Sábado, 24 de Maio de 2008

Ser silenciado em Portugal

 plaza-6 Peter Singer tem um texto, incluído tanto em ética prática (Gradiva), como em Escritos sobre ética (D. Quixote) que se chama, “Ser silenciado na Alemanha”. Neste texto o filósofo australiano e professor de Princeton, uma das maiores e prestigiadas universidades americanas, relata os acontecimentos numa das suas idas à Alemanha, quando do público lhe saltaram radicais defensores dos direitos dos deficientes e lhe partiram os óculos em pleno palco. Inicialmente Singer ficou atónito com tal reacção, mas no seu texto explica um dado muito curioso, que os fulanos que fizeram tal investida nunca o tinham lido. Ora, se há filósofo que se bate pelos direitos morais dos deficientes é precisamente Singer, mas somente porque o filósofo defende que não existe problema moral na eutanásia, foi interpretado literalmente com a força dos preconceitos hitlerianos. Uma das praças mais bonitas que vi em cidades que vou conhecendo é a Plaza Mayor em Salamanca, Espanha. Essa praça tem à volta uma série de bustos de personalidades da cultura de Espanha, desde Cervantes a Franco.

Rolando Almeida

arton122 Ora, uma vez contaram-me que o busto de Franco é o que mais reluz de todos os bustos da praça (e recordo que não são poucos). E isto porquê? Os putos anarquistas resolveram pelas madrugadas da cidade atirar baldes de tinta para o busto do ditador espanhol. Ora, os empregados municipais tinham um trabalhão só para limpar o busto, até que, depois de tantas investidas anarquistas, resolveram envernizar o busto de um modo especial para a ser mais fácil de limpar. Resultado, o que conseguiram os anarquistas? Dar mais brilho e saliência precisamente ao objecto que desejavam ver dali para fora. Estas são as consequências de quando não reflectimos muito bem nas coisas e nos precipitamos. Erros destes acontecem, mas em muitas situações, como a de Singer e a dos anarquistas, bastava um gesto muito simples para os evitar: antes de agir, ler as fontes e aprender com elas. Bom, não me quero comparar de modo algum a estes exemplos, mas é algo parecido o que tenho sentido em relação aos manuais e às análises que tenho feito. Recebo algum feed back de colegas que me vão descrevendo os processos de adopção de manuais nas suas escolas e fico tão atónito como o Singer, pois concluo que muitos colegas professores de filosofia eram capazes de me dar uns murros no nariz somente porque analisei justificadamente todos os manuais, levantando alguma poeira ao assunto, é certo. Tenho sabido de situações impressionantes e é curioso que no meu grupo de trabalho na escola onde lecciono, nem todos estamos de acordo e nem por isso as pessoas deixam de gostar e poder trabalhar umas com as outras, mesmo que determinadas decisões não agradem a gregos e troianos. Além do mais sobra-me sempre uma questão: de que valem estas guerras quando o que está em causa é salvar a filosofia duma situação ambígua em que a mergulharam, muito por culpa dos próprios profissionais da filosofia, é certo. Que resultados esperar quando pensamos que um colega só porque tenta partilhar uma série de considerações num blog é alguém “a evitar”? Esta parece-me ser uma atitude pouco profissional e nada digna para a filosofia e o seu ensino. A conclusão a chegar é só uma: o meu blog é completamente livre, tão livre que qualquer professor esteve convidado publicamente por mais do que uma vez a publicar os seus textos de análise de manuais. Recebi 0 (Zero) críticas a manuais, mas recebi dezenas de críticas à minha pessoa, mesmo que todas viessem de colegas que nunca me viram à frente. Faz isto algum sentido? Isto, em filosofia, tem um nome: ataque ad hominem. Consiste em fugir de todas as tramitações da argumentação e justificação racional de crenças. Pronto, vá lá, hoje é sábado, não tomei banho, cheiro menos bem dos sovacos. Faz algum sentido que um leitor, em resposta a este post, me escreva algo como: “Caro Rolando, você não tem razão no que diz porque cheira mal dos sovacos e o manual que mais gosta também cheira mal dos sovacos”. Faz isto algum sentido? Isto é uma forma de querer sorrateiramente silenciar os meus argumentos, o que não é justo principalmente quando eu próprio desafiei os colegas a fazer o mesmo que eu faço, mas de forma clara e aberta disponibilizando para tal o espaço do meu blog. Claro que nem tudo são dramas e é verdade que recebi imensos comentários de colegas que procuraram apresentar razões. Quando discordei, apresentei contra razões. Curiosamente ninguém me apresentou o argumento que todos os manuais são difíceis para os alunos. É que provavelmente tal argumento poderia ser interpretado como: se todos os manuais de filosofia são difíceis para os alunos, logo a filosofia é difícil para os alunos. Isso seria o princípio do fim, pois mais valia acabar de vez com a disciplina e irmos todos cavar batatinhas. Com efeito até essa ideia tenho defendido que é falsa e curiosamente esse é também um dos critérios que tenho apresentado para analisar manuais, mesmo que ponha a nú algumas opções que afirmam que o manual Y é o mais fácil e eu dou exemplos que demonstram claramente que não é. O processo de adopção de um manual é muito simples: o voto de um professor que perdeu 15 segundos a olhar para um manual vale tanto como o que perdeu noites. Acontece que, naturalmente o que perdeu noites sabe melhor do que está a falar e tem menos probabilidades de ter uma má opção, mas pode ter de enfrentar a situação de ver adoptado um manual sem grande critério para tal. Mas isto é mesmo assim e não vale a pena dramas. Creio que todos nós temos um grande desafio pela frente: ou salvamos a filosofia ou – mesmo ingenuamente – a enterramos definitivamente. O trabalho está nas nossas mãos. Quando me apercebi dessa realidade arregacei as mangas e lancei-me ao trabalho. Não estou arrependido do que tenho feito. Mas confesso que não esperava tanto reaccionarismo. E isto de optar por um manual é mais objectivo do que aquilo que se pensa, doa a quem doer. Se um professor deseja optar por um manual porque irreflectidamente vê noutra opção uma conspiração, é bom que comece a pensar onde realmente está o acto conspirativo e que tenha responsabilidade para com as suas acções e opções. Se as coisas não andam bem era bom que pensássemos em mudá-las, sem pseudo teorias da conspiração, mas com argumentos sérios e racionalmente pensados. E quando não sabemos é bom saber perguntar ou informar-se, isto porque a filosofia é a minha profissão e eu não ando aqui a brincar aos cowboys. E nem queria ver-me na situação de ter de ensinar o resto da vida cidadania ou, na pior das hipóteses, ir para o desemprego, ao mesmo tempo que vejo ingressar no ensino todo o tipo de técnicos mal preparados como formadores e professores. É que na filosofia não somos assim tantos para ir para o desemprego. Acontece que a nossa disciplina tem boas razões para mostrar que é central e útil para os estudantes. Mas para isso não podemos ir com as tretas que ensinamos filosofia com poesia. Para isso os estudantes tem os professores de português, que, curiosamente, se queixam que os alunos não se interessam por poesia. Conto com o bom senso de todos e sobretudo uma postura séria. Cada professor é livre de votar neste ou naquele manual, ainda que não seja livre de trabalhar com este ou aquele manual, dependendo da decisão de cada grupo disciplinar.

publicado por rolandoa às 16:14

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6 comentários:
De António Paulo a 24 de Maio de 2008 às 21:35
Rolando
E é bom lembrar que a presente adopção é válida para seis anos. O que torna a adopção do manual uma maior responsabilidade.
Tens toda a razão ao afirmar que cada professor é livre de votar no manual que quiser, mas também é livre de trabalhar com o manual que quiser.
Nas últimas adopções a escola onde leccionava resolveu adoptar aquele que na altura era o manual mais adoptado "Um outro olhar sobre o mundo". Passados os três anos, todos aqueles que tinham escolhido o manual estavam fartos dele e começaram a apontar alguns erros . Contudo, apesar disso, alguns continuavam a seguir o manual, outros, como eu deixei de o ter em conta.
Um abraço
António Paulo
De rolandoa a 24 de Maio de 2008 às 23:35
António Paulo,
claro que os professores tem de ter essa responsabilidade. Confesso abertamente que não tenho grandes problemas em mostrar porque é que uns manuais são melhores que outros e muitos deles são claramente más opções. Por regra quem prefere um mau manual nunca expõe claramente as razões da sua escolha. Isto de apontar erros parece heresia, mas aprendi alguma coisa com o famoso embuste Sokal: também nos meios académicos pos modernos era corrente nunca ninguém apontar erros a ninguém e toda a gente dava palmadinhas nas costas uns dos outros. Acontece que o Sokal e o Bricmont montaram um embuste fantástico: escreveram um artigo supostamente pos moderno cheio de erros básicos e toda a gente mordeu o isco. Mas mais tarde denunciaram o caso. Olha agora a ver se um destes dias me dá na gana fazer um manual com erros propositados. Gostaria de ver se o manual teria êxito. A avaliar pelo andamento da caravana, acredito que sim, que seria adoptado!!!
abraço
De Isabel a 25 de Maio de 2008 às 02:00
A Praça de S. Marcos em Veneza e a Grand Place em Bruxelas também são muito bonitas. Foi das que mais gostei por essa Europa fora...
Isabel
De rolandoa a 25 de Maio de 2008 às 02:28
Isabel,
Acredito pois, mas ainda não tive o prazer de passar por lá. mas ainda bem que lembrou: vou ver umas imagens :-)
De Isabel a 25 de Maio de 2008 às 12:27
Estive a ler posts anteriores. Parabéns pelo trabalho que desenvolve nessa escola. Li com atenção os ensaios dos alunos. Amanhã vou mostrar aos meus alunos, pois também eles, vão escrever um ensaio brevemente. Claro que já o andam a preparar.
Na minha escola também fazemos actividades interessante. Talvez, não com esta dimensão. Fazemos o que podemos. Comemorámos em Novembro o Dia Mundial da Filosofia com actividades que agradaram muito aos alunos e restante comunidade educativa. No Dia Aberto, ocorreu um debate interdisicplinar (Filosofia/Geografia), sobre a Ciência e a Tecnologia. Os alunos intervenientes portaram-se muito bem, pois usaram argumentos e contra argumentos convincentes. Gosto da Net porque podemos partilhar experiências entre escolas. Há dias através de acessus. net, descobri um blog de filosofia da Escola de Oliveira do Bairro -Aveiro, que mostra também actividades que o grupo de Filosofia desenvolve com os alunos.
Gostei de ler as dez falsas questões sobre a filosofia.
Isabel
De rolandoa a 25 de Maio de 2008 às 14:06
Isabel,
Eu diria que um dos grandes testes para os estudantes deveria ser o ensaio filosófico, pois é aí que eles tem a oportunidade de 1) mostrar que conhecem e 2) defender os seus pontos de vista. Claro que estou a falar de ensaios de duas páginas e com bibliografia devidamente orientada.
Obrigado pelas tuas palavras e pela partilha. Eu sei que me farto de repetir, mas a ideia é mesmo revitalizar a filosofia.
abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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