio que o Kenny, na história concisa aborda um pouco de história da lógica. Talvez, para economizar tempo, valha a pena ir por aí. Já agora aproveito para um outro aspecto. Encontro frequentemente colegas que fogem da lógica e, quando tem de a ensinar, fogem da lógica proposicional. Bem confesso que eu já fiz isso no passado. Actualmente ensino lógica proposicional e o que é facto é que a qualidade das minhas aulas melhorou muito, precisamente porque, com a lógica proposicional me engano muito menos dado que se trata de uma lógica mais completa. Para além de tudo os alunos gostam mais de testar argumentos com a proposicional. Posso partilhar a forma como aprendi lógica proposicional (bem hei-de fazer um post sobre isto). O primeiro livrinho que li atentamente e que me fez ver a quantidade de erros que eu cometia ao ensinar lógica foi o de Desidério Murcho, O lugar da lógica na filosofia, um livro que se compra por uns euros. Para apurar um pouco o meu conhecimento recorri ao Newton Smith, Lógica, um curso introdutório, Gradiva. Depois, o próprio Arte de Pensar é um bom guia com a vantagem de ter bons exercícios. Não precisamos, para começar e dar as nossas aulas, de mais nada. Felizmente tive a oportunidade de fazer a acção de formação com o Desidério que foi como que um limar de arestas. Ensinar a lógica proposicional tem uma vantagem didáctica insuperável: é que pode aplicá-la ao resto do programa. Se tiver a sorte de trabalhar com um manual como o Arte, então verá a consistência. E os alunos agradecem porque estão desde a 1ª aula a aplicar os conhecimentos. É uma experiência muito gratificante.
Em relação à fenomenologia: bem, acho uma área não muito básica para ser ensinada no secundário, mas, na verdade, não é impossível de ser ensinada. O que lhe disse é que a fenomenologia não deve aparecer em alternativa à CVJ e isto porque, a CVJ é a explicação tradicional do que é o conhecimento e a fenomenologia responde a um outro problema, que é a origem do conhecimento, defendendo que o conhecimento aparece na consciência separado do mundo dos objectos. Ora, até faz sentido que a fenomenologia apareça ao lado do racionalismo e do empirismo. Acontece que não será, porventura, a tese mais básica. No secundário temos de começar pela base, não podemos ser ambiciosos para fazer alta costura filosófica, com uma linguagem que os alunos não gostam. Mas também não precisamos do extremo oposto, que consiste numa banalização tão estupidificante da filosofia que se resvala facilmente para a sociologia de café.
Volte sempre
abraço

De Desidério Murcho a 31 de Maio de 2008 às 18:35
Manuel, só não seria ético se os outros autores de manuais não pudessem fazer o mesmo em relação ao manual do colega, coisa que podem fazer. A sua posição é insustentável, porque significaria a limite que nunca um académico poderia criticar o trabalho de outro, porque somos todos concorrentes: quando abre um concurso para uma universidade, concorremos uns contra os outros. Talvez seja por causa dessa mentalidade que em Portugal você nunca pode ler um só artigo científico que critique abertamente o trabalho de um colega. Mas isto é absurdo! Sem a crítica aberta não há progresso, não há melhorias, não se corrigem os erros. Grande parte da qualidade do trabalho que eu faço resulta da crítica dos meus colegas, sem isso o meu trabalho seria muitíssimo pior. O que é preciso é acabar com essa mentalidade secretista. Deve-se criticar, sim, e devemos criticar manuais e as pessoas mais qualificadas para criticar manuais são outros autores de manuais. É irrelevante que sejam “concorrentes”, dado que criticar manuais não é apontar uma arma aos professores para adoptar o nosso próprio manual. E se o autor se sente injustiçado, pode responder também publicamente, como eu faço aqui. Não seria eticamente aceitável caso os autores visados quisessem responder e não pudessem, ou caso quisessem criticar outros manuais e não pudessem. Mas nada disso acontece.

O silêncio sobre os manuais é que é eticamente inaceitável, pois dá origem à aberração de manuais eivados de erros científicos e didácticos serem comprados por milhares de famílias portuguesas. Não há outra maneira de elevar a qualidade dos manuais a não ser discuti-los publicamente, e não há mais ninguém com melhores qualificações para o fazer do que outros autores de manuais.
De Paulo Ruas a 16 de Junho de 2008 às 12:59
Caros amigos,

Embora me pareça que o Desidério e o Rolando já disseram o que havia para dizer de essencial sobre a ética da crítica entre pares, gostaria de acrescentar o seguinte. Quer todas as escolas adoptassem o manual de que sou co-autor quer nenhuma o fizesse, nem eu nem o António Lopes ganhamos (ou perdemos) um só euro com isso. Ambos vendemos os direitos à editora, tendo sido integralmente pagos muito antes de os manuais saírem para as escolas. E isto, é claro, pode ser confirmado.

Abraço
De rolandoa a 16 de Junho de 2008 às 13:17
Olá Paulo,
É bom que faças essa advertência na 1ª pessoa. Há colegas que dificilmente concebem a ideia de que possamos estar genuinamente interessados em bons manuais. De resto até deveríamos ficar contentes sempre que os autores de manuais fazem intervenção crítica ao analisar os manuais dos seus pares. Ao mesmo tempo deveríamos ficar descontentes quando algum professor universitário empresta o nome para a revisão científica para um manual que fracassa precisamente no rigor científico.
abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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